Râguebi

A melhor meia-dúzia do râguebi está de volta: um guia oval para o Seis Nações

Os capitães das seis seleções do torneio a passearem por Edimburgo, antes do torneio, guiados por uma gaita de foles
Os capitães das seis seleções do torneio a passearem por Edimburgo, antes do torneio, guiados por uma gaita de foles
Craig Williamson - SNS Group

França e Inglaterra partem com o mesmo número de títulos (sete): entre o râguebi champanhe e o embalo inglês estão os principais candidatos à conquista do torneio. Gales parece estar condenada a outra colher de pau, enquanto a Irlanda arregimenta novos avançados para suster o seu jogo, a Itália faz por não abrandar no seu crescimento e a Escócia confia, de novo, na inspiração de Finn Russell. O Seis Nações arranca esta quinta-feira. O que veremos depois da edição que teve o maior número de ensaios de sempre?

A França e o seu o mais que tudo

Ver Antoine Dupont sentado na relva, cara de dor, agarrado ao joelho direito, entristeceu qualquer aficionado de râguebi. Na edição de 2025 do Seis Nações, o médio de formação maravilha, líder por talento e personalidade desta geração do râguebi gaulês, lesionou-se e foi devolvido ao estaleiro que o aprisionou até dezembro, quando regressou ao campo igual a si próprio: genial a manusear a bola na órbita dos rucks, mestre a comandar fases, rato a esgueirar-se por nesgas de espaço, cirúrgico no jogo ao pé. “Um ano depois, a Europa ainda é toda fã de Dupont”, escreveu com razão o L’Équipe. Não há como não gostar dele.

Opulenta em talento, sem um queixume possível quanto às suas opções, a seleção francesa conquistou o último torneio sendo feroz no pack de avançados liderado por Grégory Alldritt e, sobretudo, letal a lançar as suas setas de trás contra os adversários, encavalitou-se nos sprints atléticos do ponta Louis Bielle-Biarrey. Do lado oposto, viu Damian Penaud igualar o recorde de ensaios pelos Les Bleus enquanto o habitual pé certeiro de Thomas Ramos foi convertendo pontos. São, em parelha com os ingleses, quem mais vezes ganhou o torneio (sete) desde 2000, quando a Itália se juntou à festa e passou a haver meia-dúzia de seleções a disputá-lo. Para a defesa do título, o senhor dos óculos excêntricos arriscou nas suas escolhas.

O selecionador Fabien Galthié abraçou a surpresa e abdicou de convocar Penaud, uma das maiores ameaça atacantes da equipa nos últimos anos, à semelhança do centro Gaël Fickou, outro esteio do grupo. Abdicou igualmente de Aldritt, número 8 que capitaneou a França no torneio passado na ausência de Dupont. Em compensação, chamou várias gazelas dos três quartos do Bordeaux-Bègles, atuais campeões europeus (como Yoram Moefana) e terá na posição 10 a inspiração de Mathieu Jalibert, médio de relação intermitente com a seleção. Cumprirá os deveres de Romain Ntamack, uma vez mais lesionado.

Outra baixa relevante é a de Uini Atonio, o tanque de pilar que na passada semana, antes de uma partida do seu clube, o La Rochelle, sentiu dores no peito, foi hospitalizado e recebeu a notícia de um problema cardíaco que provavelmente significará o final antecipado da sua carreira. Uma novidade triste posta na balança com a luz do regresso de Dupont, a quem voltamos devido a um simbolismo que acarreta: há um ano, os franceses ficaram fulos com a queda do irlandês Tadhg Beirne sobre a perna do capitão gaulês, num ruck, provocando-lhe a tormenta da lesão.

Não revalidar o título no Seis Nações será uma deceção para o râguebi francês de champanhe restaurado, mais ainda face à ousada reciclagem de Galthié na convocatória. E este torneio começa em Paris, na quinta-feira (20h, Sport TV6), com um potencialmente tenso França-Irlanda para reavivar memórias dos estragos que os homens da cerveja Guinness causaram ao nome mais querido dos gauleses.

Após quase 11 meses de ausência devido a lesão, Dupont, eleito melhor jogador do mundo em 2021, regressa para capitanear os Les Bleus
Steve Welsh - PA Images

A Irlanda com dores de lesões

Implica soprar bastante pó de antiguidade se quisermos recordar a última vez que o Seis Nações se espreguiçou a este dia da semana: foi no 1 de janeiro de 1948, igualmente na capital gaulesa. Desta feita, o início antecipado deve-se ao esforço da prova em não coincidir com cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de inverno, agendada para sexta-feira. Trata-se de uma invenção, outra é o Troféu Solidariedade, criado nesta edição para ser disputado entre irlandeses e franceses à moda da Taça Calcutá, anualmente contestada por Inglaterra e Escócia em paralelo com o torneio.

