O álbum de 12 improváveis que podem ser chamados por Martínez, mas se calhar não vão ser na última convocatória antes do Mundial
Rodrigo Mora não é chamado à seleção desde a fase final da Liga das Nações, no verão de 2025
Christian Kaspar-Bartke - UEFA
Era justo? Era. Justificava-se? Sim. Teriam espaço na seleção? Seria difícil, mas um conjunto que representa o melhor do país não é suposto que tenha em conta os melhores? Antes da derradeira lista para os dois encontros particulares que servirão de último teste para a convocatória final do Mundial 2026, juntámos uma dúzia de nomes que nunca ou pouco foram tidos em conta por Roberto Martínez neste ciclo
Ter dois dígitos ao lado do seu nome na hierarquia de assistências da Liga I deveria valer, por si só, uma consideração, por mais pequena que fosse. João Carvalho já ofereceu 10 golos, melhor do que ele ninguém e igual apenas Francisco Trincão, mas temos de salvaguardar as diferenças: o canhoto vive no núcleo do enorme volume de jogo ofensivo do Sporting, o outro é capitão do louvável Estoril Praia quando tem a bola, destemido a embalar jogadores para a frente embora desprovido de talento per capita equiparável ao do bicampeão nacional.
Deambulante por natureza, funciona como um 10 puro a vadiar entre linhas ou um médio interior descaído para a esquerda de modo a, sendo destro, receber a bola com o corpo aberto para a baliza. Vai na terceira época, a segunda consecutiva, no Estoril Praia à caça do 5º lugar no campeonato e o problema maior para esta pretensão de ele captar a atenção de Roberto Martínez, além das contrariedades óticas - estar num clube pequeno/médio atira logo o argumento de não competir no mais alto dos patamares -, é a abundância de opções na seleção para a relva que pisa.
Para passes arriscados no rasgo que esquartejem a organização do adversário há Bruno Fernandes, mestre a lançar jogadores na área, seja à distância ou no passe curto. Não havendo, uns metros atrás existem Vitinha, Bernardo Silva e João Neves, nenhum com passes no pé que indiquem aos jogadores para onde se devem desmarcar mais do que respeitem a desmarcação já feita. Com as devidas distâncias, os pés de veludo de João Carvalho são para fomentar combinações, tabelas e colocarem jogadas a mexer. Se a intenção é ter ideias frescas na cabeça e pés que as executem sem receios, contem com ele.
João Carvalho é um dos mais entusiasmantes talentos do campeonato português
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João Moutinho (SC Braga)
Ele já deu a volta, senão reparem.
Quando irrompeu no Sporting, tinta se dedicou a João Moutinho pela demora em fixar-se como titular da seleção nacional, estreou-se em 2005 e só em 2011, com o mesmo Paulo Bento que o estimara nos leões, assentou no onze, muitos anos contaram-se não tantos quantas internacionalizações o médio acumulou até junho de 2022, quando somente dois minutos contou na última vez que jogou por Portugal. Tinha 35 anos, era a sua 146ª aparição pela equipa nacional, vivalma contestaria a ideia de a sua luz estar a periclitar, mas hoje está com 39 e a tinta ainda não secou, nem pode secar.
Titular do SC Braga a prolongar a sua campanha vistosa na Liga Europa, o requinte nas ações de João Moutinho e a sua requintada consistência de bem jogar mantêm-se intactas, ou talvez mais apuradas, porque a ferrugem no corpo costuma ser um bálsamo para limar a mente e do médio, como ainda recentemente demonstrou no jogo contra o Sporting, oferece um farol de decisões acertadas às jogadas dos minhotos. Não está para grandes correrias, antes para acerta na ação simples que na maioria dos casos é a mais correta.
Moutinho nunca foi chamado por Roberto Martínez, nem uma menção recebeu nas intervenções públicas do selecionador, parece assentar ao quase quarentão a veste de passegeiro que perdeu o comboio. Também teria as suas medidas um papel secundário na seleção, de sombra a Vitinha na função de 6 fazedor de jogo, mais contrutor, para as eventualidades. E seria uma voz experiente e calejada, com sete fases finais vividas. Já sabemos o carinho nutrido pelo treinador em selar a seleção com cadeado de clube, mas este exercício é um de improbabilidades.
