Se és a Inglaterra e não ganhas aos All Blacks há 13 anos, quem vais chamar? O teu ‘Pom Squad’
Shaun Botterill
A Nova Zelândia estava avisada: em 2025, os ingleses têm apostado na estratégia de deixar avançados titulares no banco para refrescar o ímpeto da equipa na segunda parte. Voltou a resultar. Num estádio de Twickenham que desafiou os visitantes logo no haka, a Inglaterra ganhou (33-19) aos All Blacks, algo que não acontecia desde 2012. Foi apenas a 9ª vez que o conseguiu
As cordas vocais inglesas bem o tentaram, gritando das bancadas o “Swing Low, Sweet Chariot” e ignorando o silêncio cerimonial com que o haka, por respeito, costuma ser presenciado. A energia teve um contágio nos dois sentidos: a grande maioria das 82 mil gargantas em Twickenham quis sobrepor o seu barulho à melodia maori da coreografia dos neozelandeses, os queixos levantados de muitos dos jogadores de Inglaterra, com um sorriso matreiro e uma face altiva, acompanharam a postura desafiante. A relevância do jogo acicatava os anfitriões.
Embalados numa série de nove vitórias, palpável a excitação pelos frutos caídos da árvore abanada do ‘Pom Squad’, alcunha pomposa para a estratégia recente de deixar no banco potenciais titulares, sobretudo avançados, de modo a ter armas potentes para refrescar a equipa nos últimos 20 minutos de jogo, os ingleses buscavam algo que lhes escapava desde 2012: ganhar aos temíveis all blacks em casa. A cobiça saída das gargantas dos adeptos não os favoreceu.
Tímidos na bola no arranque, a abusarem dos pontapés territoriais, a Nova Zelândia foi a primeira equipa a impor a sua intenção quando o jogo se cansou de ser uma mera troca de jogadas à mão que viviam só até ao recetor do primeiro passe. No primeiro ataque que lhe chegou, o poderoso Leicester Fainga’anuku inaugurou a festa (15’), lesto a aproveitar as sobras de um ruck. Quatro minutos mais tarde, o talonador Cody Taylor esperou na mesma zona, encostado à lateral do campo, para com os seus 108 quilos fintar Alex Mitchell com a agilidade de uma bailarina. A provocação feita aos All Blacks não se traduzia no relvado.
Carl Recine
Carl Recine
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A seleção da rosa demorou vinte e poucos minutos a descobrir alguma serenidade, o seu melhor período a coincidir com a entrada forçada do artimanhas que é Marcus Smith. O médio de abertura entrou para 15 por força da pancada na cabeça de Freddie Stewart e os ingleses ganharam imprevisibilidade para contrariar a unidimensionalidade no uso do pé de George Ford. O abuso nos pontapés para pressionar, com disputas aéreas, os braços do defesa e dos pontas adversários, só incomodou a Nova Zelândia até certo ponto.
Quando se adaptaram, iam prolongando mais as suas jogadas com o claro intuito de levarem a bola às mãos de Fainga’anuku para o matulão chamar os espíritos ancestrais de ser um ponta All Black e marrar contra placadores para, literalmente, lhes passar por cima, fiel à moda de atropelamentos dos seus ‘antepassados’ Jonah Lomu, Joe Rokocoko ou Sitiveni Sivivatu, e do contemporâneo Caleb Clark. O jogo neozelandês tinha fluência graças ao ritmo der reciclagem de bola nos rucks garantido pelo médio de formação Cam Roigard, nem sempre correspondido pelos pontapés erráticos de Beauden Barrett, capaz de um 50:22 magistral (quando um jogador chuta a bola dentro do seu meio-campo e a faz cair dentro da área de 22 metros adversária antes de sair, ganhando um alinhamento nesse local) e logo a seguir de chutos que deram faltas para os ingleses.
