Sporting

O bizarro debate das eleições do Sporting teve José Sócrates, a Zara, bilhar e a tia-avó de Varandas. E ruído, muito ruído

Frederico Varandas e Bruno Sá são os dois candidatos à presidência do Sporting. O clube vai a votos sábado, dia 14
Frederico Varandas e Bruno Sá são os dois candidatos à presidência do Sporting. O clube vai a votos sábado, dia 14
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Frederico Varandas, altamente favorito para um terceiro mandato na presidência, e Bruno Sá juntaram-se no museu dos leões para duas horas e meia de troca de acusações - populista, autista ou ignorante foram exemplos — e escasso confronto de ideias. Bruno Sá sacou dos galões de formado em jornalismo para fazer muitas perguntas ao seu adversário, que falou mais 33 minutos do que o homem que o desafia, numa noite de atrito e confusão, mas pouco mais do que isso

O bizarro debate das eleições do Sporting teve José Sócrates, a Zara, bilhar e a tia-avó de Varandas. E ruído, muito ruído

Pedro Barata

Jornalista

O debate — chamemos-lhe debate para poupar tempo a arranjar um termo melhor, sabendo que não foi bem um debate — entre os dois candidatos à presidência do Sporting roçava a hora de duração quando atingiu um momento que, mesmo para os padrões da noite, foi insólito. Durante largos instantes, Frederico Varandas, recandidato à liderança leonina, e Bruno Sorreluz, mais conhecido por Bruno Sá, trocavam galhardetes na importante medição do sportinguismo de cada um.

Entre interrupções mútuas, a certa altura o atual presidente socorreu-se da tia-avó, que trabalhou na ginástica do clube, que em tempos teve, justamente, Bruno Sá como um dos seus praticantes. A discussão, estéril, levou a parte alguma, simbolizando um serão de intercâmbio solto de frases, como um autocarro que vai perdendo peças e, em vez de se dirigir ao destino, vai chocando contra obstáculos, gerando somente atrito.

A 14 de março, no Pavilhão João Rocha, os sócios verde e brancos escolherão o novo máximo responsável do emblema. Seria uma surpresa de dimensões bíblicas se esse homem não fosse Frederico Varandas, o 43º presidente do Sporting, que já ganhou eleições em 2018 e 2022. Verdade seja dita que, no museu de Alvalade, poucas luzes foram trazidas por quem pretende contrariar esse favoritismo.

A contagem de tempos do debate mostrava um monumental desequilíbrio. Varandas falou 93:02 minutos, Sá interveio durante 59:59 minutos. Mais de uma hora e meia para um, menos de uma hora para o outro. Poder-se-ia falar de favoritismo face ao incumbente, parcialidade do moderador, mas isso seria distorcer a realidade.

O debate decorreu no museu do clube, no Estádio de Alvalade
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Bruno Sá cedo lembrou ser formato em jornalismo, ele que é conhecido por ser o proprietário do popular Cantinho do Sá, mesmo em frente ao estádio. Ora, o empresário dedicou-se a perguntar muito e a responder pouco, praticamente não tendo qualquer momento de exposição longa, preferindo ou interrogar Varandas, ou intervir com frases soltas e desconexas.

Quando, já passada a hora de programa, Varandas, o presidente mais titulado na história do futebol masculino do Sporting, puxou dos galões do êxito desportivo, ouviu-se ao fundo um solitário boa. Segundos volvidos, foi atirado um parece que ganhou ontem. A dinâmica foi sendo mais ou menos assim.

O antigo médico leonino, que começou com pouca energia - efeitos de chegar de madrugada de uma longa e frustrante viagem ao Círculo Polar Ártico - foi-se irritando com o rumo dos acontecimentos e o estilo de Bruno Sá. Rapidamente aplicou a sua face irritada, gesticulando, de riso irónico, entre o nervoso e o condescendente, alongando-se em explicação pontuadas com o bater do punho na mesa ou olhares cansados para o infinito. Do outro lado havia mãos apoiadas no queixo, gravata que ia ficando mais larga, com o botão superior da camisa à mostra, e o desejo de atirar o peso da oratória para o lado de lá.

Você não quer saber dos sócios

O grande mote da candidatura de Bruno Sá é, no entender de quem deseja suceder a Frederico Varandas, o afastamento dos associados leoninos. Caminhamos para um Sporting de clientes, não de adeptos, foi uma frase que Bruno Sá foi repetindo, alegando que os sócios estão sob ataque, sem direitos e desligados desta direção.

Você não quer saber dos sócios. Candidato-me pela democracia, atirou o outsider.

Ainda na madrugada do debate, que acabou já praticamente de madrugada, Varandas, quando se encontrava mais tranquilo, explicou que a recandidatura é para continuar o que já começou, mas sem nunca esquecer o ponto de partida: Um clube que não era campeão de futebol há 17 anos, que se encontrava numa situação financeira extremamente frágil e numa situação social de conflito nunca antes vistas, descreveu o presidente.

