As notas de Ronaldo para Jesus: o que disse o selecionador na conferência de imprensa em Copenhaga e o que faltou dizer
O selecionador nacional a responder aos jornalistas na sala de imprensa, em Copenhaga
NurPhoto
Antes de deixar o estágio da seleção nacional, Cristiano Ronaldo aprovou um documento onde constava aquilo que Jorge Jesus devia dizer na antevisão do jogo contra a Dinamarca para apaziguar a quezília com o capitão. Pouco conhecido por seguir guiões, o selecionador não tocou em certos temas, raspou noutros e abordou alguns, insuficiente para evitar que o capitão chamasse o seu jato privado para abandonar o estágio
Pela primeira vez em 18 anos, Cristiano Ronaldo tinha acabado de ser suplente não utilizado num jogo oficial da seleção. Paradoxalmente, as águas paradas do jogador com mais internacionalizações de sempre (234) por Portugal agitaram o mundo. Era apenas o início de uma novela que, na realidade, ainda não se sabe como vai terminar.
Sem minutos frente à Noruega depois de ter realizado exercícios de aquecimento durante toda a segunda parte, Cristiano Ronaldo reuniu-se com Jorge Jesus para esclarecer o caso que a imprensa começou a sussurrar aos ouvidos do país. Nesse encontro, terão combinado encerrar o assunto. Para isso, foi entregue ao treinador um documento com oito pontos aos quais se devia referir durante a conferência de imprensa de antevisãoao jogo contra a Dinamarca, em Copenhaga.
A Tribuna Expresso comparou as notas redigidas com auxílio de Simão Coutinho e Tiago Craveiro, pessoas do entorno de CR7, e validadas pelo avançado, com aquilo que Jorge Jesus efetivamente disse. Após o selecionador falar com os jornalistas, Cristiano Ronaldo decidiu abandonar o estágio por considerar que a postura do técnico “não teve nada a ver com a reunião”, sendo pautada pela “agressividade” e por “uma atitude de quero, posso e mando”.
Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da seleção desagradado com as declarações de Jorge Jesus
Octavio Passos
⚖️“1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na seleção nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa.”
Jorge Jesus assumiu prontamente ter combinado com Cristiano Ronaldo que o capitão não jogaria em Oslo e Copenhaga. No entanto, nunca revelou existir um plano mais alargado para a gestão do avançado, algo extensível a “esta época desportiva” como o jogador incluiu nas notas.
O selecionador não escondeu terem existido conversas com os jogadores antes do anúncio da sua primeira convocatória, mas o contexto dos diálogos não foi divulgado ou qualificado. Apenas através do comunicado de Cristiano Ronaldo se soube que JJ tinha trocado ideias com o ponta de lança na Cidade do Futebol durante o estágio do Al-Nassr e, mais tarde, em casa de CR7, na véspera do início da concentração da equipa.
❌“2. Sei o quanto ele vive e Ama a seleção e o peso que tem no mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na seleção há 24 anos consecutivos.”
Dar ao verbo Amar o estatuto de nome próprio usando caixa alta é, como se sabe, o exemplo mais flagrante de conexão romântica. Talvez demonstrações públicas de afeto não façam parte do tipo afeto que Jorge Jesus gosta de demonstrar, pois não transmitiu à audiência que a seleção significava tudo isso para Cristiano Ronaldo. Um taticista tem a sensibilidade de um matemático que não deixa a lógica ser perturbada por perturbações emocionais.
Ainda assim, anteriormente decreveu-o como um “símbolo”, dando exemplos da magnitude do capitão fora do contexto de seleção. “Jogámos em Hong Kong num estádio para 55 mil pessoas [com o Al-Nassr]. No jogo em que ele não jogou, estavam 3000 pessoas, no jogo em que jogou estavam 55 mil.“ As pretéritas demonstrações de apreço pela dimensão não terão sido suficientes para o comandado.
⚖️“3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite.”
Alguns segmentos do comunicado de Cristiano Ronaldo foram redigidos com a clareza da noite.
Caso Cristiano Ronaldo pretendesse ouvir de Jorge Jesus que o capitão se tinha colocado ao dispor das opções do treinador, sim, aconteceu. O técnico remeteu os jornalista para as próprias declarações do jogador na conferência de imprensa de antevisão ao encontro contra o País de Gales.
Nessa circunstância, o maior goleador da seleção disse: “Já tive esta conversa com o mister e o que ele precisar de mim, para jogar, para sair, para entrar ou mesmo não jogar… ninguém tem mais internacionalizações do que eu e isso diz muito do prazer e do gosto que eu tenho em vir à seleção.” Jorge Jesus sublinhou as declarações ao dizer que Cristiano Ronaldo “nunca se negou a nada”.
Porém, se Cristiano Ronaldo pretendia que o treinador se referisse ao tal plano para “esta época desportiva”, com mais além da janela internacional de novembro/outubro, isso não aconteceu. Considerando o ênfase que tem dado ao rendimento — “se estiver a jogar”, “se estiver a marcar” — para justificar a inclusão de jogadores na convocatória, seria contraditório Jesus delinear um plano a tão longo prazo para o mais velho da lista.