Ao contrário da fiabilidade na bota direita do constante George Ford, nunca o mais imprevisível, espetacular ou criativo dos aberturas, mas certo como o céu derramar chuva no inverno. Em particular, nos pontapés de ressalto de que tanto gosta. Por duas vezes aproveita as várias entradas de Inglaterra nos 22 metros neozelandeses para algo contracorrente, sem os avançados aprontarem proteções para evitar que ele fosse pressionado, acertar com a bola por entre os postes. A Inglaterra só perdia por 11-12 quando chegou o descanso no jogo renhido.
David Rogers
A curta desvantagem acelerou-os no regresso, esfomeados por retirarem mais dividendos, esganados por mais assim que Codie Taylor viu um cartão amarelo logo aos 41 minutos. Os ingleses chutaram a bola para um alinhamento, mastigaram a bola nos avançados e Sam Underhill pô-los a ganhar, com Ford a servir a sobremesa nos postes. Os 10 minutos em inferioridade foram um suplício para os All Blacks, que com surpresa trocaram de formação (entrou Cortez Ratima), também de asa (Samisoni Taukei’aho) já depois de irem buscar um pilar novo (Tamaiti Williams) ao intervalo. Antes de a Inglaterra recorrer ao seu recente ‘Pom Squad’, era a Nova Zelândia a refrescar-se.
Antes de Steve Borthwick seguir à risca o plano copiado, coff, coff, ou inspirado no que a África do Sul inventou em 2023 e banalizou desde então, os All Blacks salvaram-se de um ensaio quando o árbitro viu um toque para a frente, mas não, pouco depois, no seguimento de um 50:22 de precisão milimétrica de George Ford, aprimorado ainda mais pelas lições de um certo consultor de pontapés contratado pelo seleção. Jonny Wilkinson bem terá celebrado o ensaio de Fraser Dingwall, o segundo originado por um alinhamento, pelos vistos a plataforma preferida dos ingleses. E à entrada do último quarto do jogo, a vencerem por 25-12, lá entraram religiosamente Ellis Genge, Will Stuart, Tom Curry e Henry Pollock.
A forma como os quatro frescos avançados festejaram, à hora de jogo, uma mêlée conquistada aos All Blacks, doidos da cabeça e em especial Pollock, novo e loiro prodígio do râguebi inglês, disse tudo. Era uma espreitadela do sucesso da estratégia. Mas não estava imune a erros alheios.
Shaun Botterill
Na posse de bola seguinte para os neozelandeses, carregam ao pontapé sobre Marcus Smith e o mais artista dos jogadores ingleses, pressionado por dois adversários, quis ludibriá-los e não evadi-los com um chuto para longe. Os anfitriões veriam Ben Earl receber um cartão amarelo num ruck causado pelo risco de Smith e, logo a seguir, sofreram um ensaio de Will Jordan. A força dos avançados vindos banco ajudou a aguentar a vantagem (25-19) que perdurava quando o Earl regressou.
Como em Edimburgo, há uma semana, o último quarto do jogo precipitou os All Blacks na caça a um prejuízo. O seu jogo de dinâmica soluçante, sem jogadas limpas do ruck à ponta, com erros no manuseamento da bola, de novo se apresentou em desacordo com consistência da genialidade que caracteriza a sua reputação. Nem o plástico Damian McKenzie, omnipresente de ideias e herói contra a Escócia nos últimos minutos, os inspirou. A três minutos do fim, a fazer a apologia não da arte, mas da energia frenética e ligada à corrente, o hiperativo Henry Pollock provocou uma perda de bola, pontapeou-a e indicou a Tom Roebuck a direção para lhe pegar e ir ao ensaio.
A desejada vitória (33-19) da Inglaterra pôs Twickenham aos gritos, Pollock aos pulos outra vez e a história a fazer uma rara vénia aos inventores disto de convencer 30 montes de músculo a correr atrás de uma oval. Treze anos depois, os ingleses voltaram a ganhar à Nova Zelândia, apenas a 9ª vez que o conseguem. Os membros da ‘Pom Squad’, todos com razões para aspirar a titulares, eram a cara da felicidade. George Ford recebeu o merecido prémio de melhor em campo, a aspiração de um Grand Slam (vencer os quatro adversários das ilhas britânicas na mesma digressão) esfumou-se para os All Blacks. Valeu a pena desafiá-los.