Se for eleito e chegar a 2030, data de novas eleições, a dúzia de anos de Varandas no poder torná-lo-á o homem mais tempo no cargo desde João Rocha, presidente entre 1973 e 1986. Para pedir o reforço da confiança dos sócios, recordou uma ideia que tem repetido nos últimos tempos, argumentando que o Sporting lidera o desporto em Portugal, fazendo-o com sustentabilidade e equilíbrio financeiro.

Bruno Sá desafia Frederico Varandas nas eleições do Sporting
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

No que toca a dinheiro, Bruno Sá acusou o seu opositor de aplicar estratégias demasiado arriscadas e pouco transparentes. Houve, até, uma comparação, insinuada, a José Sócrates. Faz-me lembrar uma pessoa que esteve no Governo, que empurrava sempre com a barriga para a frente e depois tivemos de chamar a troika", disse Sá. Varandas acusou-o de ignorância nas matérias financeiras e de gestão.

Uma das jogadas que o desafiante tinha na estratégia foi bastante cedo utilizada. Bruno Sá mostrou uma carta, que ter-lhe-á sido enviada esta manhã, contendo indícios de haver um sistema de controlo sobre as preferências eleitorais de cada atleta do Sporting, fazendo-o com um código, colocado no boletim de voto, que identifica em quem é que cada atleta vota. Varandas disse desconhecer os contornos do processo de operacionalização das eleições.

Aos 45 minutos deste encontro sem intervalo, com o atual presidente com mais de uma dezena de minutos de avanço, falava-se sobre a possível entrada de investimento externo no Sporting, uma questão levantada por Bruno Sá. Varandas respondia-lhe mas, perante as frases soltas lançadas pelo seu opositor, proferiu um longo e prolongado bufar, sinal de que perdera a paciência. Seguiram-se acusações mútuas de populismo. Minutos depois viriam as de autismo.

Amorim, Borges e a Zara

Frederico Varandas foi falando com orgulho da sua obra. Gabou-se das obras feitas no estádio, mas Sá contra-argumentou com a questão do bilhar. O presidente concedeu que a modalidade teve de sair da infraestrutura porque era preciso espaço, o que levou a um feroz ataque do opositor, acusando Varandas de expulsar toda a gente e de ser vergonhoso aquele procedimento.

Assuma perante as câmaras. Bilhar, sai, desafiou Bruno Sá. Ou era o bilhar ou era fechar o fosso, defendeu-se Varandas.

Outro foco de tensão foi Ruben Amorim. O empresário usou o antigo treinador para tentar provar a ausência de rumo atual do projeto verde e branco, porque Amorim tinha a chave do clube e era o grande mentor do Sporting, mas sem ele houve a derrapagem João Pereira e um mercado desastroso. O incumbente lembrou que Ruben não foi herdado por esta direção, mas sim escolhido, e que era parte do sucesso, não o princípio e fim da estrutura.

Varandas lidera o Sporting desde 2018
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Quanto a Rui Borges, Bruno Sá operou um curioso exercício intelectual. Resumindo: não teria contratado o técnico em dezembro de 2024. Ainda assim, se fosse agora Frederico Varandas, já teria renovado com o treinador. E se for eleito, Rui Borges é o treinador de Bruno Sá? Sem resposta.

O tema do homem de Mirandela serviu para saber que a decisão quanto à renovação já está tomada por Varandas, que não a anuncia porque não a vai usar em campanha. O campeão nacional termina o seu vínculo em 2027.

O debate já ia longo quando Sá insistiu em fazer perguntas sobre alegados amigáveis feitos pela equipa de sub-15 no Seixal, contra o Benfica. O empresário acusou ainda o atual presidente de fazer fretes a ver jogos das modalidades, estando sempre a olhar para o relógio. Varandas, já sem muita paciência, socorreu-se dos 140 títulos dos seus dois mandatos, incluindo três Champions League no pavilhão.

O dia 12 de março estava quase a ser substituído por 13 de março e, perante o desequilíbrio nos tempos, o moderador desafiou Bruno Sá a expor a sua estratégia no plano digital e do marketing. Novamente recordando a sua veia de jornalista, o candidato começou a colocar perguntas ao outro lado. Perante a insistência do moderador para que falasse das suas ideias, Bruno Sá apontou o site como essencial e discordou da estratégia, que vem sendo aplicada, de lançar várias camisolas por temporada. Isto não é a Zara!, exclamou.

Com uma enorme diferença no cronómetro, o apelo final chegou. Varandas foi fiel à sua estratégia de contraste, indicando que o Sporting estava habituado a perder e agora está habituado a ganhar. Sá entende ser muito importante não dar carta branca a esta direção, porque se quer transformar o Sporting num hub de entretenimento.

Quando o debate, que não foi bem um debate, terminou, a abertura das urnas estava a pouco mais de 30 horas de distância. Não terá vindo muito esclarecimento após duas horas e meia bizarras e confusas, entre um homem que assumiu ter vindo do Círculo Polar Ártico de direta e outro que não pareceu ter muita vontade de explicar as propostas que podem levar alguém a votar em si.

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