Este espaço também é um museu de memórias, mas nem sempre as nossas memórias são assim tão importantes para a história. Nascida nos anos finais da década de 80, as minhas reminiscências futebolísticas de 11 de setembro passam por uns jogos de Champions que hoje talvez nem tivessem acontecido naquele dia. Mas há outros jogos intimamente ligados a 11 de setembro, não ao de 2001, mas sim a outro infame 11 de setembro, em 1973, quando um golpe militar entregou o Chile a quase duas décadas de sangrenta ditadura militar.
É possível que o bombardeamento ao Palácio de La Moneda, em Santiago, que levaria à morte de Salvador Allende, presidente socialista democraticamente eleito, e abriria as portas à ditadura de Pinochet, só tenha acontecido nesse mesmo dia, e não mais cedo, por culpa futebolística do Colo-Colo. Nessa temporada, o clube da capital foi avançando na Taça Libertadores com a mesma destreza que a inflação do país. Não havia greve dos transportes que travasse os adeptos do Colo-Colo, que jogo após jogo enchiam o Estádio Nacional, trocando o pouco que tinham por bilhetes. O povo tomava as ruas para festejar cada vitória do El Cacique. Num país dividido, os jogos de futebol eram um momento de rara trégua.
O Colo-Colo chegaria mesmo à final, frente ao Independiente. Uma final que, de tão equilibrada, se foi arrastando em três jogos. Após empates na Argentina e em Santiago, houve jogo extra em Montevideo, com vitória para os argentinos. Aquela derrota, involuntariamente, condenou Allende.
Durante a bela campanha da equipa chilena na Libertadores, os conselheiros de Pinochet, alguns deles norte-americanos, não se atreveram a avançar com o golpe, que chegou a estar pensado para abril. Havia muita gente na rua, o futebol tinha-lhes dado alegria. Esperaram até setembro, quando os golos do Colo-Colo já não podiam salvar Allende. Francisco Valdés, um dos goleadores da equipa, diria mesmo mais tarde que o Colo-Colo era a equipa que “tinha atrasado o golpe de estado”.
Com a ditadura em marcha, o Estádio Nacional de Santiago deixou de ser um lugar de ilusão, alegria, de festejos. Passou a ser um lugar de morte. Durante dois meses, foi o maior campo de concentração do Chile, mais de 40 mil pessoas terão estado ali presas, violentadas, torturadas. Estima-se que 400 delas tenham sido ali assassinadas. O cantautor Victor Jara terá sido fuzilado com 44 balas noutro recinto desportivo de Santiago, o Estádio Chile, hoje chamado Estádio Victor Jara.
O Estádio Nacional só seria desocupado em novembro porque a seleção do Chile precisava do relvado para jogar o playoff de apuramento para o Mundial de 1974. Uma chatice logística para a ditadura, mas o futebol também tem servido para as acariciar. O adversário, a URSS, não compareceu ao jogo, em protesto.
Que os 11 de setembro não se repitam. Pelo bem das memórias.
“Previsão do Tempo“ é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.
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