Quase com 40 anos, João Moutinho continua a um belo nível no SC Braga
NurPhoto
Luís Esteves (Gil Vicente)
Meias a meia-haste na canela, manga curta pese o frio, luvas guarnecer as mãos, há todo um cenário de jogador em Luís Esteves enquanto existe como o cérebro de chuteiras postas no cerne do jogo do Gil Vicente que muito tempo andou no 4º lugar do campeonato. Com pinta de número 10, recuou uns metros no campo, atua mais como um 8 por força da lógica: alguém tão extremamente apto para privar com a bola tem de andar sempre perto dela.
Os três golos e as sete assistências não lhe escrevem justiça, o futebol Luís Esteves suplanta uma visão baseada em números e assentaria na seleção também pela lógica, além da teoria: sendo uma seleção para abusar da bola, que a terá bastante mais contra a maioria dos adversários que defrontar, as suas receções orientadas em espaços curtos e aptidão para descobrir gente através do passe, com ambos os pés, seriam valiosas.
Teve formação no Sporting mas de lá saiu ainda nos júniores, trilhando um percurso em equipas de outra dimensão até assentar na I Liga ‘apenas’ aos 25 anos. A sua chamada agora em março, mesmo sem a consequência de chegar ao Mundial, seria outra raríssima demonstração tal qual foi Jota, há uns tempos, de que o sucesso no futebol longe está de assentar em apenas uma via possível.
Luís Esteves tem sido o craque do belo Gil Vicente 2025/26
JOSE SENA GOULAO
Ricardo Horta (SC Braga)
Sortudo o metrónomo do Sporting de Braga, ainda se pode gabar de há quase dois anos ter sido o único a quem Roberto Martínez fez questão de telefonar para explicar a sua ausência dos convocados para o Campeonato da Europa, exceção aberta pelo selecionador por o jogador ser “um exemplo”, e mais do que isso, um “sonho taticamente e tecnicamente”, só que a exceção cedo virou a tabuleta pendurada na porta e fechou-se.
Desde novembro de 2023 que Ricardo Horta não joga pela seleção. Desde o dia em que Portugal soube ele é um aparente adorado pelo selecionador que o híbrido atacante, não importa de que zona parta, que espaço ocupe, que função tenha no papel, só tem melhorado. Vai embalado para fixar, em números, a melhor época da sua carreira com 10 assistência e 19 golos, a cinco dos 24 de 2019/20. Entretanto fez-se recordista, é o melhor marcador da história do SC Braga.
Aproveitando a sua relação quinética com Rodrigo Zalazar no clube, mais uma telepatia nutrida pelo capitão minhoto com outro talentoso futebolista dos que vão passando pela equipa, Horta tem afinado uma qualidade especial no seu jogo: a finalização na área ou à sua beira, com remates de primeira. Poucos ou nenhum jogador haverá em Portugal com semelhante nível a golpear uma bola corrida para a baliza.
Está feito um sublime especialista, e não era isso que Martínez pretendia? “Há outros jogadores que são especialistas nas coisas que precisamos nos jogos”, disse o selecionador, em 2024, para justificar a não chamada de Ricardo Horta. Na quarta-feira lá esteve em Braga, viu-o a marcar dois golos de primeira ao Ferencváros, quiçá pensando que será difícil ignorá-lo nas contas para a segunda fase final seguida de uma grande competição.
Ricardo Horta, o melhor marcador da história do SC Braga
Eurasia Sport Images
Rodrigo Mora (FC Porto)
Um pouco mais sortudo, sem ironias embora de lógica inversa, foi o puto-maravilha do FC Porto, que presenciou no último verão a conquista da Liga das Nações sem nela participar em campo, mas pode dizer “eu estive lá”, em Munique, pese a época coletiva desastrosa, a única ponta por onde se pôde pegar na equipa portista esteve em Rodrigo Mora, um pequeno gedelhudo cujo talento se pôs à solta para salvar os dragões em vários jogos e merecer a estreia em convocatórias da seleção principal.
Nesta temporada de molde e estrutura com Francesco Farioli, o esquema base do FC Porto ficou sem a posição natural do adolescente, nascido para ser um 10 ou segundo avançado com soltura para pisar as zonas que pretenda perto da baliza, agora obrigado a ser um médio interior esquerdo para ter minutos. Mora tem-nos tido (mais de 1400), oscila na titularidade, já se esfola a correr em tarefas defensivas, um miúdo a fazer o que tem de fazer em vez do que gostaria de fazer para se manter relevante.
Não o tem sido tanto como era na época passada, anda mais longe da baliza a tocar a bola na lua do meio-campo, de costas para o é gravítico no seu futebol. O atual FC Porto não tem funções que o favorecem naturalmente, a seleção de Martínez pouco as desenha também.
