A França está viciada em Louis Bielle-Biarrey, a estrela apressada do râguebi
Louis Bielle-Biarrey a celebrar antes de marcar o primeiro dos quatro ensaios que fez contra a Inglaterra
Catherine Steenkeste
Bicampeã do Seis Nações como já não o era há quase 20 anos, a França conquistou o título, no sábado, de forma espetacular, com o último pontapé no último minuto do último jogo do torneio. Não foi Louis Bielle-Biarrey a chutá-lo, mas foi muito por culpa do veloz ponta, que corre a mais de 38 km/h, que os gauleses repetiram a conquista da prova: nunca um jogador marcara ensaios em todos os jogos de duas edições seguidas. Os Les Bleus estão viciados nele
Ver a seleção de França a jogar râguebi neste Seis Nações equivaleu a presenciar um vício ambulante: qualquer jogada um pouco inclinada à esquerda em que houvesse campo livre nas costas da linha adversária, pronto se via alguém a chutar a bola rumo a essa relva por reclamar, fosse um pontapé alto a pedir ajuda à gravidade ou um rasteiro, malandreco na incertitude dos ressaltos da bola oval. Les Bleus viciaram o seu jogo ofensivo e o vício tem três nomes, Louis Bielle-Biarrey.
Capacete vermelho na cabeça, a galope em pernas de girafa, o ponta que podia ser atleta dos 100 metros vicia pela velocidade que tem no corpo, a carne é fraca e a de França cede ao vício como se viu no sábado: dois ensaios marcados por Bielle-Biarrey pediram-lhe que perseguisse bolas pontapadas para relva de ninguém, lá foi ele sem trela, sem freios, sem outras pernas que pudessem com as dele, um jogador com pernas de girafa e rapidez de chita.
Fez o 26º, o 27º, o 28º e seu 29º ensaio pela seleção no vigésimo sétimo jogo por França, vai por extenso o número de internacionalizações para acentuar as poucas que são, também a média de ensaios por encontro pela seleção, um-ponto-zero-sete, a melhor na história do país entre jogadores com pelo menos 20 marcados pelos gauleses que conquistaram a segunda edição seguida do torneio cedendo mais ainda ao seu vício.
Louis Bielle-Biarrey provavelmente levará a distinção de melhor jogador da prova, repetindo o feito do ano passado, outra qualidade sua é então a reincidência, também pela segunda época seguida no Seis Nações de periodicidade anual ele conseguiu marcar ensaios em todos os cinco encontros. Nunca um jogador o lograra, fosse que país o seu, portanto são já dez os jogos seguidos a marcar para o ponta esquerda do Bordeaux-Bègles, atual campeão europeu de clubes, equipa também de Mathieau Jalibert, o médio de abertura farto de saber que à mínima nesga o melhor é pô-lo a correr.
Louis Bielle-Biarrey a correr atrás da bola, com dois ingleses a persegui-lo, durante o França-Inglaterra que decidiu o torneio das Seis Nações
NurPhoto
Do 10 francês veio um dos pontapés que Bielle-Biarrey perseguiu com sucesso, o outro brotou do número 15 francês.
Thomas Ramos não partilha clube com o sprinter, o defesa de sangue português dado pela raiz paterna joga no Toulouse mas vê como pode jogar a seleção se viciada for no velocista, então contra a Inglaterra, no sábado, como frente aos restantes países do Seis Nações que sempre são os mesmos, ganhou o hábito de juntar-se à linha atacante, pedir a bola e chutá-la para testar se no torneio há homem mais rápido do que Bielle-Biarrey, que em maio passado atingiu os 37,8 km/h a jogar pelo Bordeaux-Bègles onde Ramos não joga, nem precisa de jogar, porque terá visto o vídeo, em janeiro, de Christophe Lemaitre, antigo velocista e medalhado olímpico francês, ser ultrapassado numa corrida de 50 metros pelo jogador de râguebi que se podia ter dedicado ao atletismo.
Nessa disputa, Bialle-Biarrey chegou aos 38,4 km/h.
É, aos 22 anos, a sensação da modalidade, um Jonah Lomu francês sem o arcaboiço musculado, o penteado excêntrico ou a vertigem para atropelar adversários, a moda de Louis é fugir e esquivar-se, ele próprio pontapeia amiúde a bola quando a tem, assim pode correr com as mãos livres e livre de placagens para marcar oito ensaios no Seis Nações de 2025 e nove no deste ano. Generosa é a sua quota-parte de culpa no recente perfume recordista do torneio: foram 109 ensaios marcados nesta edição, um a mais do que na anterior.
A existir aos pontapés continuará a França, bicampeã como já não era desde 2007, respeitadora dos seus vícios, no plural, não é apenas o de encher de corda as chuteiras de Louis Bielle-Biarrey, mas o de aproveitar o pé direito de Thomas Ramos serenado pela sua calma na cara da pressão.
Thomas Ramos a dar o pontapé decisivo na bola, contra a Inglaterra, que deu o título do Seis Nações aos franceses
Xavier Laine
Os gauleses perdiam por um ponto em Paris contra os ingleses, o jogo um primor de espetáculo, cheio de ensaios, infestado de râguebi atacante, mas precisavam de ganhar, sem a vitória inútil ficaria o ponto de bónus ofensivo, pela fenetre voaria o título e a festa seria da Irlanda. Quando os vizinhos do lado de lá do Canal da Mancha fizeram uma falta, no último minuto do jogo, o capitão Antoine Dupont disse ao árbitro que a penalidade era para chutar aos postes.
A 45 metros da forquilha de dois dentes, com a conquista do Seis Nações dependente do seu sucesso, uma festa de milhares no Stade de France a depender dele, com uma audiência televisiva em França que chegou a superar os nove milhões a depender dele e mais não sei quantas dependências que se imagina a inundarem a cabeça de um jogador num momento desta estirpe, Thomas Ramos riu - Jalibert contaria que o achou “completamente louco” quando o viu a rir ao dar-lhe a bola antes de iniciar a preparação para o pontapé - respirou fundo, olhou calmo para o alvo, correu e chutou.
A bola passou ao meio dos postes num ato repleto de diligência mecânica.
A mesma com que explicou, já de banho tomado, com “pouco importa o momento do jogo, o cansaço” e se o pontapé “era um pouco longe” já que sabia que tinha “a força e a distância” na perna, foi só “tentar estar o mais relaxado possível”. E sim, destapar os dentes e dar covinhas às bochechas faz parte do processo: “Sorri um pouco antes para ficar mais descontraído.” Esses três pontos confirmaram a vitória (48-46), mas Thomas Ramos já confirmado estava como o melhor marcador deste Seis Nações, com 74, mais uma proeza histórica extraído do vício francês em o ter como o pontapeador de serviço: nunca um jogador fora o melhor pontuador em quatro edições seguidas do torneio.
Aqueles últimos minutos “já não foram râguebi”, diria Louis Bielle-Biarrey, dizendo que era a França do espetáculo, da vertigem atacante, a “simplesmente tentar arrancar uma vitória”. Esta França histórica por motivos vários, um deles o descuido defensivo a que se verga para se embalar para o ofensivo, mais um vício de uma seleção champanhe: jamais um campeão do Seis Nações sofrera para lá dos 100 pontos durante o torneio. Só nos dois últimos encontros os gauleses encaixaram 96, entre Escócia e Inglaterra.
Enquanto tiverem o seu beep-beep humano em forma, apto a correr, o vício vai compensar.