A reforma está próxima para Cristiano Ronaldo? “Gostava de responder mas não sei”. Mas, para o matar, “só mesmo de caçadeira”
Aos 41 anos, Cristiano inicia novo cíclo na seleção
ANTÓNIO PEDRO SANTOS
Antes do arranque da nova edição da Liga das Nações, o capitão da seleção reforçou a vontade de chegar ao golo 1000 (de preferência na seleção), citou Quim Barreiros e diz-se preparado para qualquer opção de Jorge Jesus, que sublinha ser a “escolha perfeita” para Portugal: “Se o mister não contar comigo eu posso sair já hoje, sem problema nenhum”
“Acho que nunca falei para tanta gente ao mesmo tempo!”. Até para quem já viu quase tudo, há sempre surpresas e desafios. Foi em plena Portugal Football Summit, perante um auditório cheio, de jornalistas e não só, que Cristiano Ronaldo fez a antevisão ao encontro com o País de Gales, na quinta-feira, que marca o arranque de mais uma edição da Liga das Nações, onde Portugal defende o título.
Antevisão, vamos lá ver, porque quando Cristiano Ronaldo fala é raro que o assunto não seja apenas e somente Cristiano Ronaldo. Aos 41 anos, fala-se de futuro, fala-se do adeus, fala-se de marcas, *daquela* marca em específico. Fala-se das novidades na seleção. Da nova era. Deu até para citar Quim Barreiros. Sobre o País de Gales, pouco ou nada.
Há um novo ciclo na seleção e por aí tudo começa. Mas, para já, a única novidade é Jorge Jesus. Antes de falar do novo selecionador, Cristiano tem um momento de cortesia para alguém que sempre o defendeu, Roberto Martínez.
“Quero aproveitar para dar os parabéns ao Mister Martínez pelo trabalho excelente que fez na seleção, sendo de outra nacionalidade, que é difícil, pelos ataques que recebeu”, começou por dizer, antes de elogiar a escolha de Jesus, que o treinou no Al Nassr. “Só espero que as coisas lhe possam correr bem, porque se lhe correr bem a ele, vai correr bem a todos nós. Tenho a certeza que vai fazer um excelente trabalho”, salientou Cristiano, falando mesmo de “uma escolha perfeita”.
“É um ar diferente, conceitos diferentes, táticas diferentes, um idioma diferente. O mister já referiu que muitos destes jogadores já trabalharam com ele, e como ele diz, para adiantar o processo é mais fácil. Por isso estamos todos confiantes. Começa já amanhã e eu penso que a equipa está preparada. O mister vai ficar bastantes anos e tenho a certeza que foi a melhor opção”, continuou o capitão da seleção.
Um Ronaldo worldwide
Não dá para falar com Cristiano Ronaldo sem falar do fim. Para quando, afinal, o adeus? Para quando a despedida, o passar de pasta. Não há resposta para essa pergunta, garante o avançado. “Gostava de responder mas não sei”. Há pouco tempo, Ronaldo assumiu que este talvez fosse o seu último ano. “Perguntas-me: é provável? É. Mas vai acontecer? Não sei. Se vou avisar os portugueses antes? Aviso o mundo, eu sou worldwide! Mas aviso, sim!”. Mais tarde, assumiria numa resposta a um jornalista estrangeiro que pensou no adeus após o Mundial, mas que, numa conversa com Pedro Proença e Jorge Jesus, percebeu que ambos ainda contavam com ele.
Ronaldo aproveita então para enviar uns recados. “Eu sei que muitos de vocês estão doidinhos para eu não vir mais, percebo isso pela forma como fazem as perguntas. Não são todos, é uma meia dúzia”, apontou, como que acossado. Dos portugueses diz sentir ainda o carinho, destaca que o último Mundial terá sido a competição em que sentiu mais esse amor, mas não deixa de enviar dardos aos “canais” que, diz, lhe querem mal, que o atacam: “Tentam matar-me, mas não têm hipóteses. Só mesmo com uma caçadeira. Mesmo assim, ainda me consigo desviar da bala. Estou habituado, ando há vinte e tal anos nisto.”
Capitão falou na Portugal Football Summit
ANTÓNIO PEDRO SANTOS
Cristiano diz que ainda vem à seleção porque sente que ainda faz a diferença no seu clube e que ainda pode trazer coisas à seleção. “Volto a repetir: já tive esta conversa com o mister e o que ele precisar de mim, para jogar, para sair, para entrar ou mesmo não jogar… ninguém tem mais internacionalizações do que eu e isso diz muito do prazer e do gosto que eu tenho em vir à seleção”, frisa. Não tem “outros interesses”, só “ajudar” dentro de campo. “Com as minhas exibições, não com o meu currículo”. E também fora dele, “por ser capitão”, ter “muitos anos de casa” e “conhecer as dinâmicas” da seleção.
A minutagem é outras das questões que nunca falha quando Cristiano se coloca à frente de microfones. Consegue jogar os 90 minutos? Está disposto a jogar menos? Tais questões valeram até um bate-boca com uma jornalista. “Viste os jogos do Al Nassr? O que é que achas, estou bem, mais ou menos? Mas porque não jogar os 90 minutos? Se viste os jogos do Al-Nassr…”. Podemos aferir, portanto, que Ronaldo se sente pronto para jogar do início ao fim, mas o avançado dá uma garantia, uma das únicas da sessão de perguntas e respostas: “Tenho a certeza que não vou jogar os 90 minutos dos quatro jogos.”
Golo mil pela seleção? Inshallah
Aos 41 anos e com dois jovens como Gonçalo Ramos e Fábio Silva como companheiros de posição, poderá Ronaldo tornar-se numa espécie de mestre para os dois avançados?
“Mestre? Mestre da culinária!”, brinca o vencedor de cinco Bolas d’Ouro, feito que Jorge Jesus alavancou no dia da convocatória para os encontros com País de Gales, Noruega (x2) e Dinamarca. Cristiano vira de novo a pergunta para si próprio: “Se o mister não contar comigo eu posso sair já hoje, sem problema nenhum. Quando eu sentir que não estou aqui a fazer nada, que não faço golos, que faço mau ambiente agarro na minha mala e vou-me embora”.
De resto, não negou que jogar em Alvalade, onde tudo começou e onde Portugal recebe Gales, “é especial” e que chegar aos 1000 golos é um objetivo (“Quero chegar e vou chegar”), mas sublinha que isso não é uma obsessão. “Quando se torna uma obsessão não sai como nós queremos. Mas se quero muito? Sim.”
E esse golo histórico e especial que Cristiano Ronaldo busca como conquistador à procura de novas terras, prefere marcá-lo na Arábia Saudita ou pela seleção? “Sabes a resposta”, diz, abrindo os braços em sinal de “pois, claro” quando se fala de Portugal: “Como disse o mister há uns dias, era a cereja no topo do bolo marcar o golo 1000 pela seleção. Era mais uma história bonita. Oxalá, inshallah!”