Servirá de aliciante para uma Irlanda, por fim, sob orientação cativa de Andy Farrell, o selecionador que os deveres para com os British & Irish Lions, equipa multi-país, sazonal e reunida apenas para digressões quadrienais ao hemisfério sul, roubaram durante a edição de 2025. Orfã dos três habituais titulares da sua primeira linha, o treinador está obrigado a improvisar no molhe de avançados onde tradicionalmente assenta o estilo bulldozer, a levar tudo à frente nas fases estáticas do jogo, no qual os irlandeses mais confiam.

Onze jogadores regulares nas convocatórias não constam na chamada para o Seis Nações devido a mazelas, à cabeça os habituais donos dos lugares com mais peso bruto nos corpos - o talonador Andrew Porter além dos pilares Paddy McCarthy e Jack Boyle.

Sem eles, mais ardilosos ficarão os trabalhos de sapa no limpa-corpos de rucks e nas formações ordenadas, uma carência preocupante face à mais recente imagem deixada pela Irlanda: em novembro, perante a bicampeã mundial em Dublin, foi moída pela África do Sul, cometendo faltas atrás de faltas, indisciplinada nas disputas pela bola. Perdeu (13-24) contra o adversário que causa tormentas nesses momentos do jogo e acabou com um jogador expulso.

Campeã do Seis Nações em 2023 e 2024, esta Irlanda tremelica um pouco desde as reformas subsequentes de algumas traves-mestras. Foram-se Peter O’Mahoney, Conor Murray e Jonathan Sexton, este último o provocador da maior ressaca. O antigo médio de abertura ditava as rédeas de um jogo sem parecer ter de correr muito e, desde a sua partida, a pressão da responsabilidade tem sido depositada sobre Sam Prendergast. Aos 22 anos, o 10 do Leinster vai oscilando nas suas contribuições. Neste torneio terá a competição de Harry Byrne e Jack Crowley - este último foi o pé chutador de serviço quando os irlandeses vieram ao Jamor atropelar Portugal.

Entre tantas ausências, os homens da seleção do trevo são, à partida, a terceira mais forte da prova. E a menos bafejada pelo sorriso do sorteio: após a ida ao Stade de France ainda visitam Twickenham, o anfiteatro do râguebi inglês, em Londres. No jogo inaugural em Paris, os irlandeses também não terão Hugo Keenan, influente defesa, nem Bundee Aki, a marreta humana com musculatura para lá dos 100 quilos que machuca adversários na posição centro.

O neozelandês de nascimento, maior portento na linha de três quartos irlandesa para ir ao choque, está suspenso para os três primeiros jogos do Seis Nações por ter insultado um árbitro num jogo ao serviço do seu clube, o Connacht.

Sam Prendergast, o jovem médio de abertura que herdou a camisola 10 de Sexton
Brendan Moran

A Inglaterra que vem embalada

Com as suas orelhas couve-flor e o nariz amolgado por tantos anos de pancada dentro do campo, Steve Borthwick não se coibiu a pensar em grande quando, há um par de semanas, pediu aos adeptos ingleses para “inundarem” a outra margem “do Canal da Mancha” a 14 de março, dia em que a seleção inglesa visitará Paris na derradeira jornada do torneio. “Queremos estar numa posição nesse jogo para termos o que queremos atingir”, disse o selecionador à BBC, menos fixado na história que lhe secundou o discurso (17 dos últimos 20 torneios decidiram-se no último dia) do que preocupado em demonstrar confiança.

A lebre que a Inglaterra persegue é a conquista do Seis Nações que lhe escapa há sete anos. Ajeitando o alvo ao peito-cheio do treinador, foge-lhe também um Grand Slam inaudito desde 2016. O élã a encher os ares em torno da seleção inglesa justifica-se pelo imaculado 2025 e pelas 11 vitórias consecutivas, incluindo três frente à Argentina e uma, mais vistosa, contra a Nova Zelândia, quando fixou o hábito imitado dos springboks de apostar num banco de suplentes com seis avançados (6+2, ou “Pom Squad”) e lançá-los em simultâneo nas segundas partes para estrançalhar o adversário nas fases estáticas.

Usará o ‘truque’ na estreia contra os galeses (sábado, 16h40, Sport TV6), mais ainda por ter no cochilo inicial, ao lado do potente Tom Curry, o capitão Maro Itoje, não titular pela primeira vez em seis anos por ter recentemente ido à Nigéria chorar a morte do pai. Um dos mais poderosos de um plantel carregado de nomes que assustam, o flanqueador verá a continuação do ressurgimento de George Ford como o abertura mais fiável de Inglaterra, aproveitadora da sua parelha com o formação Alex Mitchell para lançarem as feras das linhas atrasadas que são Freddie Stewart e Tommy Freeman.

