Râguebi

A Escócia secou o champanhe dos franceses e fez uma gracinha para chegar ao topo do Seis Nações

Ben White a celebrar o quarto ensaio da Escócia que garantiu o ponto bónus ofensivo
Ben White a celebrar o quarto ensaio da Escócia que garantiu o ponto bónus ofensivo
Ross Parker - SNS Group

Em Murrayfield, casa do râguebi escocês onde tudo começou com um senhor de kilt a tocar gaita de foles no telhado do estádio, os anfitriões igualaram a França no 1º lugar do Seis Nações com um jogo estrondoso (50-40), de 13 ensaios. Nunca os escoceses tinham marcado mais do que 36 pontos aos gauleses. À falta de uma jornada, os homens da Flower of Scotland podem, 27 anos depois, conquistar o torneio

O jogo podia vir a ser uma trampa, e que chatice é quando vem a ser o caso, mas, principiando assim, com um senhor já de sua idade posto no telhado de Murrayfield, trajado à escocês por inteiro, kilt e tudo, a soprar na gaita de foles as notas do Flower of Scotland para embalar milhares de gargantas a berrar o hino do país à capela, formando uma melodia arrepiante, na verdade deixava logo de ser possível que a ação no relvado desiludisse.

Embalados pela sinfonia, das mais bonitas que haverá para presenciar no desporto quando adeptos são chamados a entoarem o seu patriotismo, os jogadores escoceses carregaram cedo, primeiro com pontapés altos para provocar disputas no ar e aproveitar o que terá tramado Thomas Ramos, porventura o melhor 15 que há, nem ele imune a mãos amanteigadas: sem vivalma a importuná-lo, largou a bola. Terá sido o raro sol a raiar sobre Edimburgo a encadeá-lo.

Foi na terceira vaga de ataque após a formação ordenada originada pelo seu erro que a apressada Escócia teve o seu ensaio matutino, Darcy Graham o marcador, ponta que igualou os 32 do recordista do ausente Duhan Van der Merwe. Golpeada tão cedo, a iminente França, vaticinada para conquistar este Seis Nações desde o início, mostrou os porquês da iminência que lhe é atribuída.

Dary Graham a marcar o primeiro do jogo e a igualar o recorde do escocês com mais ensaios pela seleção
Stu Forster

Rápidos na reciclagem da bola, a fazerem de rucks um ápice e da bola um TGV rumo aos seus pontas, em especial um deles, os gauleses empataram pelo inevitável Louis Bialle-Biarrey, a concluir na esquerda um sorrateiro roubo do faz-tudo Antoine Dupont, as suas tenazes a sacarem a bola de Sione Tuipulotu, ousado a tentar sair a correr da sua área de 22 metros quando tão sob pressão estava.

Quatro minutos volvidos, Théo Attissogbé fez outro ensaio do mesmo lado, ao perseguir um pequeno pontapé de Bielle-Biarrey, o râguebi acelerado, de mãos leves e gente cheia de corridas ziguezaguentas a que os humildes em modéstia descrevem como sendo de champanhe obrigava os escoceses a muralharem-se na defesa. Visitavam menos vezes os 22 metros adversários, sem isso os denegrir: numa touche trazida do estirador da geometria, o talonador George Turner foi quem recebeu a bola do saltador, correu e escondeu até à última o cruzamento feito com Kyle Styne. Os franceses só deram por ele quando tocou o ensaio.

Quatro toques de meta em menos de meia-hora, o jogo estava distante de ser uma trampa.

Era uma tarde, parecia ser, para a Escócia bipolar fazer as pazes com uma certa versão sua. Capaz de alinhar as valias extraordinárias que tem tanto quanto as ver cederem à complicação, por vezes no mesmo jogo, a equipa de Gregor Townsend teve 40 minutos a funcionar perto do seu melhor.

Antoine Dupont a passar a bola após uma formação ordenada
Andrew Milligan - PA Images

De aço a defender, feroz no contacto, mastigadora de corpos nas fases estáticas, forçou os franceses a cometerem faltas anormais. Matthieu Jalibert viu um cartão amarelo, por placar um adversário sem a bola, logo após o pilar Pierre Schoeman ir ao terceiro ensaio escocês e, ao pé, o mesmo Finn Russell que vendeu essa má placagem ao 10 homólogo com uma finta de passe converteu os derradeiros pontos da vantagem ao intervalo: 19-14.