Depois do brilho da época passada, Mora tem vivido uma época de desafios
Octavio Passos - UEFA
Mateus Fernandes (West Ham)
Pela terceira época seguida está a jogar numa equipa que, em março, corre sérios riscos de descida. Pela terceira época seguida é um dos destaques do campeonato em que se insere.
Decisivo na permanência do Estoril Praia no principal campeonato português em 2023/24, incapaz de evitar o descida do Southampton da Premier League em 2024/25, agora é o West Ham a fonte das arrelias do algarvio. Não obstante, a segunda época do médio na liga mais endinheirada da Europa tem sido ainda melhor, com mais chegada à área, presença física e uma enorme maturidade para quem tem 21 anos.
Há muita concorrência no meio-campo de Martinez, mas poderia dar um registo mais de box to box à seleção nacional.
Depois de sair do Sporting, Mateus Fernandes está na segunda época em Inglaterra
Izzy Poles - AMA
Gonçalo Guedes (Real Sociedad)
Talvez o comeback do ano a nível de jogadores no radar da seleção. Desde que saira do Valencia para o Wolverhampton, em 2022, não mais apresentara o nível que, no Mestalla, o tornou um dos mais entusiasmantes valores de La Liga, com pouco felizes períodos em Inglaterra, no Benfica e no Villarreal.
No entanto, a atual passagem pela Real Sociedad está a fazer o canterano do Benfica renascer. Na sequência de um arranque suave no País Basco, leva já nove golos, todos apontados desde novembro, e oito assistências. Está com queda para os grandes embates, tendo já marcado no dérbi contra o Athletic - na primeira e na segunda volta -, e perante Atlético e Barcelona. Soma um golo e três assistências na Taça do Rei, onde o clube de San Sebastián está na final.
Soma 32 internacionalizações A, a última delas em junho de 2022, com Fernando Santos, pelo que nunca foi utilizado por Roberto Martínez. Com Francisco Conceição, Rafael Leão, Pedro Neto e Francisco Trincão praticamente fixos nas ideia de Bob, não será fácil para o herói da final da Liga das Nações 2019 marcar presença no segundo Mundial da carreira, após ter feito todos os jogos de Portugal no Rússia 2018.
Gonçalo Guedes tem sido uma das figuras da Real Sociedad
Juan Manuel Serrano Arce
Tomás Araújo (Benfica)
Estreou-se com Martínez em novembro de 2024, num desafio na Croácia quando o apuramento para a final four da Liga das Nações já estava garantido, no mesmo dia em que Fábio Silva e Tiago Djaló também debutaram. Muito utilizado a lateral direito no Benfica da época passada, quando os problemas físicos o levaram a ser um crónico substituído, só completando os 90 minutos em dois dos últimos 12 jogos que disputou em 2024/25, falharia a fase decisiva da Liga das Nações por “decisão médica“, conforme dito por Martínez na altura.
A presente temporada começou com interrogações físicas para o minhoto. Prova disso é que a sua estreia em 2025/26 deu-se pela equipa B, numa fase em que recuperava a melhor forma. Com apenas duas partidas completas até à segunda metade de outubro, perdeu espaço na seleção, que não mais voltou a representar deste aquela primeira vez há um ano e meio.
Não obstante, os últimos meses do Benfica foram, em certa medida, uma luta que se pode transpor para a seleção nacional. António Silva, de maior histórico por Portugal (18 internacionalizações, presente nos passados Europeu e Mundial), tornou-se habitualmente preterido em face de Araújo, de quem José Mourinho já destacou a finura técnica e a velocidade. Silva está longe de apresentar registos nulos na época, contando 29 titularidades, mas Araújo, que no total até foi opção inicial menos uma vez que o compatriota, chega a esta fase em melhor momento. No eixo da defesa, Rúben Dias, Gonçalo Inácio e Renato Veiga parecem ter presença garantida.
Tomás Araújo tem sido a opção primordial para jogar ao lado de Otamendi no Benfica
Eurasia Sport Images
Paulinho (Toluca)
Roberto Martinez já manifestou a intenção de chamar um terceiro homem para o centro do ataque, para além dos óbvios Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos. Ora, se formos a números, ninguém justifica mais essa convocatória do que o canhoto nascido em Barcelos.
Após sair do Sporting na sequência da sua melhor temporada em Alvalade, com 21 golos, o atacante do Toluca tem brilhado no México. Já marcou 54 vezes e assistiu 12 companheiros em 79 encontros desde o verão de 2024, registos fundamentais para ser bicampeão e triunfar na Campeones Cup da CONCACAF, torneio que une equipas do México e da MLS.
