Previsão do Tempo

Dani Rojas e a ficção que se torna realidade

Um dos protagonistas de “Ted Lasso”, uma das séries que me salvou na pandemia, conseguiu um contrato profissional como uma equipa de futebol. Boas notícias. Já o mundo que verá a nova temporada da trama é bem diferente de quando ela apareceu, fresca e otimista, quando achávamos que Trump era um mal de passagem

Cada um teve as suas pequenas salvações durante os confinamentos da pandemia. Eu, que passei os dois sozinha, lembro-me de quão especial se tornou a cervejita que reservava para cada jantar de sexta-feira. Ou da lista das melhores pizzas margaritas de Lisboa que me obcequei a fazer, com muitos e específicos parâmetros de avaliação. Pequenos prazeres em tempos incomuns.

E havia, claro está, à falta de outra, a companhia da televisão. Durante a pandemia houve duas séries que me salvaram. A primeira foi “How To with John Wilson”, uma espécie de canivete suíço, um manual de instruções para momentos específicos da vida. Por exemplo: como fazer conversa de circunstância, como dividir a conta, como cozinhar um risotto perfeito ou, o meu preferido de todos, como montar andaimes, os 28 minutos de televisão que mais me emocionaram nos últimos anos.

John Wilson, etnográfico-mor do novaiorquismo, esteve na última semana em Lisboa para apresentar o seu filme “A História do Cimento” (sim, precisamente, a história do cimento). E eu culpo-vos a todos por ninguém me ter avisado que ele vinha.

E depois houve “Ted Lasso”. Lembrei-me de “Ted Lasso” esta semana porque a ficção verteu para a realidade, à sua escala. Cristo Fernández, o ator que faz de Dani Rojas (“Football is life!”), um dos craques do ficcional A.F.C. Richmond, foi contratado por uma equipa do segundo escalão do futebol norte-americano, o El Paso Locomotive. Não é propriamente a Premier League, mas é um contrato profissional. É uma história bonita, quando elas não abundam.

No verão, a série vai voltar, mas com um plot diferente, focado na equipa feminina do A.F.C. Richmond. Receio é que o espírito da série se tenha perdido para sempre entre os terríveis sinais dos tempos.

A primeira temporada de “Ted Lasso” estreou com o primeiro mandato de Donald Trump a cair de podre, com o ar da mudança a chegar, uma brisa esperançosa de que os anos de trevas estavam a passar e tinham sido apenas um interlúdio enganador. Um mal que se dissiparia, o mundo curar-se-ia naturalmente. Era uma série de comédia otimista e não cínica e, mais, tornava os norte-americanos mais simpáticos aos olhos europeus. Relembrou-nos a todos da importância das palavras de Walt Whitman: sê curioso, não julgador.

Olhando para o mundo hoje, para os Estados Unidos, parece que foi há uma vida e não há apenas seis anos. O interlúdio tornou-se política, ser julgador e não curioso uma forma de estar aparentemente normal, respaldada até por quem manda.

Dificilmente a nova temporada de “Ted Lasso” nos levará de novo para esses dias em que o céu clareava. Que sirva ao menos para dar umas risadas, pronto.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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