Com o Estrela da Amadora presente, a convocatória de Jorge Jesus foi altura para chamar os seus jogadores e outros que não existem
A dar explicações sobre a convocatória de 25 jogadores
JOSE SENA GOULAO
O Jorge Jesus das gafes já conhecíamos. Aos poucos, vamos também sabendo como pensa o selecionador. Na primeira convocatória, o técnico deu primazia à continuidade e aos jogadores com quem trabalhou no passado. Apesar de se ter adaptado “facilmente”, está consciente das especificidades do novo cargo. Por isso, preparem-se para mais “treino de sala”
À entrada da Cidade do Futebol, tripés e câmaras encostam-se à sombra à espera de entrarem em ação. O aparato não é mais do que o habitual, mas é um acompanhamento digno de uma das melhores seleções do mundo. Uma hora antes de Jorge Jesus anunciar a convocatória, os segredos ainda permanecem guardados atrás das cancelas que, murchas, se opõem a uma entrada atempada.
Mais sorte teve o Estrela da Amadora. A equipa da Reboleira colhe o raiar do sol num dos relvados. É o laboratório do dia para um dos ataques mais concretizadores da I Liga (14 golos marcados ao fim de seis jogos). Por isso, o autocarro tricolor, responsável pela migração do plantel desde o Estádio José Gomes até à casa das seleções, também veio assistir ao acontecimento.
A coincidência é curiosa. A Amadora foi a génese da pessoa e do indivíduo ensandecido pelo futebol. A vida deu muitas voltas: Arábia Saudita, Turquia, Brasil. Agora, vai-se sentar no banco da seleção. Há círculos que não são tão perfeitos como o percurso de JJ.
A sala, antes agitada, ficou muda. Ainda pouco habituado à função, o novo selecionador nacional tropeçou em alguns nomes durante o anúncio da primeira convocatória. Samuel Soares, Nuno Tavares, João Palhinha e Fábio Silva foram as quatro novidades, número superior ao que estava prometido, mas não suficiente para se falar de revolução.
Breves instantes durou uma enumeração que acabou com horas de debate entre adeptos a caturrar pelas esquinas do país. Jorge Jesus ainda é um selecionador indocumentado. Nada se conhece sobre o que tem pensado para a seleção. Apenas se sabem os traços gerais, indícios retirados das experiências profissionais anteriores.
A convocatória clave de sol, que dita onde se encontram as notas do futuro próximo de Portugal, incluiu 25 jogadores. Enquanto escalpelizava as opções, Jorge Jesus conseguiu apenas errar em três nomes: Flávio Silva, em vez de Fábio Silva, Joaquim Sá, em vez do não convocado José Sá, e Rui Freire, em vez do selecionador sub-21 Luís Freire. Valeu-lhe a atenção redobrada do assessor.
Não era necessário o técnico inventar reforços. Em caso de necessidade, podia socorrer-se dos ilustres presentes nas primeiras três filas. Antigos internacionais como Ricardo, Bruno Alves, Nélson Pereira ou Toni imiscuiram-se nos lugares reservados a figuras de relevo da Federação Portuguesa de Futebol, entre as quais Pedro Proença.
As atenções estão viradas para o jogo contra o País de Gales, que marca a estreia de Jorge Jesus no comando técnico da seleção
JOSE SENA GOULAO
Jorge Jesus deu primazia à continuidade, porque o plantel que esteve no Mundial 2026 já era composto por jogadores “do presente e do futuro”. O técnico acentuou ainda outro aspeto. O passado em comum com alguns jogadores, fornecedor de indicações preciosas, também pesou. “Treze deles já trabalharam comigo”, disse revelando as contas feitas na mente cercada pela cabeleira fulva. Reclamar o lançamento de jogadores tem sido um autoelogio recorrente.
O septuagenário não parece estar a lidar mal com as novas funções. “A mudança para selecionador não é complicada em nada. Tenho-me estado a adaptar facilmente”, tranquilizou. O posto tem as suas particularidades. As horas de treino diminuem e aumenta o trabalho de observação, remoto e presencial. Quando receber os jogadores, devido ao pouco tempo que os terá ao seu dispor, a mensagem tem que estar na ponta da língua e o “treino de sala” terá bastante ênfase.
O processo de escolha olhou “ao momento” e à “qualidade” dos jogadores. “O clube não é importante”, reforçou. JJ revelou que a pré-convocatória de Portugal foi composta por 46 nomes, ou seja, praticamente o mesmo número de futebolistas que Jürgen Klopp chamou (44) para dar início ao novo ciclo da Alemanha. “É uma ideia dele. Eu tenho uma completamente diferente. Em Portugal, não fazes duas equipas com o mesmo nível.”
Foram vastas as explicações que prestou. O lugar assim o exige. Porém, foi complicado manter a compostura ao longo de quase uma hora em frente às câmaras. A dado momento, Jesus apercebeu-se que estava demasiado relaxado corrigiu a postura repentinamente. Quase parecia que se tinha visto ao espelho na televisão posicionada na lateral do auditório.
Portugal prepara-se para receber o País de Gales e visitar a Noruega, encontros cuja necessidade de testar a ideia de jogo se impõe a qualquer adaptação estratégica ao adversário. JJ tem assim disponível o médio de intensidade que tanto queria, João Palhinha, e mais uma solução para jogar como segundo avançado, Fábio Silva, alguém com “condições diferentes de todos os outros” pontas de lança. E sim, preparem-se para que o sistema tático inclua alguém que coce as costas ao homem mais adiantado.
Os troféus conquistados pelas seleções nacionais são os rececionistas da Cidade do Futebol. Entre eles está a Liga das Nações, o título que Portugal vai começar a defender no dealbar de uma nova vida.