Há dois eventos desportivos que me deixam com sentimentos ambivalentes quando lhes dou mais um ponto de audiência ou atenção porque, embora muito me entretenham, sinto que estou a contribuir para uma carnificina. Há uma espécie de culpa, lado a lado com o entusiasmo. Não, nem estou a falar de UFC que, meio hipocritamente, assumo, abomino. Falo de jogos de futebol americano, atividade que, sei eu, sabe toda a gente, nomeadamente a ciência e os próprios protagonistas, não faz propriamente bem à firmeza do cérebro.
E falo do Isle of Man TT.
O Isle of Man TT é uma série de corridas de motociclismo que todos os anos invade as estradas e ruas da Ilha de Man, ali entre a Irlanda e a Grã-Bretanha. A corrida tem várias particularidades, a mais tétrica de todas é que nenhuma outra competição desportiva terá uma tão longa página de Wikipedia com a lista de fatalidades. À hora a que escrevo este texto, são 271 vítimas mortais nas mais diversas provas daquele circuito que atravessa vilas, montanhas, lugares onde uma pessoa teria medo de andar a pé, quanto mais numa moto a 300 quilómetros por hora.
Quando reforço o “à hora a que escrevo este texto” é porque há ainda corridas a decorrer e essa lista aumenta sem dar recado. Em 2017 tive a oportunidade de visitar a ilha durante o TT e durante as horas que passei no paddock houve dois avisos de acidente, seguidos, minutos depois, do anúncio de mais uma vítima mortal. A reta que marca o início e o final do circuito é acompanhada pelos túmulos e jazigos do cemitério de Douglas, a capital desta comunidade autónoma. Vários dos pilotos que pereceram na prova estão ali sepultados. A edição de 2025 foi notícia porque não houve qualquer vítima mortal.
Ainda assim, todos os anos dezenas e dezenas de pilotos, muitos deles amadores, gente de classe trabalhadora que não podia estar mais longe dos Valentinos Rossis ou dos Marc Marquéz, apresenta-se para arriscar a vida naquelas mais de 200 curvas espalhadas por 60 quilómetros. E muitos mais milhares pegam nas suas motos e percorrem meia Europa, por estrada e ferry, para assistirem as corridas.
Lembro-me, nesse ano de 2017, de encontrar um grupo de portugueses e tentar perceber com eles, gente bem mais batida que eu, que nem sei andar de moto, o fascínio daquela corrida, a mais perigosa do mundo, um apelo que a mim própria já atingia, tanto quanto o frio gélido, daquele que viaja pelos ossos, que até em junho ali se faz sentir. Talvez tudo aquilo ser tão mundo real, tão pouco artificial, tão imprevisível e sem guião faça parte do apelo. Começa a faltar muito mundo real a outros desportos.
Nenhum me conseguiu dar uma explicação minimamente lógica, há coisas que são mesmo assim, vi-lhes apenas as tentativas, as frases sem terminar, o brilho nos olhos, o tom de quase incredulidade nas palavras de quem ainda parecia meio apalermado, no bom sentido, por aquela explosiva energia cinética de motos arriscando a morte e, demasiadas vezes, indo ao seu encontro. Aqueles pilotos não são muito diferentes de gladiadores e o namoro com o perigo é algo que continua a ser irresistível para muitos seres humanos.
Leio agora que Brad Pitt e Channing Tatum voaram este ano para a Ilha de Man, onde gravaram algumas cenas para um futuro filme sobre o TT, um bocadinho à imagem do que Pitt protagonizou e produziu sobre a Fórmula 1, que não é nenhuma Palma de Ouro de Cannes, mas não deixa de ser entretenimento competente. Mas o TT não é o ambiente controlado da Fórmula 1. Não se corre num circuito, mas sim no meio de povoações, entre vales e estradas que serpenteiam montanhas e fogem de escarpas. E no paddock não há roupa de estilistas e champanhe: há lama, um cheiro omnipresente a fritos que se mistura com fuligem, gente normal de galochas e impermeáveis.
Não sei até que ponto será possível colocar isto numa tela de cinema de forma honesta. E tratar da morte, que ali anda todos os dias de braço dado com os pilotos, sem carga dramática, mas sim com a contenção que lhe é devida, porque aquela gente sabe, abraça e já há muito racionalizou as probabilidades, demasiado altas, de, a cada prova, não voltar vivo.
“Previsão do Tempo“ é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.