Previsão do Tempo

Borja Iglesias, campeão várias vezes

Se há coisa que fiquei com pena depois da final do Mundial 2026 foi de não ter visto cada uma das caras daqueles que gozaram com Iglesias quando este, em 2023, em pleno escândalo Rubiales, anunciou que não voltaria à seleção enquanto o presidente da federação espanhola, que havia beijado Jenni Hermoso sem o consentimento da jogadora, não se demitisse

Borja Iglesias não jogou mais do que 60 segundos no Mundial 2026 mas para mim será sempre um dos mais importantes campeões mundiais da história. Do futebol, sim, que também é feito de bons homens, gente que pensa para lá da relva, dos golos, dos contratos, das férias no Dubai, quiçá em Ibiza.

Se há coisa que fiquei com pena depois da final foi de não ter visto cada uma das caras daqueles que gozaram com o galego quando este, em 2023, em pleno escândalo Rubiales, anunciou que não voltaria à seleção enquanto o presidente da federação espanhola, que havia beijado Jenni Hermoso sem o consentimento da jogadora, não se demitisse.

Disseram então os do costume que Iglesias escusava de dar uma de valente e defensor das damas, de cordeiro sacrificial, porque nem sequer tinha qualidade para ser chamado à seleção, por isso de que servia o boicote. Hoje, Luis Rubiales está longe do futebol e o avançado do Celta, que aos 25 anos ainda procurava o seu lugar na La Liga, é campeão mundial. Minutos depois da Espanha se qualificar para a final do Mundial, recebeu um emocionado abraço da jogadora espanhola, nos Estados Unidos como comentadora.

Os que o diminuiram continuam anónimos, nas suas vidas cheias de certezas e ódios.

Voltarão seguramente às redes sociais dominadas pelos techbros para criticar Iglesias - porque hoje em dia está tudo mais preocupado em grunhir do que em aprender -, cada vez que o jogador de 33 anos se colocar do lado das minorias, dos mais frágeis, do lado certo da humanidade. Ele que pintou as unhas de negro em 2020 em sinal de apoio ao movimento Black Lives Matter, sendo chamado de todo o tipo de urros homofóbicos, que se vão repetindo cada vez que Iglesias, por mensagem, gosto estético ou um simples estado de espírito, resolve pegar no verniz e adornar as suas mãos - a última vez foi no ano passado, num jogo com o Sevilha, que motivou uma bela campanha de apoio ao jogador, com milhares de adeptos a pintarem as unhas em solidariedade.

Borja, diga-se, é heterossexual e isso, ao mesmo tempo, pouco importa mas importa muito. Porque no dia em que mais jogadores deixarem de lado os medos, os compreensíveis receios de assumirem quem são num ambiente ainda tão toxicamente macho alfa, será bom terem ao seu lado aliados, gente bem consigo mesma e cheia de empatia como Iglesias, para quem uma conversa sobre saúde mental, política e tolerância é tão natural como falar de um golo, de uma jogada.

Numa entrevista há três anos ao “Guardian”, Borja Iglesias renunciava ao jogador estanque, ao futebolista que se fecha na sua própria bolha treinos-casa, jogo-centro de estágio, para quem o futebol é o início e o fim de tudo: “Quanto mais encontro coisas para fazer fora do futebol, melhor me sinto em campo. E isso não tem de ser só chamar a atenção para questões sociais, pode ser encontrar algo criativo para fazer, outros interesses. Quando me limito ao futebol, sinto-me pior”.

E por isso ver Borja Iglesias com aquela taça na mão foi justo e refrescante, o sinal de que um jogador não acaba nem começa ali, que não precisa de se anular pode chegar ali. Ao absoluto topo.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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