Previsão do Tempo

Encontrar a normalidade a 11 de setembro de 2001

No dia da queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, jogou-se futebol de Champions na Europa. O Boavista empatou em Anfield. Provavelmente fez-se mal em jogar mas, ao menos, durante aqueles 90 minutos o mundo não tinha mudado para sempre

Já passava das seis da tarde do dia 11 de setembro de 2001 quando a minha mãe soube o que tinha sido o 11 de setembro de 2001. Dava aulas apenas à tarde e tinha saído de casa antes das televisões interromperem a sua emissão - na verdade tudo aconteceu mesmo no final dos telejornais da hora de almoço - pelo que, numa era sem telemóveis que não fossem inacreditáveis tijolos, sabia-se destas tragédias quando era possível saber.

Lembro-me de lhe dizer, na minha arrogância ocidental, “deves ser a última pessoa do mundo a saber disto”, como se o planeta fosse só um hemisfério ou um continente, uma “forma de vida”, expressão que ganharia infelizmente muita força nos anos seguintes de suposta “guerra ao terror”.

Por essa altura, imagino que já se tivesse decidido que a jornada inaugural da Liga dos Campeões 2001/02 se jogaria, o que me pareceu espantoso, mesmo do alto dos meus 14 anos. O choque e o medo já nos tinham de tal forma tomado que me recordo de temer verdadeiramente pelos jogadores do Boavista, que nessa noite jogaria em Anfield, como se as ondas de destruição de Nova Iorque pudessem, de repente, chegar a Liverpool.

Jogou-se. Ainda hoje não sei se se fez bem ou mal. Os relatos da altura falam de um Olímpico de Roma, onde a equipa da casa recebeu o Real Madrid, absolutamente silencioso, algo que parece impossível quando o assunto são 70 mil adeptos da AS Roma num estádio. Mas o certo é que, no meio de algo que era, para boa parte de nós, incompreensível, de um dia terrível, que desbloqueou receios que nem sabíamos que existiam até aí, o futebol trouxe também uma qualquer normalidade.

Isto se, à lupa de 2026, considerarmos que era normal o Boavista empatar em Anfield frente ao Liverpool, que tinha Steven Gerrard e Michael Owen nos titulares. Robbie Fowler no banco. Porém, esse Boavista, campeão nacional em título, tinha uma frente de ataque mítica, com Duda, Alexandre Goulart e Elpídio Silva. Uma combinação algo atabalhoada entre os dois últimos permitiu ao Boavista marcar bem cedo. Owen empatou ainda na 1ª parte.

Assim ficou o jogo. Todos estes anos depois, Silva, o pistoleiro, alcunha complicada num dia como aqueles, assumiu à “ABola” que houve “aflição” no regresso a Portugal, de avião, pois, com os jogadores cheios de medo de que “acontecesse alguma coisa”. Depois de uma primeira reação em modo business as usual, UEFA adiaria finalmente os jogos do dia seguinte.

Ouvi o relato do Liverpool-Boavista no carro da família porque nesse dia era necessário ir à cidade onde a minha irmã estudava para a ajudar na mudança de casa. A vida continuava a acontecer. Também o futebol. Naqueles 90 minutos muito boa gente ter-se-á esquecido de tudo o que se passava para lá das quatro bancadas de Anfield ou do Olímpico. Ao menos isso. Porque daí para a frente, sabemos bem, nada seria como antes.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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