Um avião rasou o estádio antes do África do Sul-Nova Zelândia. Passou tão perto que a brincadeira não é para repetir
Um dos aviões da Airlink, companhia aérea sul-africana, que rasou a cobertura do estádio na Cidade do Cabo antes do jogo entre os Springboks e os All Blacks
Gallo Images
Os sul-africanos têm uma tradição: por vezes, antes de um importante jogo de râguebi um avião comercial passa por cima do estádio. Aconteceu na final do Mundial de 1995, com Nelson Mandela presente, feito popularizado depois em filme de Hollywood. Uma companhia aérea imitou a graça em dois jogos da digressão que os All Blacks estão a fazer pelo país, mas um avião voou apenas 15 metros acima da cobertura do recinto, contrariando todas as regras de segurança da aviação
Os textos deveriam então centrar-se no 33-26 imposto pela África do Sul à Nova Zelândia uma semana após perder o jogo inaugural da Rugby’s Greatest Rivalry Tour: o parlapié seria acerca dos 18 pontos de Cheslin Kolbe, um rapidíssimo ponta que descobriu a perícia para chutar aos postes, e de como os All Blacks, ainda a acostumarem-se a Dave Rennie, o novo treinador, já demonstraram fogachos de um fluído jogo atacante; ou seria sobre a mestria já vincada de Cam Roigard, o médio de formação neozelandês para competir com Antoine Dupont pelos elogios a quem se destaca nessa posição.
Contudo, é um avião comercial que mais letras gordas recebeu nas notícias sobre o segundo de quatro duelos entre as seleções que conquistaram os últimos cinco Campeonatos do Mundo ovais.
Pouco antes de o encontro começar, no último sábado, cerca de 56 mil pessoas estavam atravancadas no estádio da Cidade do Cabo, na África do Sul, quando o bramir de motoros tomou conta do ruído. Sem aviso prévio, dois aviões comerciais da Airlink, companhia aérea do país, sobrevoaram o recinto para varrerem os presentes com o som das suas toneladas com asas. Um dos Embraer, nas medições do site Flightradar25, passou a 15 metros da cobertura do DHL Stadium e até cortou pelo fumo do espetáculo pirotécnico, num voo rasante ao qual as preocupações das pessoas na bancadas pareceram indiferentes: o atrevimento alado foi recebido com gritos e aplausos.
As Regras de Voo Visual da aviação internacional estipulam que um avião, se não em trajetórias de aterragem ou descolagem, deve sobrevoar grandes áreas urbanas a uma altura mínima de 300 metros.
Vídeos das imediações e do interior do recinto, gravados por adeptos, não tardaram a disseminar a reverberação para com a ousadia, longe de ser inédita na África do Sul. Quando acolheu, em 1995, o Mundial de râguebi, modalidade-cartaz do país, o governo de Nelson Mandela engendrou um plano para um gigante Boeing 747 sobrevoar o Ellis Park, no coração de Joanesburgo, a minutos de a final do torneio começar. O jogo opôs os Springboks aos All Blacks, venceram os anfitriões por um ponto, e a ocasião ainda mais célebre ficou por essa razão e muitas mais.
O voo do Boeing 747 sobre o Ellis Park, em 1995, pouco antes de começar a final do Mundial de râguebi
Mark Leech/Offside
Uma tradição com asas
Era a África do Sul saída do Apartheid, combalida de tantas feridas, cisões e ressentimentos que o seu novo presidente, saído do enclausuramento de 27 anos na prisão de Robben Island, se esforçava por curar com mostras de empatia.
Deu, por exemplo, a sua bênção à Truth and Reconciliation Commission liderada por Desmond Tutu, Nobel da Paz em 1984, para dar palco e voz às vítimas das agressões racistas do regime de segregação. Virou esforços para o poder transformador do desporto, sendo mediático e ele próprio vocal no apoio no Campeonato do Mundo à seleção de râguebi. Uma vontade arriscada: a modalidade era vista no país como sendo dos africânderes, a minoritária população branca responsável pelo regime que oprimira o povo (no Mundial tinha apenas um jogador negro, Chester Williams); e ele, o primeiro líder negro eleito democraticamente, vestiu a camisola e o boné dos Springboks.
A sua presença, o seu sorriso, o pontapé decisivo de Joel Stransky inculcados ficaram no imaginário sul-africano, além do avião que tão próximo sobrevoou o estádio com a mensagem “Let’s Go Bokke“ escrita na barriga da sua fuselagem. A cena mais popular se tornou com o take de Clint Eastwood, realizador de Invictus, filme de Hollywood que cinematografou sobre a história - porque não se tratou apenas de um jogo de râguebi.
Siya Kolisi, capitão da África do Sul, a celebrar o ensaio que marcou à Nova Zelândia
Gallo Images
A piada que os sul-africanos acham da acrobacia do último sábado encontra a sua génese nesse episódio. Daí a Airlink ter feito o mesmo no jogo inaugural da digressão dos All Blacks pelo país, há duas semanas, no mesmo Ellis Park de Joanesburgo, e de também ter pedido autorização à SACAA, a autoridade da aviação civil do país, para repetir a brincadeira este sábado (16h, Sport TV7), no estádio do Soweto, em Joanesburgo, palco da terceira partida da série.
Mas o costume não vai ter sequela. Face às críticas que o voo rasante recebeu nos últimos dias, a par da investigação entretanto iniciada pela SACAA, a companhia aérea anunciou, na quarta-feira, que se vai abster de rencenar o espetáculo. “A segurança foi prioridade em todas as etapas do processo”, garantiu a Airlink, ao explicar, em comunicado, que cada avião tinha no cockpit três comandantes e a tripulação de ambos, em conjunto, somava mais de 75 mil horas de voo. “Nunca quisemos ser notícia ou tirar protagonismo à Rugby’s Greatest Rivalry“, defendeu Villiers Engelbrecht, o seu diretor-executivo.
A companhia aérea diz ter enviado voluntariamente as caixas negras dos aviões à autoridade de aviação. Quanto ao encontro que vai desempatar a digressão entre Springboks e All Blacks, a Airlink escudou-se igualmente na meteorologia para justificar que os seus aviões não irão honrar o hábito espetacular, mas perigoso dos grandes embates do râguebi sul-africano: “Apesar de termos notado o alastrado entusiasmo para um sobrevoar do estádio este fim de semana, as previsões apontam para condições desfavoráveis a um voo feito em segurança.”
Portanto, desta vez será só mesmo um jogo de râguebi,