Portugal

Rui Patrício, o guarda-redes que voou para segurar o sonho de Portugal em Paris

Rui Patrício com o troféu do Europeu 2016, conquistado com Portugal
Rui Patrício com o troféu do Europeu 2016, conquistado com Portugal
Jean Catuffe

Retirou-se o mais internacional guardião da seleção e o segundo jogador com mais encontros pelo Sporting. Estreou-se adolescente, superou críticas e assumiu papel crucial no maior feito do futebol português: a conquista do Europeu de 2016

Rui Patrício, o guarda-redes que voou para segurar o sonho de Portugal em Paris

Pedro Barata

Jornalista

Portugal precisava de tempo. No fim de tarde de Saint-Denis, o arranque da final contra à França trouxera dificuldades, que pareciam chegar nas asas dos pequenos insetos voadores que invadiam o Stade de France. Cristiano Ronaldo saiu lesionado e em lágrimas, voltando a chorar, 12 anos depois, na partida decisiva de um Europeu, Moussa Sissoko galopava pelo meio-campo deixando um rastro de destruição, Griezmann flutuava entre o meio-campo e o ataque.

Era preciso quem agarrasse naquela pequena crise e a travasse, segurasse, permitisse que Portugal se recompusesse, ficando em condições de, efetivamente, discutir o troféu. Foi quando as mãos de Rui Patrício aguentaram o sonho, não o permitindo fugir.

Entre diversas intervenções, a mais histórica de todas foi a que travou um cabeceamento de Griezmann. O homem com antepassados em Paços de Ferreira esbarrou contra o filho de Marrazes, num momento que seria imortalizado em estátua.

Com a base de sustentação que o guardião ofereceu, Portugal partiu para, efetivamente, disputar o desafio. E ganhá-lo, sempre apoiado em Rui Patrício, que saiu de França com lugar garantido na galeria de honra do desporto nacional.

Além da exibição na final, quando fez sete defesas, seis delas a disparos dentro da área, Rui brilhou nos quartos de final, contra a Polónia, parando o penálti de Błaszczykowski que abriu caminho para os quatro melhores do torneio. No mês de ouro da equipa de Fernando Santos, uma seleção que, a eliminar, só sofreu um golo em 450 minutos de futebol, o guarda-redes foi decisivo para validar aquela abordagem coletiva, muitas vezes especulativa, de deixar andar sem grande risco, de não temer três prolongamentos em 15 dias.

A icónica defesa de Patrício a cabeceamento de Griezmann na final de 2016
Anadolu

Quase uma década depois do auge, a carreira de Rui Patrício termina. Tem 37 anos e o incrível registo de 839 jogos oficiais, saindo com uma homenagem feita pela Federação Portuguesa de Futebol, esta sexta-feira.

A promessa que sobreviveu às críticas

Com 108 internacionalizações, o canhoto é o sétimo mais internacional de sempre por Portugal. Olhando somente aos guarda-redes, é claramente o líder, ficando 28 encontros à frente de Vítor Baía e 29 de Ricardo. Diogo Costa, o seu sucessor, soma 42 presenças.

Presente em quatro Europeus, três como titular, e três Mundiais, dois como primeira escolha, os registos de êxito deste percurso não surpreenderiam os muitos que, desde muito novo, lhe apontaram um futuro brilhante. Não obstante, estrear-se pelo Sporting aos 18 — defendendo um penálti nesse primeiro jogo contra o Marítimo — e assumir a titularidade aos 19 não o indultaram de críticas.

Após a saída de Ricardo, Vladimir Stojković chegou com alguma cotação a Alvalade, mas rapidamente Paulo Bento preteriu o sérvio em favor da promessa de Alcochete. Rui Patrício, nos primeiros tempos, foi alterando boas exibições com erros crassos, mas o técnico não o deixou cair.

O mesmo homem que estreou Patrício no clube seria quem lhe daria a titularidade na seleção. Com Paulo Bento, em 2011, Rui arrancou uma década como número um, vigência que só terminaria no play-off para o Mundial do Catar, quando Fernando Santos optou por Diogo Costa.

Se na seleção o momento que eternizou o guardião foi o Euro 2016, no Sporting a carreira fica associada ao longo jejum de campeonatos em Alvalade. Titular indiscutível desde o outono de 2007 até ao fim de 2017/18, os 467 jogos que fez só o deixam atrás dos 474 de Hilário. Apesar da tamanha longevidade, triunfos em duas Taças de Portugal, uma Taça da Liga e duas Supertaças sabem a pouco.

Nos piores tempos do Sporting, no sétimo lugar ou nas seis épocas seguidas sem qualquer troféu, Rui Patrício foi, muitas vezes, o garante de que tudo não descambava ainda mais. De promessa derivou em certeza, de titular a capitão, de constantemente associado à saída passou a uma presença segura, mas com um toque de tristeza, como se aquela relação estivesse condenada à infelicidade, não havendo projeto Jorge Jesus suficiente para a salvar.

A defesa ao penálti de Błaszczykowski nos quartos de final do Euro 2016
Alex Livesey

O trauma de Alcochete e uma segunda carreira

Rui Patrício rescindiu com o Sporting depois da invasão a Alcochete. A saída sem glória levou a que um símbolo do clube se tivesse tornado persona non grata entre boa parte dos adeptos, longe do estatuto de ídolo, distante do reconhecimento dado a Bruno Fernandes, Sebastián Coates ou Jérémy Mathieu, pilares do pré-invasão que ficariam para o pós.

Terminada a mais longa relação da sua carreira, Patrício teve o mérito de iniciar uma segunda de êxito. Fundamental no Wolverhampton de Nuno Espírito Santo, ajudou um histórico inglês a consolidar-se na Premier League e a chegar à Europa.

Contratado para a AS Roma, venceria, com José Mourinho, a Liga Conferência. Fez mais de 100 jogos nos dois emblemas que têm lobos como animal espiritual, tornou-se respeitado na Premier League e na Serie A.

Após 16 temporadas em que foi sempre titular nas suas equipas, 2023/24 viu-o perder esse estatuto nos giallorossi. Acabaria por sair para a Atalanta, onde fez meros seis jogos, concluindo no Al-Ain, com dois encontros no Mundial de Clubes.

De Marrazes para Alvalade, a sensação de destino incompleto de Rui Patrício com o Sporting contrasta com o auge que viveu por Portugal. Em Paris, ter dado tempo à equipa de Fernando Santos deixou-o na história do maior dos êxitos do futebol nacional.

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