Com capacidade associativa, forte no jogo aéreo e até um hábito de pisar relvados do lado de lá do Atlântico, tem razões para sonhar.
Paulinho, goleador num dos co-anfitriões do Mundial
Hector Vivas
Youssef Chermiti (Glasgow Rangers)
Há bem pouco tempo, pensar em Chermiti e Mundial seria assumir que o jogador aceitaria representar a Tunísia, país de nascimento do pai, e assim estar com a equipa norte-africana na competição. Só que, recentemente, o filho de Noureddine Chermiti, treinador de basquetebol que emigrou para a ilha de Santa Maria, nos Açores, no início do século, obteve o direito a entrar no radar de Bob.
Yousseff revelou alergia ao golo durante muito tempo. Três golos em 22 encontros pelo Sporting, zero em 24 pelo Everton, zero nos primeiros oito pelo Rangers. Mas eis que, subitamente, o ponta-de-lança vestiu uma capa de super-héroi nos principais embates na Escócia. Marcou quatro golos em dois embates contra o Hearts, líder do campeonato,hat-trickincluído, e bisou em dois dérbis perante o Celtic, com direito a um brutal golo de bicicleta. Só nestes palcos festejou mais do que em toda a restante carreira
No total, Chermiti apresenta nove golos em 33 partidas, números que não são de fazer perder a cabeça. Sem o requinte técnico de Fábio Silva e Paulinho, pode ser uma opção a considerar caso se pretenda que o terceiro eleito para o centro do ataque tenha um perfil mais físico, capaz de causar o caos na defesa aderversária em contextos concretos, nomeadamente em forcings finais.
Chermiti, autor de um brutal golo de bicicleta ao Celtic, tem sido o rei dos grandes jogos na Escócia
Alan Harvey - SNS Group
Fábio Silva (Borussia Dortmund)
Outrora uma grande promessa do FC Porto, a carreira do avançado tem sido uma jornada saltitante, pulando de país em país, de campeonato em campeonato. Aos 23 anos, já jogou em Portugal, Inglaterra, Bélgica, Países Baixos, Escócia e Alemanha, onde está agora, no Borussia Dortmund.
A nível sénior, Fábio Silva não se tem conseguido destacar pelos golos. As 10 vezes que marcou pelo Las Palmas, na época passada, catapultaram-no para a Bundesliga, mas no Dortmund ainda só foi titular em oito ocasiões, com dois golos.
Se a baliza adversária se tem afastado de Fábio Silva, outras virtudes se têm aprimorado. O requinte técnico, a ligação com os companheiros e até um certo altruísmo nas movimentações e opções tomadas são fatores a favor de um futebolista que, neste momento, é mais um atacante gregário do que um goleador. A seu favor tem o histórico nas seleções e o conhecimento de grandes palcos, mas perde em méritos recentes face à concorrência.
Fábio Silva, dono de um respeitável trajeto nas seleções jovens, já atuou em sete países diferentes
Hendrik Deckers
Raphaël Guerreiro (Bayern Munique)
O lado esquerdo da defesa da seleção teve, durante largos anos, sotaque francês. Guerreiro deu nas vistas na seleção sub-21, à qual assomou como um luso-descendente que mal arranhava o português, e consolidou-se como titular na antecâmara do Euro 2016, onde teve papel de destaque. Titular no Europeu da glória, manteve o estatuto no Mundial 2018, no Euro 2020 e no Mundial 2022.
A ascensão de Nuno Mendes, conjugada com problemas físicos que sempre o limitaram, roubaram espaço ao canhoto, que apresenta 65 internacionalizações A. Justamente para cuidar do seu corpo, e proteger-se de lesões, Guerreiro pediu a Martínez para não o convocar na segunda metade de 2024. A pausa teve efeitos, já que em 2024/25 somou 38 encontros pelo Bayern, com escasso registo de lesões.
Tendo já manifestado disponibilidade para regressar, Raphaël não mais foi chamado. A última vez que vestiu a camisola nacional foi em novembro de 2023, perante a Islândia. No arrasador Bayern de Vincent Kompany, só foi titular nove vezes na temporada, num total de 22 jogos, dividindo os minutos entre a defesa e o meio-campo. Se Bob pretender polivalência, criatividade, qualidade nas bolas paradas e uma alternativa canhota a Nuno Mendes, pode pensar no regresso do baixinho que foi indiscutível como poucos durante largos anos.