A Itália esteve 70 minutos com mais um jogador em campo contra os bicampeões mundiais de râguebi e, mesmo assim, não ganhou
Alessandro Sabattini
Em Turim, a seleção italiana ficou em superioridade numérica aos 11', mas nunca conseguiu estar em vantagem no marcador contra a África do Sul, nem quando chegou a estar com mais dois jogadores em campo. Os springboks, líderes do ranking e vencedores dos dois últimos Campeonatos do Mundo, venceram (14-27) em Turim e deram uma demonstração de força nesta janela de partidas internacionais do outono
Os três dedinhos levantados por Paolo Garbisi, aos 52 minutos, foram estranhos. O médio de abertura italiano não tardou a mostrá-los, mesmo nas barbas dos postes, ao seu capitão, quando o árbitro ainda tinha o cartão amarelo em riste, o braço bem esticado no ar, na direção de um sul-africano. Era um instante a sorrir com todos os dentes para a Itália: acabava de ficar, para os 10 minutos seguintes, com mais dois jogadores em campo. Mas a adrenalina da novidade não animou o pontapeador ou o capitão transalpinos a arriscarem um pouco mais.
A conversão da falta aproximou os anfitriões dos bicampeões mundiais em Turim. O resultado ficou em 9-13, pareceram confiar que o tempo seria uma questão passageira e não somente um relógio a andar até conseguirem, pela superioridade numérica, superar os springboks. Preferiram um chuto fácil aos postes para três pontos, não uma formação ordenada no centro do campo, a cinco metros da área de ensaio, uma base apetecível para atacar com a bola na mão um adversário reduzido a 13 homens e tentar marcar cinco pontos, talvez mais dois a seguir.
Não quiseram tentar, desengatilhando uma pequena série de acontecimentos que deu aos italianos o troco de zelar pela cautela em vez de abraçar um pouco de risco. Três minutos volvidos, cometeram uma falta para Handré Pollard e seu pé direito de fiabilidade robótica converterem três pontos; logo depois, Lorenzo Cannone viu um amarelo com jogo perigoso na cabeça de um adversário e, no minuto seguinte, veio a prova mais dolorosa: o ensaio da África do Sul, marcado pelo médio de formação Morne van der Berg, esguio a fugir de uma formação ordenada. E foi uma lição: numa falta marcada praticamente na mesma zona em que os italianos optaram pelo zelo, os springboks quiserem arriscar.
Timothy Rogers
A expulsão de Franco Mostert, aos 11 minutos, vetara os sul-africanos ao sofrimento desde cedo, fazendo o jogo pender para um estilo atabalhoado por vezes, quase sempre exagerado nos pontapés para colocar as linhas atrasadas sob pressão. As disputas aéreas foram uma constante na segunda parte, a desorganização italiana a defender também. Ange Capuozzo ainda pôs o estádio aos berros com um ensaio a aproveitar um buraco na linha adversário - não embrulhado por Garbisi, com mira falível na sua chuteira, ao falhar três conversões no jogo -, uma exceção no meio do comedido silêncio geral.
O encontro mostrou que a Itália acabar a vencer, mesmo com mais um homem durante tanto tempo, seria uma surpresa. Nem a superioridade em corpos valeu a tantos erros. A África do Sul marcaria mais dois ensaios, por Grant Williams e Ethan Hooker, rápida a detetar brechas na defesa e ainda mais a atacá-las. Os visitantes ganharam por 14-23, não foi desta que os italianos ressuscitaram as memórias de Florença, onde, em 2016, venceram os springboks antes destes se agarrarem aos dois últimos Mundiais de râguebi.
Para os esforçados, embora desorganizados italianos, serem incapaz de competir mais afastados do erro contra os líderes do ranking mundial não deu seguimento à vitória que lograram, na semana anterior, contra a Austrália (26-19). Nem os terá alentado a que o progresso é visível: no verão, já tinham perdido um par de test matches com a África do Sul. Um deles ficou 45 a zero. No outro, marcaram mais pontos (24) a jogarem 15 contra 15 do que nos 70 minutos de superioridade numérica quais usufruíram em Turim.