Portugal

Sacrifício de Portugal coloca a seleção em vantagem logística face a outros candidatos a ganhar o Campeonato do Mundo

Portugal treinou na Cidade do Futebol antes de viajar para Cancún
Portugal treinou na Cidade do Futebol antes de viajar para Cancún
TIAGO PETINGA

Os amigáveis no México e nos Estados Unidos vão exigir um esforço acrescido aos jogadores da seleção nacional devido às viagens, mas colocam Portugal um passo à frente dos rivais ao nível da preparação logística para o Mundial. Durante a janela internacional de março, entre os principais países europeus, apenas França e Bélgica se vão testar no local da competição. Espanha, Alemanha, Inglaterra e Países Baixos vão ficar pelas redondezas, embora competindo frente a equipas de outros continentes

A prática futebolística, dada a inconsequência de eventuais resultados negativos, é o menor dos dilemas de Portugal durante a janela internacional de março. Embora seja necessário testar as novidades na convocatória para lhes dar esperança quanto ao contributo relevante que podem ter no Mundial, o desafio é o contexto.

Esta terça-feira, Portugal viaja para Cancún onde vai realizar o estágio que antecede o particular contra o México, no Estádio Azteca. Depois, segue para Atlanta, local do segundo encontro. São territórios que a equipa não costuma pisar e que proporcionam condições especiais capazes de influenciar o desempenho. Roberto Martínez, ao anunciar os convocados, considerou que o périplo é uma “oportunidade para experimentar” e “poupar tempo em junho”, altura em que já não há margem de erro.

Entre a Cidade do México e Atlanta existem duas horas de diferença e é a estas guinadas no relógio que os jogadores têm de se habituar. Além disso, o Estádio Azteca encontra-se a 2200 metros do nível do mar, existindo pouco oxigénio disponível no ar rarefeito. A seleção está por isso investida em “trabalhar muito o protocolo de mudança de horários e altitude” ao mesmo tempo que, nos Estados Unidos, também vai testar a habilitada para jogar num estádio coberto. As paragens para hidratação que vão pausar durante três minutos cada uma das partes também serão incluídas nos ensaios. “O papel da equipa técnica é esperar o inesperado”, disse o cauteloso técnico espanhol.

A precaução paga imposto e um estágio tão longínquo requer sacrifício devido às viagens transcontinentais que os jogadores terão de realizar. “A exigência do futebol de clubes e de seleções é sempre difícil de gerir”, esclareceu Roberto Martínez. Fui treinador da Premier League durante sete anos e não gostava quando os jogadores iam à seleção. Mas também sei que o momento mais importante para um jogador é vestir a camisola do país. A nossa responsabilidade é preparar o Mundial. Fazer dois jogos este mês em Portugal não serviria para nada.”

Das principais seleções europeias com a qualificação para o Mundial selada, apenas França e Bégica também se vão desafiar em pontos geográficos remotos. Tal como Portugal, os belgas também vão enfrentar os Estados Unidos e o México, sendo que, neste caso, ambos os confrontos se desenvolverão em terras de Tio Sam (Atlanta e Chicago).

Os gauleses vão defrontar o Brasil e a Colômbia também no solo dos organizadores do Mundial. O recinto que os vice-campeões conhecerão quando enfrentarem a canarinha é o Gillette Stadium, em Boston, infraestrutura que vão utilizar no Mundial. O outro jogo vai decorrer em Maryland. O selecionador francês, Didier Deschamps, admitiu que “não é o ideal do ponto de vista desportivo” fazer tantas viagens, mas que existem “outros fatores a serem considerados” na preparação para o grande evento deste verão: “Como treinador, tenho que lidar com eles.”

A Espanha teve que improvisar um programa que lhe permitisse não desperdiçar a pausa no futebol de clubes. Enquanto campeã da Europa, La Roja ia participar na Finalíssima, o que implicaria uma visita a outra região do globo que não a América do Norte. Devido aos conflitos no Médio Oriente e ao desacordo entre as federações para que o jogo se realizasse noutro local ou noutra data, a UEFA cancelou o duelo entre a seleção espanhola e a seleção argentina, que estava previsto acontecer no Catar.

A decisão foi tomada em cima da data (30 de março) para a qual estava marcada a Finalíssima. Como solução de recurso, a Espanha compôs a agenda com um amigável frente à Sérvia a ser jogado no Estádio de La Cerámica, casa do Villarreal. De seguida, a equipa de Luis de la Fuente medirá forças com o Egito. O encontro diante da equipa africana que estava inicialmente pensado para ser jogado no mesmo país da Finalíssima acabou transferido para o Estádio do Espanyol, em Barcelona. As circunstâncias “são o que são”, aceitou o selecionador espanhol que vê com “naturalidade” as alterações ao planeamento. “Daqui até junho existirão mais contratempos.”

Países Baixos e Inglaterra também se ficarão pelo conforto do seu lar. Ainda assim, ambas as seleções vão defrontar adversários inusitados, mas mundialistas. A seleção dos Três Leões recebe em Wembley o Uruguai e o Japão. Os neerlandeses, além de acolherem a Noruega em Amesterdão, vão também ser anfitriões do Equador em Eindhoven. A Alemanha não sairá da Europa, mas vai realizar uma curta deslocação até Basileia para visitar a Suíça. No segundo jogo, a Mannschaft recebe o Gana em Estugarda.

Meses depois de Vitinha ter assumido que “teria gosto e interesse em jogar contra seleções de outros continentes”, eis um cartaz de jogos entre desconhecidos.

Última chamada

Enquanto algumas seleções fazem testes logísticos, outras ainda estão em busca de assegurar um requisito básico como a qualificação. O Mundial tem ainda lugar para seis equipas estacionarem na fase de grupos, sendo que há 22 envolvidas nos playoffs em que se pode garantir esse direito.

O Grupo K, aquele em que Portugal se insere, é um dos que ainda não está completamente definido. A proveniência do adversário mistério, aquele frente ao qual a seleção nacional se vai estrear, terá origem no playoff intercontinental. A Nova Caledónia e a Jamaica vão disputar a meia-final. O vencedor avança para um decisivo jogo frente à República Democrática do Congo. O playoff intercontinental dará ainda mais uma equipa ao torneio. Bolívia e Suriname, semi-finalistas, e Iraque são os candidatos.

As restantes quatro vagas serão atribuídas a seleções europeias. A Itália, quatro vezes campeã do mundo, atrasou-se no processo de apuramento. Para remediar a situação, precisa de ganhar à Irlanda do Norte e ao vencedor do País de Gales-Bósnia. Seleções como a Dinamarca e a Polónia, que estiveram no Mundial 2022, ainda têm trabalho a fazer. Os dinamarqueses vão defrontar a Macedónia do Norte, seguindo-se a Chéquia ou a República da Irlanda. Os polacos terão pela frente a Albânia e também se podem cruzar com a Suécia ou a Ucrânia.

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