Algures no torneio haverá de chegar a estreia a titular de Henry Pollock. Volátil tanto quanto genial, o avançado do loiro descolorado no cabelo, pródigo em trash talk e do mais fora da caixa nas ações que empresta aos momentos ofensivos é, aos 21 anos, a estrela da nova vaga do râguebi inglês. Em parte pelo rendimento, a outra parte pela sua queda para o excêntrico: por exemplo, encosta dois dedos à veia carótida do pescoço para celebrar cada ensaio, inspirado pelo que viu Diogo Dalot, português do Manchester United, fazer no futebol.

Outro a quem seguir o rasto, titular logo na estreia contra Gales, é Henry Arundell, nascido no Chipre quando a família lá estava pelos deveres do pai com a Royal Air Force. O ponta cheio de potencial para causar estragos se lhe derem espaço para correr carrega muita da carga aliciante desta seleção, terceira classificada do último Mundial, que transpira otimismo para obter no Seis Nações o primeiro troféu desde a chegada de Steve Borthwick ao comando, em 2022.

As tendências estatísticas, deem-lhes o valor que quiserem, resfriam esse positivismo: nunca na era profissional do râguebi a Inglaterra conquistou o torneio no ano seguinte a uma digressão dos British & Irish Lions. Ah, e quanto a inundações, há 10 anos que não vence em Paris.

Henry Arundell, de tronco despido ao lado de Marcus Smith no balneário de Inglaterra após a conquista da medalha de bronze no último Mundial, em 2023
Dan Mullan

A Escócia e o seu artista

Mais um ano, mais um torneio para a emoção transbordar em Murrayfield, arena do râguebi escocês, quando se entoar o Flower of Scotland à boleia de uma gaita de foles, típica como o whisky. E mais uma volta no carroussel imprevisível, nem sempre constante se bem que garante de entretenimento que é Finn Russell, o guardador das ideias da seleção da Escócia e médio de abertura que em dia de feição manda a bola por caminhos geniais para desmontar qualquer defesa.

Com 33 anos na mochila e mais incisivo desde que se mudou para o Bath, clube inglês, Russell vai para o seu 12º torneio das Seis Nações. Vem de uma digressão dos British & Irish Lions onde foi o 10 titular nos três encontros frente à Austrália, prova que até um selecionador adversário (Andy Farrell, técnico da Irlanda, foi o comandante da espécie de equipa all-stars das ilhas britânicas) admira as qualidades do abertura em quem a Escócia sempre depende: quanto mais inpirado estiver, maiores serão as chances da equipa se candidatar a voos mais altos.

O homem que os treina, Stuart Townsend, é da opinião que “no papel” esta é “a melhor equipa” alguma vez agremiada pelo país e os nomes disponíveis não deixam a afirmação ficar com um nariz à Pinóquio.

Huw Jones faz companhia ao capitão Sione Tuipulotu na parelha de centros; Blair Kinghorn empresta a sua fiabilidade à posição 15; o especialista em caçar ensaios, Duhan van der Merwe, dá à Escócia uma ameaça para manter os adversários sempre preocupados com o foguete que está lá numa ponta; e o segunda linha Johnny Gray, dos campeões europeus Bordeaux-Bègles, lidera os avançados com Ewan Ashman, o recordista de ensaios pela seleção contando só quem joga entre as posições 1 e 8.

Há um fartote de qualidade em quem nasce onde o kilt é uma vestimenta e a Escócia estima que tal signifique um embalo rumo a melhor os dois quartos lugares das últimas edições. O primeiro jogo é em Roma, casa da Itália (sábado, 14h10, Sport TV6). São bastantes as vibrações positivas, graças também a um empurrãozinho dos Glasgow Warriors, melhor equipa do país que fechou a fase de grupos da Champions Cup (a Liga dos Campeões do râguebi) na liderança e com pleno de vitórias. Até o Toulon de Antoine Dupont e Thomas Ramos ficou a comer-lhes o pó.

O capitão escocês, Sione Tuipulotu, com Finn Russell a espreitar atrás
Andrew Milligan - PA Images

A Itália em busca da consistência

Sendo o mérito a fundação do desporto e de louvar em qualquer modalidade, este torneio das Seis Nações, uma competição privada e sem promoções, gerida por uma empresa que a mantém fechada ao mundo lá fora, a Itália, entrada em 2000, personificou durante muito tempo uma justificação para tal clausura tacanha: a maldita colher de pau, dada ao último classificado da prova, repousou nas mãos dos italianos em 18 das 26 edições desde então. Mas não nos dois últimos anos, uma finta animadora para ser a base da obra que Gonzalo Quesada está a erigir.

