Previsão do Tempo

O rali voltou à minha aldeia e eu, cá longe, quase larguei uma lagriminha

A primeira vez que fui ao Rali de Portugal devia ter uns 6 anos, meados dos anos 90. Era uma especial à noite, que descia a serra até à aldeia. A fauna era fabulosa. Havia, por exemplo, o “Cornos Luminosos”, tinha uma espécie de fita à volta da cabeça com umas pequenas lanternas e à conta disso ficou assim a alcunha

Há dois anos, o Rali de Portugal regressou à minha aldeia natal. Foram, pelas minhas contas, bem mais de 20 anos de ausência. Na quinta-feira voltou a passar na Ribeira de Fráguas, olho para a televisão, oiço os relatos que me vão chegando, dizem-me que está tudo muito diferente, moderno e tal. Há “zonas espectáculo”, com música, bandas, comes e bebes. Sinto uma pancada de nostalgia e, cá longe, quase larguei uma lagriminha. Quando eu era miúda, o rali era *o* acontecimento. Nem as festas do S. Tiago rivalizavam. Era o único dia do ano em que a minha mãe permitia que eu faltasse à escola, coisa que lhe custava horrores porque não era aquela educação que ela me dava. Mas eu esperava um ano inteiro por aquele dia.

A primeira vez que fui ao Rali de Portugal devia ter uns 6 anos, meados dos anos 90. Era uma especial à noite, que descia a serra até à aldeia. A fauna era fabulosa. Havia o “Cornos Luminosos”, tinha uma espécie de fita à volta da cabeça com umas pequenas lanternas e à conta disso ficou assim a alcunha. E os dois irmãos velhotes, que se apresentaram no rali de fato de treino, camisa e gravata. A ocasião era solene. Também havia os que se mandavam pelas escarpas abaixo para não serem atropelados. Gente muito destrambelhada. E lembro-me vivamente dos discos dos travões em fogo dos Toyota Celica.

Nos anos seguintes, antes do rali ir fazer piões para outras paragens, o espetáculo passou a ser à tarde e era por isso que eu e sensivelmente 90% das crianças das freguesias ali à volta não compareciamos aos nossos compromissos escolares. O meu pai nunca me levou ao futebol, era mais das quatro rodinhas e por isso ao rali não se falhava. A expetativa rebentava quando começavam a passar os carros com os números 000, depois o 00 e por fim o 0, antes dos artistas do pó meterem pé a fundo. E ficava-se até ao fim, que era quando aparecia a mítica Renault 4L de Pinto dos Santos.

Não havia cá food courts, DJs ou coisa que o valha. Cada um levava a sua bucha e cheguei a ver gente a alombar com mesas de cozinha de madeira pelas encostas acima. Lembro-me do ano em que o meu pai deu cabo do cano de escape do pequeno jipe da minha mãe a tentar chegar ao troço e de muita gente ter pensado, pelo barulho, que o rali tinha começado mais cedo. A minha mãe não ficou contente. Mais pelo cano de escape, também por ver as duas filhas e o marido cobertos de pó quando chegámos a casa.

Também houve um lendário ano em que vários carros se despistaram perto do sítio que tínhamos escolhido para ver a especial e de muita gente tentar levar souvenirs para casa. Era vê-los com faróis debaixo do braço, pedaços de portas, um limpa-pára-brisas já meio torto, ao som de um desesperado piloto (austríaco, creio) que só gritava “DON’T TOUCH THE CAR!”. Não resultou. Um rapaz lá da terra teve as suas duas semanas de fama porque conseguiu vender as imagens dos acidentes para um canal de televisão. Eram os tempos das primeiras camcorders, de cassetes, e não dos telemóveis com internet que tornaram tudo menos raro e de mais fácil partilha.

Sinto que tudo era mais apaixonante nesses anos, mas acabo de ver imagens dos ralis dessa época e não sei mesmo como não houve mais tragédias. Há milhares de pessoas empoleiradas mesmo junto aos troços, algumas efetivamente na estrada. Há tangentes milimétricas a pernas, multidões em curvas perigosas. Uma loucura. Talvez as tais “zonas espetáculo”, por muito anódinas que me pareçam agora, sejam mesmo necessárias.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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