Procurando há dias pelos mais bizarros recordes mundiais do Guinness, apanhei um particularmente sul-europeu. Em 2003, a localidade de Los Palacios y Villafranca, de uns 35 mil habitantes, confeccionou a maior quantidade de polpa de tomate alguma vez registada, utilizando para tal mais de 5 mil quilos do fruto que, por aquelas terras, nascem viçosos e sumarentos no calor andaluz.
E alguma coisa os tomates de Los Palacios y Villafranca devem ter. Ao dar uma vista de olhos pela ficha da final da Liga das Nações de 2023, ganha pela Espanha, o dado demográfico mais interessante não é nem de perto nem de longe que Luis de la Fuente tenha chamado dois centrais nascidos em França ao onze. Mais curioso é constatar que três dos titulares nasceram no pueblo que 20 anos antes tinha entrado no Guinness Book por causa dos seus tomates.
Jesus Navas, Fabián Ruiz e Gavi são de gerações bem distintas, mas vêm todos do mesmo berço. Um berço que não é o celeiro da Catalunha, a escola basca ou os arredores de Madrid mas sim uma vila onde toda a gente ainda dá os bons dias aos vizinhos. Na altura, depois da vitória na Banheira de Roterdão, o trio foi recebido em festa pelas autoridades locais. Naturalmente, como presente, a Associação de Produtores do município ofereceu-lhes os respetivos pesos em tomate. Fazendo as contas, Jesus Navas, pequeno e leve, levou 65 quilos de tomate para casa, Gavi, baixo mas entroncado, 70 quilos, e Fabián, o mais espadaúdo de todos, uma caixa de 82 quilos do precioso fruto, tão autóctone quanto eles.
Mas não é só no futebol: José Antonio Rueda, atual campeão mundial de Moto3, também é de Los Palacios Y Villafranca. Fala-se até em Espanha do milagre da estrada A-362, que liga Los Palacios y Villafranca a Utrera, a 10 quilómetros de distância, um município não muito maior e de onde são naturais Dani Ceballos, o malogrado José Antonio Reyes ou Joaquín Caparrós, um dos treinadores com mais jogos na La Liga.
A explicação para tal germinação de talento, quase à mesma velocidade da produção de ingredientes para saladas, teria mais graça se fôssemos pelo caricatural, pelas potenciais propriedades mágicas dos tomates saídos daquelas terras, mas, como em tudo, há razões mais científicas. Los Palacios y Villafranca não é uma cidade grande, mas também não é uma aldeia. Tem acesso rápido a Sevilha. Tem fortes estruturas desportivas e familiares. Tudo isto já foi identificado pela academia como fatores de sucesso.
Mas depois há um fator mais romântico e que, quero acreditar, é tão ou mais relevante: em Los Palacios y Villafranca ainda se joga futebol na rua, ainda se sente o talento callejero das hordas de miudagem a trocarem a bola nas ruas que todos conhecem e em que todos se conhecem. Há desembaraço, não há robôs. Não há a pressão das grandes academias.
E, por isso, longa vida aos tomates de Los Palacios y Villafranca. E aos seus jogadores também.
Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.
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