Uma dúzia de clubes vão tentar tornar o râguebi português vendável e atrativo: “Não podemos continuar a dizer mal uns dos outros“
O Benfica é o atual campeão nacional de râguebi, tendo derrotado o Cascais na final da Divisão de Honra, o principal campeonato de Portugal, organizado em 2025/26 pela Federação
Nos próximos cinco anos o principal campeonato do país será organizado pela Associação Super XV - Rugby Portugal, fundada por 12 clubes, à qual a Federação delegou essa responsabilidade. O objetivo é “ter uma visão empresarial, fazer de tudo para que haja mais público, arranjar um parceiro tecnológico, patrocinadores e tentar que haja mais receita“. E mais outro, como explicou Luís Lança de Morais, líder da nova entidade: ”Temos de expurgar os maldizentes da modalidade, as pessoas que não apoiam.“ Quanto ao profissionalismo, ainda é utópico
À partida, olhando de relance, certas arestas ergueram o sobrolho. Primeiro, a “Associação Super XV - Rugby Portugal” escreve o nome da modalidade em inglês e não à portuguesa, como consta na designação da federação que lhe delegou a responsabilidade de organizar um novo formato do campeonato nacional; depois, seria a prova fechada, sem promoções nem despromoções? Era uma dúvida a esclarecer e Luís Lança de Morais, presidente do Grupo Desportivo de Direito, um dos 12 clubes que farão parte da reformulada 1ª divisão do râguebi português, cedo a abordou: “O modelo competitivo que estamos a desenvolver é o da meritocracia, democrático, há subidas e descidas, não é fechado, o último classificado irá sempre descer.”
Disse-o ele por, entre a dúzia de clubes fundadores, ter sido o escolhido para liderar a Associação apostada em “reforçar o desenvolvimento, competitividade e sustentabilidade” da modalidade, assim o anunciara, aquando da sua fundação. Esta terça-feira era dia para assinar a preto no branco do acordo e explicar a ideia. A sua relevância não é de somenos: o novo modelo entrará em vigor em 2027, ano do Mundial, o segundo consecutivo dos três de Portugal, que lá chegará envolto no seu contexto amador de ter jogadores ainda com uma profissão das 9h às 17h além do râguebi.
Presidente do Direito, clube lisboeta, há quase década e meia, Luís Lança de Morais aproveitou a deixa de um jornalista, classificando de “utopia” a pretensão de ter uma liga profissional em Portugal nos próximos cinco anos - a duração do protocolo firmado com a Federação Portuguesa de Râguebi (FPR) para a Associação organizar o principal campeonato do país. “A profissionalização podia ser uma ambição, mas as casas não se constroem pelo telhado. Muitas vezes se fala que o râguebi será profissional em Portugal, mas onde está o dinheiro para pagar aos jogadores?”, respondeu questionando, sem meias-palavras, quem também é sócio da Bizau, uma empresa de investimento em imobiliário.
A Associação germinou da sintonia entre Benfica, Cascais, Direito, Belenenses, CDUL, São Miguel, Agronomia, Técnico, Académica, CDUP, RC Santarém e AR Setúbal. Entre a dúzia de clubes fundadores, só os últimos quatro não são da capital, uma patologia do râguebi português. O foco das explicações de Luís Lança de Morais afastou-se de problemas como o da centralização lisboeta, preferindo os potenciais ganhos das benfeitorias: “O essencial é a família do râguebi estar unida. A modalidade ainda é amadora, precisa da ajuda de todos. Vamos todos empurrar. Vamos tentar em conjunto fazer algo pela modalidade em vez de estarem meia-dúzia de pessoas a dizerem mal.”
Luís Lança de Morais, líder da nova Associação, e Carlos Amado da Silva, presidente da Federação Portuguesa de Râguebi
“Quando um clube é campeão só gasta dinheiro”
O louvo à união esteve presente na mesma medida em que se deixaram críticas no ar aos críticos do estado atual do râguebi nacional.“Temos de expurgar os maldizentes da modalidade, as pessoas que não apoiam”, acentuou o presidente da Associação Super XV - Rugby Portugal, conhecedor do ecossistema: antes de presidir ao Grupo Desportivo de Direito, foi um antigo jogador e internacional português.“Estamos sempre a falar dos bons valores do râguebi, mas depois há malta que se esconde atrás das redes sociais. Estamos aqui pela positiva, estamos construtivos, aos poucos verão mudanças palpáveis. O interesse é fazermos melhor, cá estaremos para partilhar as boas experiências - não as más”, completou.