Ainda com os pózinhos de vantagem numérica por gastar, Russell garantiu que a Escócia regressasse urgente. A velocidade das vagas de ataque atropelou a França, o médio de abertura multiplicou-se em passes longos para esticar a linha órfã de um homem e o desnorte abriu uma nesga para Ben White, o formação, pegar na bola, raspar o retrovisor no ruck e furar por ali rumo ao quarto ensaio. O ponto bónus ficou garantido.

Acabasse assim o encontro e os franceses, vencedores badalados do Seis Nações, perderiam a liderança. Receoso de tal, Fabien Galthié substituía jogadores, refrescava os avançados, quis atravancar os momentos estáticos onde o jogo estava uma bagatela para os franceses com músculos sem fadiga, quiçá assim rivalizassem com os escoceses, mas como, se até os seus melhores, os mais excelsos, falhavam?

À entrada para a ultima meia-hora, Antoine Dupont fez-se lento a decidir na sua corrida lateral e deixou-se abraçar por Ben White menos antes de dar o passe, saiu furado, Kyle Styne interceptou e correu rumo ao quinto ensaio sem que perna alguma gaulesa alcançasse a sua pressa. Em nada acertava a França enquanto tudo saía à Escócia, litros de sumo de cevada estariam e iriam ser sorvidos na Royal Mile, a mais famosa rua que atravessa o coração de Edimburgo.

Finn Russell, o 10 escocês, a orquestrar mais uma jogada de ataque
Stu Forster

Tuipulotu marrava, ele um martelo humano, contra corpos franceses, Blair Kinghorn vinha de trás, galopante com a sua perna longa, para atacar a linha francesa, as hesitações propositadas e constantes de Finn Russell a definir o passe enchiam de dúvida quem tinha de placar. Darcy Graham reclamaria o recorde escocês com o sexto ensaio, Tom Jordan faria o sétimo, o sol baixava no horizonte e a Escócia também era recordista: chegara aos 47 pontos quando jamais impingira para lá de 36 à França.

Mais do que prováveis derrotados, aos gauleses restava salvarem uma bochecha da face com uma caça ao ponto bónus, fora evitarem uma humilhação. O irreconhecível capitão Dupont, desnorteada até a fazer passes para a frente dentro da própria área de ensaio, ainda logrou ir a um ensaio a finalizar uma jogada entre Attissogbé e Ramos, breve vislumbre de uma França a ser França na segunda parte.

Sairia pouco depois para Baptiste Serin, um de vários médios de formação azarados por coincidirem com o talento dupontesco, dar outro fôlego às investidas da seleção do galo. A sua índole bastante ofensiva libertou Thomas Ramos para o quarto ensaio que garantiu o ponto de consolação, fomentando combinações como a do quinto (Oscar Jegou) e a do sexto (Ramos novamente), quando os escoceses tinham menos um corpo no relvado.

O sol a raiar sobre o Estádio de Murrayfield
Ross Parker - SNS Group

Os últimos minutos dos franceses foram secos de champomy, largaram a imitação para se devolverem a alguns pequenos tragos do seu champanhe. Murrayfield entoava de novo o Flower of Scotland quando as bancadas viram os derrotados chegarem aos 40 pontos num embate com 13 ensaios, que trapaça seria suspeitar que o jogo poderia ser sensaborão.

A brava Escócia vergou a França à vulgaridade na maioria do tempo, mas, não a impedindo de chegar bónus, as seleções ficam empatadas na liderança do Seis Nações, com 16 pontos, igualdade a sorrir aos visitantes pela diferença entre os registos atacante e defensivo. O torneio tem a mania de chamar super-sábado à sua última jornada, nesta os escoceses irão a Dublin e os gauleses serão em Paris anfitriões da Inglaterra, única impossibilitada de conquistar a prova.

Não depende apenas de si para, 27 anos volvidos, ser campeã, mas é como ficou escrito na Flower of Scotland: “But we can still rise now / And be the nation again.

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