Há dias vi o filme “The Drama”, em que o enredo explode quando um grupo de amigos, à volta de uma mesa, resolve responder à pergunta: “Qual foi a pior coisa que fizeste na vida?”.
Não irei tão longe, mas à pergunta “Qual foi a vez em que sentiste mais inveja na vida?” eu tenho uma resposta: o dia em que um primo me mostrou um boné de ciclista, aqueles de pala grande e topo atarracado, da Mapei. Tinha-lhe sido dado por um ciclista da equipa num hotel em Lisboa, onde a formação italiana estava alojada por ocasião da Volta a Portugal.
Isto foi nos anos 90, quando a Volta a Portugal tinha duas semanas e uma pessoa passava mal porque os intentos de Joaquim Gomes ou Vítor Gamito eram invariavelmente mandados abaixo por gente aleatória chamada Massimiliano Lelli, Zenon Jaskula ou Marco Serpellini. Anos que me deram a conhecer parte do tecido empresarial português, porque foi graças ao ciclismo que eu soube o que era a Sicasal, a Recer, a Tróia Marisco, a W52, a Janotas & Simões ou a Pecol, empresa que até era quase minha vizinha.
Também foi com a Volta a Portugal nos anos 90 que muitos de nós perceberam que Saeco era uma empresa italiana de máquinas de café, que a Artiach, que contava com Orlando Rodrigues, fabricava bolachas, que a Brecialat era uma produtora de queijos, entre outros produtos lácteos. Que a Amore & Vita era detida por um católico fervoroso, que chegou a querer que a equipa vestisse camisolas com a mensagem “Não ao aborto” algo que, felizmente, a UCI achou por bem não permitir. Uma das minhas preferidas era a italiana Cantina Tollo, patrocinada por uma cooperativa vinícola italiana, porque, enfim, eu era uma criança que não precisava de muito para se escangalhar a rir.
Esses eram tempos em que algumas equipas de topo, uma Mapei, uma Banesto, uma Kelme ou uma Lampre, vinham a Portugal preparar a Vuelta, ou apenas pela competição, em que talvez vivêssemos algo iludidos com a importância a nível internacional da Volta a Portugal porque era mais difícil acompanhar o resto do calendário. Isso era desculpável nos anos 90, muito menos em 2026, onde declarações que falam de uma competição da terceira divisão internacional como “a quarta Volta” fazem mais dano do que bem. É preciso meter as rodas no chão.
Nos próximos anos, a Grandíssima vai ter de resolver um dilema: ou mirra para crescer internacionalmente, ou mantém-se como está, uma volta essencialmente para consumo interno e que garante a sobrevivência de um punhado de equipas portuguesas. Eu não gostaria de estar nessa posição. Mantenho-me na minha, vivendo a nostalgia de quem, em criança, conhecia um pouco de Mundo naquelas duas semanas de Volta. E se ainda hoje sei de cor a canção do genérico da Volta quando esta foi transmitida pela SIC? Sei pois. “Rodas tu, rodo eu, roda o mundo pelas estradas do céu…”.
“Previsão do Tempo“ é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.
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