Previsão do Tempo

Não gosto de Djokovic mas adoro Djokovic e por isso parabéns Djokovic

Faço parte desse grupo de pessoas que passou a não achar piada a Djokovic, que cumpre hoje 39 anos, quando este começou a desafiar Federer e Nadal. Não são sentimentos bonitos, mas o humano é feito de contradições. E mais condescendente me pareço quando agora dou por mim a torcer de novo por ele

Foi, durante um certo período, à medida que a inclemência do tempo afastava Roger Federer e Rafael Nadal dos courts, uma pergunta recorrentemente feita a Novak Djokovic: porque é que não era tão querido e amado quanto os seus rivais, apesar de até ganhar mais do que eles? Djokovic respondia quase sempre que acreditava que não lhe perdoavam que se tivesse intrometido numa luta já consolidada, romantizada até. Que não viam com bons olhos que um tipo de um país periférico se tivesse metido com dois gigantes, sem medo de anunciar que queria ser o maior de sempre.

Achei, inicialmente, uma choraminguice do pior. Mas depois, fazendo a necessária reflexão com os meus contrastantes sentimentos, e sendo absolutamente honesta comigo, entendi que Novak Djokovic tinha razão. Eu também faço parte desse grupo. Não tenho particular orgulho nisso, porque as razões são mesquinhas. Eu adorava Federer, mais do que Nadal. Mas também adorava Nadal. Um pela arte, outro pela fé. Curiosamente, também cheguei a adorar Novak Djokovic, quando ele era apenas um jovem sérvio muito engraçado, que fazia churrascos em pleno complexo de Wimbledon, quebrando com humor os salamaleques do All England Club. E que imitava na perfeição os colegas de trabalho, o que irritava muito alguns deles.

Mas, à medida que Novak se aproximava dos números de Roger e Rafa, à medida que o sérvio lhes ganhava mais do que perdia, deixei de lhe achar graça. Deixei de achar piada aos churrascos, às imitações. E o que é isto se não condescendência?

Posto isto, há coisas que me separam absolutamente de Novak Djokovic. Eu acredito na ciência, por exemplo. E não me dou com charlatães que advogam que os sentimentos de cada um mudam as propriedades da água ou lá o que é. Ou que os abraços curam lesões e outras baboseiras new age. Não organizei torneios para milhares de pessoas em plena pandemia. E isso, aqui entre nós, são motivos válidos para embirrar com alguém, ainda que, dou a mão à palmatória, Djokovic nunca tenha sido um promotor de teorias da conspiração ou de desinformação. Apenas acreditamos em coisas muito diferentes - e eu acho que ele acredita em coisas perigosas.

Mas a minha irritação é anterior ao seu processo esotérico e é por isso que o considero um niquinho ignóbil, na medida em que acontece porque alguém desafia o status quo. É um sentimento humano, claro, que, confesso, não consigo controlar, mas não é lá muito bonito, não me custa admiti-lo. E mais mesquinho me parece quando, agora que Federer e Nadal já não estão, dou por mim a voltar a ter simpatia por Djokovic, pela sua indómita mentalidade competitiva, pela sua busca da imortalidade, como vimos quando bateu Jannik Sinner nas meias-finais do Open da Austrália.

Novak Djokovic faz 39 anos hoje. Consigo adorá-lo e admirá-lo com a mesma força com que o odeio. Sinto que, neste Roland-Garros, vou torcer para que ganhe, coisa que me seria impossível sentir há 10 anos. Os caminhos das emoções humanas são insondáveis.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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