Râguebi

Portugal criou uma aliança com Geórgia, Espanha e Roménia no râguebi: querem mais dinheiro e mais competição

Os jogadores portugueses a celebrarem a conquista, em março de 2026, do Rugby Europe Championship contra a Geórgia
Os jogadores portugueses a celebrarem a conquista, em março de 2026, do Rugby Europe Championship contra a Geórgia
Luciano Lima

Todas nações do Tier 2 do râguebi internacional, o patamar logo abaixo das maiores potências, Portugal, Geórgia, Espanha e Roménia anunciaram a criação da Four Nations Alliance para algures no futuro criarem uma competição entre as suas seleções, explorarem “oportunidades comerciais” e fomentarem a independência possível da World Rugby. É o segundo passo da Federação em cerca de dois meses para tentar fazer crescer a modalidade no país

Portugal criou uma aliança com Geórgia, Espanha e Roménia no râguebi: querem mais dinheiro e mais competição

Diogo Pombo

Editor de Desporto

A queixa não é de agora, tem barbas grisalhas. A quem não vem das Seis Nações tradicionais do râguebi europeu, nem dos países matulões do hemisfério sul, sempre custou ter chances de competir com esse lote nove seleções, 10 se contarmos com a Argentina: as suas equipas nacionais defrontam-se anualmente em provas exclusivas, de acesso fechado, e no calendário oval já congestionado sobram poucas datas para marcar outros jogos particulares, ou test matches, no dito do idioma oval.

Amador por completo dentro de portas, mas com vários jogadores nas divisões profissionais de França, território com o qual se nutre uma relação quase umbilical, o râguebi português deu um passo contra a realidade da modalidade. A Federação Portuguesa de Râguebi (FPR) anunciou, esta sexta-feira e em sintonia com as companheiras desta boa-nova, a criação da Four Nations Alliance. É uma nova entidade para garantir “uma ação coordenada“ com a Geórgia, a Espanha e a Roménia na defesa dos ”interesses comuns” em "matérias como competições, calendário, financiamento e governação”.

Verdade seja mencionada, a World Rugby tentou amenizar as muitas queixas das nações mais modestas da modalidade com a criação, este ano, do Nations Championship, onde as 12 principais seleções do mundo se defrontarão a cada dois anos. Haverá subidas e descidas de divisão com a Nations Cup, prova siamesa, no fundo uma segunda divisão onde estão Portugal e os restantes três países da sua nova aliança, mas o elevador desportivo só começará a funcionar em 2030, a partir da terceira edição da competição — o que agradou pouco às equipas que não Inglaterra, França, Escócia, Irlanda, Gales ou Itália, ou a África do Sul, Nova Zelândia, Austrália e Argentina.

Esse descontentamento é lido também no comunicado da fundação da Aliança das Quatro Nações, assim a podemos chamar, “uma cooperação estratégica entre as quatro federações de topo europeias que não integram o Torneio das Seis Nações“. O intuito é “unir esforços para promover o crescimento em todas as áreas, desde a vertente desportiva ao financiamento, desenvolvimento comercial e assuntos institucionais“. Fonte oficial da FPR explica que, entre as ideias de futuro, estará a criação de uma prova entre os quatro países, mais ou menos coincidentes no nível do seu râguebi.

Essa vontade, dizem à Tribuna Expresso, nunca se concretizará antes do próximo Mundial, em 2027, na Austrália, onde Portugal estará pela segunda edição consecutiva e terceira na sua história. O congestionado calendário internacional até lá não o permite. O desejo de trabalhar rumo à independência possível da World Rugby, gestora desse ordenamento, e angariar receitas económicas é o que junta os quatro países onde a modalidade longe está de colher as prioridades nos interesses desportivos das respetivas populações — exceptuando talvez a Geórgia, onde o râguebi tem semelhanças a um jogo ancestral do país.

O râguebi português a mexer-se

Portugal ganhou, esta temporada, às três seleções com quem agora junta os trapos. O destaque surgiu em março, na final do Rugby Europe Championship, prova equivalente a um Seis Nações B, quando venceu a Geórgia. O país que tem as montanhas do Cáucaso a separá-lo da Rússia tem sido o principal adversário dos Lobos, sendo justo afirmar que está umas pegadas adiante no seu desenvolvimento apesar da recente vitória portuguesa: há 21 anos que a seleção nacional não superava os georgianos em campo, e contavam-se 23 desde a última (e até então única) conquista da dita competição.

Esta aliança “reforça a ambição de Portugal de crescer e afirmar-se ao mais alto nível”, afirmou Carlos Amado da Silva, presidente da Federação. O país é, de momento, o 14º do ranking mundial, um lugar abaixo da Geórgia mas três acima de Espanha (17º) e sete face à Roménia (21º). “Temos agora uma voz maior e mais forte para continuarmos a progredir”, afirmou David Kacharava, líder do râguebi georgiano.

A notícia desta nova aliança é a segunda, em poucos meses, a denotar uma vontade de quem gere a modalidade em Portugal de tentar coisas novas para a fazer crescer. Em agosto, a Federação formalizou a parceria com Associação Super XV, recém-criada pelos 12 principais clubes do país para inovar no formato do campeonato nacional e tentar, aos poucos, limar as arestas do amadorismo, ajeitando-as a “uma visão empresarial“. Querem “fazer de tudo para que haja mais público“, tentarão “arranjar um parceiro tecnológico“ e patrocinadores para gerar “mais receita“.

É um plano de negócios a cinco anos que, ao terceiro, pretende distribuir 30% dos lucros pelos clubes participantes, disse Luís Lança de Morais, líder da Associação que também preside a uma dessas equipas, o Grupo Desportivo de Direito. A uma semana do arranque do campeonato nacional ainda lhe falta um patrocinador principal, mas já tem um parceiro (Yacooba Lab) para investir 400 mil euros nas primeiras duas temporadas, revelou o dirigente à Lusa. E outro (Movielight) para garantir as transmissões dos jogos. O primeiro é a 10 de outubro.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt