O capitão com telhados de vidro: dos últimos cinco selecionadores, Cristiano Ronaldo só não teve problemas com Roberto Martínez
Em 2021, Cristiano Ronaldo atirou a braçadeira contra o chão após um golo não ter sido validado
Srdjan Stevanovic
Começou no “falem com Carlos Queiroz”, atravessou o desgaste com Paulo Bento, passou pelo “estás com pressa para me tirar” dirigido a Fernando Santos e culminou no diferendo com Jorge Jesus. Mesmo com as responsabilidades inerentes ao estatuto de capitão, a trajetória de Cristiano Ronaldo na seleção nacional não está imune a polémicas
Por vezes, a falta de consenso em torno das decisões difíceis causa vontade de as encobrir. Scolari, pelo contrário, quis que todos soubessem que Cristiano Ronaldo tinha sido pela primeira vez capitão. Era preciso que o momento acontecesse “perante a imprensa de todo o mundo”, assumiu o treinador. As características do encontro eram propícias a levar o momento até às páginas dos jornais dos lugares mais recônditos. Tratava-se de um empolgante Portugal-Brasil realizado em Inglaterra, país onde o jogador do Manchester United expunha as qualidades.
Os candidatos a liderar a seleção após a saída de Figo não se esgotavam no jovem de 22 anos. Cristiano Ronaldo era o segundo mais novo da ficha de jogo, apenas superado por João Moutinho (20). Os golos que valeram uma vitória por 2-0 contra a canarinha foram anotados por Ricardo Carvalho (29) e Simão Sabrosa (27). A decisão foi temporária. Jorge Andrade (29) assumiu o papel até se lesionar gravemente, sendo rendido por Nuno Gomes (30) incumbido de usar a braçadeira no Euro 2008.
Scolari decidiu dar a Cristiano Ronaldo um “prémio” que reconhecesse a sua “grande dedicação à seleção” e que fosse “uma homenagem a ele próprio e à memória de seu pai”. Uma posição que não gerou consenso entre os jogadores viria mais tarde a revelar-se inevitável assim que o atacante consolidou a notoriedade e se foi tornando recordista de internacionalizações (234). Apesar da unanimidade, o histórico de casos alongou-se.
A primeira grande competição de Cristiano Ronaldo como capitão foi o Mundial 2010. Logo após a eliminação de Portugal nos oitavos de final, contra a Espanha, o jogador atirou-se ao selecionador. “Falem com Carlos Queiroz”, soltou quando se preparava para deixar o estádio e lhe pediram explicações sobre o desaire, um passar de culpas que não passou despercebido.
Carlos Queiroz dá indicações a Cristiano Ronaldo
Streeter Lecka
O técnico não se deixou subjugar. “Demorei quatro ou cinco anos de trabalho intenso, dia e noite, para contribuir para que o Cristiano tenha sido o melhor jogador do mundo. Se precisar de levar toda a minha vida para ensinar às pessoas que as frustrações têm de ser contidas, vou fazê-lo. É a minha obrigação”, reagiu o selecionador. “Se o tamanho da camisola for pequeno demais para algum corpo, não precisa de estar aqui.”
Após estas declarações, Carlos Queiroz deixou de trabalhar na Federação Portuguesa de Futebol. O sucessor, Paulo Bento, também não teve rédea em Ronaldo. O Mundial 2014 terá sido o momento em que a relação se rompeu entre os antigos colegas de equipa no Sporting. As constantes perguntas dos jornalistas sobre a condição do jogador geraram um evidente mal-estar no porta-voz. CR7 acabou por jogar fisicamente limitado e teve um rendimento abaixo do esperado, tal como toda a seleção que foi goleada pela Alemanha (4-0) na estreia e não se conseguiu erguer a tempo de ultrapassar a fase de grupos.
Paulo Bento, que na altura ilibou o jogador, assumiu numa entrevista recente à “RTP“ que o laço se foi desfazendo ao longo do tempo de trabalho conjunto. “Acho que devem existir hierarquias e elas devem ser respeitadas”, argumentou. “Os jogadores têm que saber quem é que tem o poder no balneário. A partir do momento em que os jogadores não sabem quem tem o poder no balneário, as coisas estão acabadas.”
A responsabilidade de um capitão é representada pelo acessório que usa no braço. Cristiano Ronaldo vilipendiou os deveres no sentido literal. A braçadeira pagou pela frustração do avançado que viu descontado um golo nos minutos finais do jogo de apuramento para o Mundial 2022, contra a Sérvia. O jogador, crente de que o seu remate tinha ultrapassado a linha de baliza, protestou com veemência com a equipa de arbitragem e deixou o relvado frustrado com o empate (2-2) obtido em Belgrado. As opiniões dividiram-se entre uma demonstração da incessante vontade de ganhar e o desrespeito por uma espécie de símbolo nacional.
A defesa prioritária dos interesses pessoais evidenciou-se no Mundial 2022. Fernando Santos ousou dar início a um processo de secundarização de Cristiano Ronaldo, substituindo-o no derradeiro jogo da fase de grupos, frente à Coreia do Sul. “Estás com pressa para me tirar”, reagiu ao ser rendido. “Não gostei mesmo nada”, ripostou o engenheiro do Euro 2016 que nos encontros seguintes, contra Suíça e Marrocos, tomou uma decisão ainda mais drástica ao deixá-lo no banco.
Fernando Santos conversa com Cristiano Ronaldo durante um dos jogos do Mundial 2022 em que o capitão foi suplente
Richard Sellers/Allstar
Fernando Santos abandonou o cargo após o torneio sem guardar ressentimentos, tal como confessou em entrevista ao jornal “A Bola”. “Eu continuo igualzinho com ele. Da minha parte, a relação é a mesma e ele continua a ser como um filho ou um irmão mais novo para mim. No dia que o telefone tocar ele sabe sempre que eu estou cá. Isso é garantido.”
A fama de Cristiano Ronaldo enquanto jogador domável sofreu danos nas últimas décadas. Curiosamente, o jogador tem elogiado o trabalho de Roberto Martínez, que o tratou como intocável. “Adorei trabalhar com ele. É um grande ser humano e um grande treinador. Aquilo que ele fez por Portugal foi muito grande, é de louvar.”
Os colegas manifestaram-se noutro sentido. Rúben Dias considerou que a troca de selecionador “foi o primeiro grande passo” para a seleção ganhar títulos e que “é tudo mais fácil quando as coisas fazem sentido”. Gonçalo Ramos admitiu à “Sport TV“ que regressou do Mundial 2026 “com um sabor agridoce” devido à forma como foi gerido. Já João Félix está no paraíso ao ser utilização por Jorge Jesus na zona do campo que mais o favorece.
A ausência do funeral de Diogo Jota, a acusação de agressão sexual a Kathryn Mayorga, o microfone da CMTV atirado ao lago, a proteção dada pela FIFA para que pudesse jogar na estreia no Mundial 2026 depois de ter sido expulso contra a Irlanda, a greve no Al-Nassr, a visita diplomática à Casa Branca, as impactantes críticas ao Manchester United. A carreira desportiva é intocável, mas o rasto de casos levanta questões.