Numa apresentação em tom de ‘roast’ a Martínez, Jorge Jesus prometeu Portugal a jogar o dobro. E prometeu títulos, que é o mais importante
O treinador vai liderar a seleção num ciclo que culmina no Mundial 2023, coorganizado por Portugal
MANUEL DE ALMEIDA
Jorge Jesus apresentou-se oficialmente como novo selecionador nacional convicto de que todas as equipas em que toca se tornam vencedoras. O treinador de 71 anos não quer que Portugal seja uma exceção até porque orgulho para carregar a bandeira não lhe falta. Com ele, Cristiano Ronaldo terá liberdade para escolher quando vai deixar de representar o país e nenhum jogador jovem ficará de fora por causa da idade
[Alguma citações foram editadas de modo a retirar marcas de oralidade.]
Será uma pena ter Jorge Jesus no nosso quintal e não o podermos ouvir falar todas as semanas. É da maneira que a exclusividade acentuará os momentos em que, a cada janela internacional, se vai pronunciar.
O momento pelo qual todos esperavam ocorreu no discurso introdutório, ainda antes de lhe fazerem qualquer pergunta. Em jorgejesuguês, enfatizou o se-ló-gón (slogan)que estava projetado nas suas costas e que dizia: “Viemos para Vencer.”
A eliminação nos oitavos de final do Mundial ainda está pintada de fresco na memória. Jorge Jesus também desenvolveu emoções pela participação de Portugal. O coração ficou cheio de “vaidade”. “Eu senti isso, só não senti desportivamente. Se tivesse sentido, não estava aqui”, disse o novo selecionador nacional. O desempenho deixou-o, portanto, desiludido e comprometeu-se a jogar “o dobro, porque senão fica tudo igual”.
O tom inicial da apresentação oficial do novo selecionador parecia ser um roast a Roberto Martínez. Jorge Jesus deixou-se contagiar pela mensagem de Pedro Proença, que não teve qualquer palavra para o trabalho do espanhol e ignorou por completo o passado recente. A partir de agora, será tudo “novo”. Começará uma “nova era”, uma “nova fase”, uma “nova etapa”, um “novo tempo” com um “novo selecionador” e com a “ambição do tamanho do nosso talento”. Tudo em prol de “um novo padrão de exigência”, anunciado como se a responsabilidade tivesse chegado só agora à Federação Portuguesa de Futebol.
O presidente do organismo ambiciona que Portugal possa jogar “mais e melhor” com um técnico escolhido por si próprio. “Não temos medo de assumir que queremos ser a melhor seleção do mundo. Hoje, apresentamos o novo selecionador nacional, um treinador exigente, unânime, um dos melhores da nossa história. Mais importante: um treinador habituado a jogar sempre, sempre para ganhar. Um treinador com identidade, que partilha a nossa visão.”
Jorge Jesus calçou as botas de ambição deixadas no púlpito da Cidade do Futebol por Pedro Proença. Assumiu querer “valorizar o espetáculo” com base no histórico de que é portador. “Viemos para ganhar. Estamos convencidos de que, quando chegamos a qualquer lado, vencemos”, afirmou alguém que sente “um grande orgulho de ser português” e que está ciente da importância do cargo. “Agora, sou um treinador de 12 milhões de pessoas.” E tem uma missão: “O mais importante é conquistar títulos na seleção.”
Jorge Jesus durante a conferência de imprensa da sua apresentação como selecionador nacional
Gualter Fatia
Apesar dos 71 anos, veio com genica e com a pitada de humor involuntário inerente: “Não pus o Bernardo Silva a jogar? Foi contra o Cinfães na Taça de Portugal, mas jogou” ou, outro exemplo, “12 jogadores dos 26 que foram ao Mundial trabalharam comigo, são mais de metade”. Quase que o conseguimos imaginar num jogo amigável na Finlândia, em que Portugal está a ganhar 5-0, a dar indicações intensas no meio de um nevão aos 80 minutos. Talvez nunca tenha sido tão apropriado chamar chicotada psicológica a uma mudança de treinador.
Ronaldo “nunca vai ser um problema para a seleção”
Ao longo de uma carreira de praticamente 40 anos iniciada em 1989, no Amora, é a primeira vez que Jorge Jesus orienta uma seleção e importa sempre lembrar que para“conduzir uma Ferrari tem de ter andamento para ele”. O treinador promete não ficar aborrecido por não dar treino todos os dias. “Preparei-me desportivamente para poder ser selecionador. Nada para mim vai ser muito diferente”, garantiu. “Há muita tendência de dizer que um treinador de seleção é diferente de um treinador de equipa. Não é verdade. O método é uma ciência de cada um, se não éramos todos iguais. Vou-me adaptando às circunstâncias.”
Na última época, no Al-Nassr, treinou um dos grandes dilemas para o futuro da seleção. Cristiano Ronaldo vem de uma temporada em que fez 37 jogos e marcou 30 golos. No entanto, é pouco arriscado dizer que, aos 41 anos, a carreira está mais perto do final do que do início. “Será sempre ele a decidir o que quer fazer para o futuro da carreira”, admitiu Jesus que adianta que o capitão “nunca vai ser um problema para a seleção” e relembrou as 16 vezes que o substitui-o e os 20 jogos em que não o lançou no clube saudita em 2025/26. “Nunca confundimos o que é o jogador, o treinador e as decisões que tenho que tomar.”
Com atenção aos mais experientes, mas também aos mais jovens, o novo selecionador promete não deixar ninguém de fora por causa da idade. “São os jogadores que vão dizer ao selecionador como é que temos de agir. O que interessa é o valor.” Orgulhoso de ter treinado dois dos três melhores jogadores do mundo, não se esquece do dia em que disse a Neymar “tu, finish”.