⚖️“4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.”
Jorge Jesus deixou claro que Ronaldo não colocou em causa as decisões. O sucessor de Roberto Martínez assegurou que Cristiano “nunca se negou a nada”, mas não chegou a utilizar os termos “leal e profissional”. O parafraseamento da nota, pelos vistos, não deixou o capitão satisfeito.
O técnico pôs tão pouco em causa o compromisso do jogador que minutos após a conferência de imprensa estava a engolir as próprias declarações. Com os microfones a escutarem-no, colocou as mão no fogo: “Se hoje forem ver, ele vai treinar. Não se recusou a treinar. Isso é impossível. Vocês acham que algum jogador de nível de seleção nacional se recusa a treinar? Só quem quiser ir embora ou estiver com outras ideias.” Minutos depois, a seleção exercitou-se em Copenhaga sem Cristiano Ronaldo, já a caminho do seu jato.
Jorge Jesus aproximou-se da bancada para agradecer aos adeptos presentes na Dinamarca
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✅ “5. Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.”
Neste aspeto, Jorge Jesus foi inequívoco e cumpriu à risca aquilo a que estava mandatado. “É verdade que combinei com ele”, garantiu. “Trabalhei um ano com o Cris. Conheço completamente as condições físicas dele. Quando havia jogos de três em três dias, o Cris raramente jogava. Além disso, o Cris nunca treina no primeiro e no segundo dia após o jogo.”
Porém, ao contrário do que estava planeado, o camisola 7 acabou por constar da ficha de jogo contra a Noruega, onde foi suplente não utilizado. “Sou treinador e disse ao jogador que o ia levar para o banco. Se precisasse dele 30 minutos, jogava. Se não precisasse, não jogava. Não é o Cristiano que vai mudar as minhas ideias”, assegurou sem ignorar o peso que o “estatuto” do nome em causa exigiu especial ponderação, mas não um diluir das hierarquias. “Quem trabalhou comigo sabe que quem decide sou eu. Na equipa mando eu.”
✅ “6. Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.”
De facto, Jorge Jesus colocou Cristiano Ronaldo ao nível de dois campeões do mundo. Do mesmo modo, também o ‘rebaixou’, se tivermos em conta esta escala, ao nível de Sadio Mané, senegalês com quem joga no Al-Nassr. As três figuras foram usadas como exemplos de como tratar jogadores com “estatuto”.
Cristiano Ronaldo aprovou que os seus ghostwriters escrevessem uma nota referindo-se a ele na terceira pessoa para que, guiando-se pelo apontamento, o selecionador o equiparasse a dois dos melhores futebolistas de todos os tempos. Assim sendo, Jorge Jesus colocou o elogio encomendado no discurso, mas à sua maneira: “Eu também fui jogador. Não há nenhum jogador que fique contente de aquecer 20, 30 minutos e depois não entrar. Nenhum. Quanto mais o Cri… Tem estatuto. Quanto mais o Pelé, o Maradona… É isso o estatuto, mas depois os direitos são iguais.”
Jorge Jesus tem-se mostrado pouco contrito. Uma das raras ocasiões em que mostrou arrependimento foi sobre este tema. “Mandei-o aquecer aos 45 minutos. Aqui é que fiz mal. Devia tê-lo mandado aquecer 15 ou 20 minutos mais tarde.”
❌ “7. Para encerrar o assunto: eu quero o Cristiano na seleção nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al-Nassr e aqui também.”
Esta mensagem chegou, só que mais tarde, os timings não estiveram em sintonia. Após a fatídica conferência de imprensa que levou Cristiano Ronaldo a abandonar o estágio, Jorge Jesus colocou um tampão no tema e conseguiu não se desbocar em demasia, adiando para o fim da janela internacional mais esclarecimentos.
JJ demonstrou o desejo de contar com Ronaldo apenas após a vitória contra a Noruega, no Estádio do Dragão. “Para mim, está tudo em aberto. O Cris é que tem que decidir a vida dele. Na próxima convocatória, se o Cris estiver a jogar e quiser estar na seleção, por que não [convocá-lo]?” Terá sido tarde demais?
❌“8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de Amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”
Diga-se que Jorge Jesus tentou falar sobre este tópico em diversas ocasiões, sendo desviado pelos jornalistas para outras ramificações do tema.
Terminou a conferência de imprensa sem ilibar o capitão por não ter dado a cara junto da bancada na sequência da vitória na Noruega. Por certo, terá assumido como sua a clara resposta que Rúben Dias deu a esse propósito. “Trata-se de um momento de frustração de 10, 15, 20 segundos. Em nada belisca o compromisso que tem tido durante mais de 20 anos com a seleção. Passados cinco minutos, estamos todos a celebrar juntos no balneário uma grande vitória”, disse o central.