Não sei se há algo de racional na minha relação com o Atlético Madrid. É tudo feito de sensações, de contrastes, do meu lugar no mundo naquele momento e naquele espaço específicos, em linha paralela com a própria metamorfose de clube.
Quando os jogos da liga espanhola começaram a ser assunto de televisão aberta em Portugal, ali nos anos 90, não os podia ver nem pintados de cores de colchão porque Simeone, Caminero e Kiko roubavam títulos ao Barça de Cruyff, Figo e Guardiola, depois de Robson e Ronaldo. Nem as camisolas patrocinadas pela Bandai, para mim sinónimo de Super Sentai e de Power Rangers, me fizeram empatizar mais com o Atlético enquanto festejava ferozmente aquele 5-4 na Taça do Rei, em 1997, em que o Barcelona tinha estado a perder por 3-0 antes de recuperar, num dos momentos fundacionais da minha relação com o desporto, porque quem não ama um bom drama?
Assisti, por isso, com alguma indiferença à queda do Atlético à segunda divisão, ao fim da colorida e muy criminosa era de Jesus Gil y Gil. Não me tocou particularmente o regresso à La Liga, duro, não tão fácil como seria de esperar. Mas algo mudou quando, nos dias áureos dos seis títulos na mesma época do Barcelona de Messi e Pep, me mudei para Madrid. Fazia a mesma linha de metro que os adeptos do Atlético em dias de jogos, eu de volta a casa, na Chueca, eles a caminho das estações de Marqués de Vadillo ou Pirámides, mesmo ao lado do Vicente Calderón, estádio de bairro, à antiga, onde se apanhava frio e chuva na cabeça. E onde se sofria.
E também me cruzava com eles na segunda-feira seguinte, quando a cidade ia trabalhar ou se dirigia para as universidades. Não se via uma camisola do Real Madrid, nunca. Já o vermelho e branco do Atlético era omnipresente na vida quotidiana de Madrid, na pele de jovens estudantes e na dos obreros, apaixonados na vitória e na derrota daquele clube que ensinou tanta gente a perder.
O título “Saber Perder” do livro de David Trueba vem desse ensinamento que o Real Madrid, altivo, aristocrático, arrogante, nunca deu aos seus adeptos. A vitória como direito histórico, nunca pela batalha com os mais fortes. E apesar de tal não ser referido no livro, sempre tive a certeza que o clube de Ariel Burano, o puto argentino que chega perdido a Madrid para jogar à bola, era o Atlético.
Neste fluxo de futebol e vida, tornou-se difícil não ficar do lado deles, da mole que tomava o metro orgulhosa da sua camisola do Atlético, mesmo depois de um qualquer desaire. Tornei-me, assim, simpatizante colchonera nos anos seguintes. Vibrei sozinha, já em Lisboa, em frente a um solitário prato de caracóis, com a vitória na Liga Europa em 2010 (passe de Agüero, calcanhar de Diego Forlán), depois em 2012 (Falcao, madre mía), com a liga de 2013/14, em plena guerra Barça-Real Madrid. A empatia chegou finalmente ao minuto 90’+3 da final da Champions desse ano, em Lisboa, depois da cabeçada de Sergio Ramos quando o Atleti já festejava.
Mas algo aí já se transformava, para pior, no Atlético, que já não era o clube que batia os seus recordes de investimento ao dar 20 milhões de euros por Forlán, por Agüero ou Simão Sabrosa. Já era o clube que punha 40 milhões na mesa para levar Falcao do FC Porto. Era o clube que deixava os bairros populares do centro de Madrid para se mudar para um estádio todo modernaço num subúrbio anódino. E em breve, o Atlético tornar-se-ia no clube que pagaria €120 milhões por um miúdo do Benfica que, estava claro desde o início, nunca se daria bem naquele Cholismo das defesas compactas, das transições, dos sacrifícios coletivos, do conforto sem bola.
Aqui entra o lado romântico, infantil de quem não gosta de ver um clube a aburguesar-se, a renunciar, em campo, à sua origem. É uma visão demasiado poética, sonhadora, admito. Mas se antes o Atletico ensinava a perder, mas a perder de cabeça alçada, depois do combate, do sofrimento, num estádio operário, agora parece acomodado à sua condição de clube que subiu na vida, sem sangue nas veias, jogando mal, sem arriscar, pensando apenas no resultado.
A final da Taça do Rei do último fim de semana, perdida sedativamente para a Real Sociedad, foi um quadro cinzento de um clube que, algures no caminho, entregou parte da sua alma ao diabo do futebol moderno. E, assim, não é fácil continuar a simpatizar.
“Previsão do Tempo“ é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.