Não ficou esclarecido se Luís Lança de Morais, em simultâneo líder da entidade e de um dos clubes que a compõem, permanecerá no cargo durante os cinco anos ou se a chefia será, por exemplo, rotativa entre a dúzia de presidentes dessas equipas. Ao invés foram indicados os objetivos gerais para a próxima meia-década em que a principal prova do râguebi nacional fica à responsabilidade da entidade: “Ter uma visão empresarial, tornar o râguebi mais atrativo, fazer de tudo para que haja mais público e arranjar um parceiro tecnológico e patrocinadores. A partir daí, vamos tentar valorizar a prova e tentar que haja mais receita, com um melhor produto e maior visibilidade.“
A prioridade está em criar fontes de dinheiro para os clubes para, aos poucos, surtirem efeitos das novas ideias, gerando um caudal que chegue aos atletas. Porque hoje, a cada equipa campeã toca-lhe ver os seus celebrarem, em festa, mas também gastos acrescidos causados pela vitória. “Quando um clube é campeão só gasta mais dinheiro, tem de pagar jantares e cerveja à malta toda. Os clubes hoje quando ganham têm mais despesa“, lamentou o dirigente, de novo sem rodriguinhos, apelando à paciência numa modalidade escassa em visibilidade mediática em Portugal. “Queremos melhorar as transmissões e trazer mais público aos estádios para criarmos receita para os clubes. Roma e Pavia não se fez num fim, isto vai ser gradual“, acautelou, jamais se poupando no apelo à unidade - “temos é de estar juntos.”
Rodrigo Marta tem 43 ensaios marcados em 49 jogos pela seleção nacional
Ainda sem patrocinadores definidos, nem revelado como serão transmitidos os jogos da prova - Haverá um canal televisivo cativado a tal? Existirão meios tecnológicos para ser criada uma plataforma de streaming? -, Carlos Amado da Silva enalteceu o “dia mesmo importante para o râguebi nacional”. O presidente da FPR situou-o como ponto de partida para se trabalhar de vez a “desproporcionalidade entre o râguebi português fora de portas e em casa”, pelo contraste entre a exposição dos feitos da seleção nacional nas provas internacionais e a pouca visibilidade das competições internas.
Queixou-se o dirigente que os jogos da Divisão de Honra, até aqui a denominação da 1ª Divisão do râguebi português, farta em mudanças de formato este século, não merecem transmissão televisiva enquanto existe um canal pago, de subscrição, cada vez mais generoso na oferta de jogos de provas estrangeiras.
Entre comiserações e lamentos, Carlos Amado da Silva urgiu a que “não se pense que foi uma coisa de última hora”, descrevendo esta sintonia como algo “já esperado há muito”, vindo de conversas com barbas. Também ele fez bandeira da união: “Os clubes agora são obrigados a entenderem-se, é bom para todos nós: temos que aproveitar esta onda, vem aí o Campeonato do Mundo, vamos todos trabalhar mais e melhor pelo râguebi nacional. Há consonância de interesses, vamos trabalhar em conjunto.”
Sobraram outras questões, chegará o dia para as dissipar: se os 12 clubes, jogando numa primeira fase todos contra todos, terão jogos em casa e fora contra cada adversário; e como será a competição que sobra, na prática 2.ª Divisão, da qual o vencedor será promovido a este novo principal campeonato, que também ainda não se sabe que nome terá. Com o tempo haverá novidades. A 10 de outubro arranca o campeonato desta época, que ainda não contará com as mudanças a fundo da Associação.
A seu tempo elas virão, ou como disse Luís Lança de Morais: “Não podemos continuar a dizer mal uns dos outros e depois nada acontece. O nosso objetivo é não deixarmos um legado pior do que aquele que recebemos.”