Previsão do Tempo

O futebol é a maior fábrica de memórias que conheço

O futebol tornou-se uma espécie de omnipresença na minha linha do tempo, não uma mera didascália, mas parte integrante e importante das memórias, dando-lhes consistência, peso. FC Porto-Famalicão de 1993? É o primeiro jogo do qual tenho recordações. Estava no restaurante Rei da Sardinha Assada, em Matosinhos, um tasco como deve ser

O primeiro jogo de futebol que me lembro, ainda que muito difusamente, é um FC Porto-Famalicão, em março de 1993. Recordo-me do jogo porque o Famalicão ganhou, o que ninguém estava à espera. Mas essencialmente pela memória composta que se formou naquele momento: tinha cinco anitos e estava com a família a jantar num mítico restaurante de Matosinhos chamado Rei da Sardinha Assada, casa modesta com poucas mesas, bancos de madeira, onde praticamente só se comia, imagine-se, sardinha assada.

É a primeira vez que me lembro do futebol entrar pelas minhas memórias adentro. Esta é doce porque me faz recordar que os meus pais nunca tiveram grande medo em levar as filhas a tascas e isso também molda qualquer coisa cá dentro. No dia do Portugal-Dinamarca do Euro 1996? Estava num encontro de antigos habitantes de Benguela, onde boa parte da minha família morou, na discoteca Repvblica, em Castelo Branco, creio que há muito fechada, como boa parte dessas casas gigantes e famosas nos anos 90. Estava um calor danado.

O futebol tornou-se uma espécie de omnipresença na minha linha do tempo, não uma mera didascália, mas parte integrante e importante das memórias, dando-lhes consistência, peso. Como quando os professores da escola C+S onde estudei não tiveram outro remédio senão dar-nos dispensa para vivermos, em conjunto, no bar da escola, a desilusão do Portugal-Coreia do Sul, do Mundial 2002, sem compreender bem, na altura, que raio João Pinto tinha feito ao árbitro argentino. Ou quando, no verão de 2023, assisti embasbacada à estreia de Cristiano Ronaldo pelo Manchester United em Luanda, meio por acaso, através de um canal sul-africano. Ou ainda quando naquele Portugal-Inglaterra do Euro 2004 abracei uma série de desconhecidos na cantina da escola onde a minha mãe dava aulas - era a festa de final de ano letivo, péssimo timing, até ao final dos penáltis ninguém arredou pé da única televisão disponível.

Outras memórias se foram formando, algumas mais estranhas, como ver a derrota de Espanha no primeiro jogo do Mundial de 2010 (que sabemos como acabou) numa espécie de ferro-velho em Colónia, outras mais tristes como quando, já jornalista, soube das proporções dos incêndios de Pedrógão antes do Portugal-México da Taça das Confederações de 2017, na Rússia.

E, para lá das memórias, há aquilo que o futebol, não sabendo, nos ensina. A primeira vez que ouvi falar de uma cidade chamada Tbilisi? Quando o SC Braga foi lá jogar numa eliminatória da Taça UEFA em 1997. Creio ter-me deparado pela primeira vez com a informação que durantes anos e anos a Alemanha havia estado dividida em duas Alemanhas nas páginas de história da caderneta de cromos do Euro 1996. Alguém saberia da existência de uma cidade chamada Trondheim na Noruega se não fosse o Rosenborg? O futebol ensinou-me mais de geografia do que qualquer livro.

Serve este relambório todo para lembrar que faltam menos de duas semanas para começar o Mundial 2026. Os tempos não estão para grandes alegrias, é certo, mas está aí mais uma oportunidade para criar novas memórias, sejam elas num possível Portugal-Argentina dos quartos de final ou no Haiti-Escócia da fase de grupos. Comecem a limpar espaço nos vossos cérebros.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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