O outrora jogador argentino chegou a Roma, há ano e meio, com a sua farta bagagem a treinar no Top14 francês e tem solificado uma seleção que este século rapidamente adquiriu a fama de ser o saco de pancada do torneio. O corpanzil de Hércules de Tommaso Menoncello protagonizou exibições que, em 2024, o elevaram a ser o primeiro italiano eleito como MVP da competição e com Juan Ignacio Brex forma uma dupla de centros temível. A alimentá-los estará Paolo Garbosi, abertura do Toulon.

Os transalpinos vêm de uma janela outonal de jogos internacionais na qual venceram, pela primeira vez, a Austrália, beneficiadores da explosão dos velozes pontas de importação da ilha dos cangurus: a um lado Louis Lynagh, cujo pai conquistou um Campeonato do Mundo, do outro Monty Ioane, filho de pais polinésios emigrados para Melbourne. Outra seta chama-se Ange Capuozzo, arrière do Toulouse. Deles virão as ameaças enquanto Quesada vai fortalecendo o pack avançado para competir no choque das centenas de quilos com as nações mais poderosas.

Irão fechar o Seis Nações em Cardiff, na casa do país que suplantaram no último par de anos e quererão bater de novo para demonstrarem que a subida de nível é sustentada, mais do que circunstancial.

Os jogadores da seleção italiana, em novembro, a celebrarem a vitória (26-19) contra a Austrália
Federugby

Um País de Gales a tentar fugir do seu fundo

Longínquos parecem os tempos em que Shane Williams, a chita bípede galesa, era eleito o melhor jogador do mundo pelas suas correrias desenfreadas com a bola, ou da alma do bom gigante Aun Wyn Jones, mítico capitão galês, vencer o prémio de MVP do Seis Nações. Esses picos individuais, em 2008 e 2019, nada de anormal supuseram quando surgiram: uma potência tradicional da vida oval, Gales tinha bolsos generosos em recursos e este século até é, a par de França, o país que mais vezes (quatro) conseguiu encadear uma conquista do torneio só com vitórias.

Entrado em 2026, jogará para evitar que outra colher de pau fique no louceiro do seu râguebi.

O figurado objeto que se dá à seleção que acaba na cauda do torneio ficou com os galeses nas duas últimas edições, sintoma e consequência da paupérrima condição atual da modalidade no país.

Cada vez mais frágil de dinheiros, a federação local anunciou, há poucos meses, que vai abdicar de financiar, em 2027, uma das quatro equipas-franquias que competem só em provas europeias, os históricos Ospreys, sendo incerto o futuro do clube que até lá será gerido pela mesma empresa que detém o Cardiff (as outras são os Scarlets e os Dragons). É o tipo de balbúrdia governativa que fez jogadores, treinadores e inclusive políticos galeses ameaçarem fazer greve no meio de um período de magras colheitas na formação de novos jogadores. Mas, entre idas de dirigentes federativos ao parlamento para responderem às preocupações dos deputados, Gales terá de se agarrar aos ténues vislumbres de esperança.

No competente selecionador Steve Tandy têm um homem a emanar o calor de quem atenta ao copo meio-cheio, não ao fácil que é ceder à penumbra, para dar cimento a uma equipa competitiva com mira fixada no Mundial de 2027. À falta dos lesionados Taulupe Faletau e Jac Morgan, capitão e único galês escolhido para os Lions o ano passado, compensará a presença de Louis Rees-Zammit, regressado ao râguebi com a sua pujança à ponta após ter ido tentar a sua sorte na NFL. Tom Rogers, outro ponta, marcou três ensaios aos all blacks em novembro. Há em Tomos Williams um médio de formação mais do que capaz de impor um andamento de respeito nas fases ofensivas. Apesar da juventude, existe talento.

Sobra, contudo, um cerrado céu nublado sobre a seleção à qual não ajuda a inexperiência internacional dos convocados: Gales não vence um jogo no Seis Nações desde 2023 e há cinco anos que é incapaz de registar mais do que uma vitória na mesma edição do torneio. A destruição sofrida (0-73) no Millenium de Cardiff, contra a África do Sul, em novembro, nada fez para animar a febre de um povo pela oval, já depois de a equipa ter acabado com uma razia de 18 derrotas seguidas no verão passado, frente ao Japão - foram 644 dias sem ganhar.

Quem já vagueou pelas ruas da capital do país, cheias de pubs nas suas margens, em dia de jogo da seleção, saberá que pouco precisam as suas gentes para envaidecerem no apoio à equipa. No meio do caos, têm faltado é as faíscas de ignição.

Os jogadores galeses de cabisbaixo durante a partir contra a bicampeã mundial em título, a África do Sul, em novembro
David Rogers

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