“Estou feliz”, “estou num grande clube”, “tenho contrato”. Avesso a conectores, Rui Borges foi utilizando muletas para abordar a renovação com o Sporting. Agora, sim. Finalmente, os papéis foram assinados e pode expressar-se sem calcular cada linha do discurso.
O Sporting engalanou a entrada da porta 10A para fazer o anúncio. Não se tratou propriamente de uma festa. Uma neblina de mau humor assistiu escondida à cerimónia. Os leões não ganham há cinco jogos e os empates frente aos últimos dois classificados da I Liga, AVS e Tondela, são nódoas marcantes ainda por limpar. Se houvesse mais rigor na escolha do timing, este certamente não teria sido o escolhido.
No entanto, o asterisco é demasiado grande para ser estampado na camisola que Frederico Varandas entregou ao treinador de Mirandela. Nas costas da lembrança, houve espaço apenas para o número 2028, o ano até ao qual Rui Borges ficará ligado ao Sporting, mais um do que estava anteriormente combinado.
O presidente verde e branco, escudou o técnico. Para Varandas, “o processo” foi “o critério mais decisivo” para a decisão que considera ter sido um “ato para o futuro do clube” pouco relacionado com “os resultados dos últimos 15 dias”. “Há quem valorize muito o trabalho dos primeiros 15 meses e meio. Há quem valorize muito a conquista do bicampeonato. Há quem valorize muito a conquista da dobradinha. Há quem valorize a melhor campanha europeia de sempre na Liga dos Campões. Há quem valorize o recorde de vitórias consecutivas em Alvalade. Há quem valorize termos atingido a final da Taça da Liga e da Supertaça.”
Sustentando o porquê de não “tomar decisões por marés”, o dirigente lembrou o sucesso que Ruben Amorim teve após uma renovação que foi iniciada “quando nem sequer em 5º lugar” o Sporting estava. “Jamais decidirei como adepto”, garantiu.
Rui Borges manteve sempre o mesmo tom de voz, sintoma de pouco ânimo. Teve de esperar que o seu superior arrazoasse para, depois sim, mostrar o desejo de “marcar a história do Sporting”. Convencido que a sua equipa “era a melhor a jogar futebol” no início da época, sente-se um “felizardo” por continuar no cargo que ocupa desde dezembro de 2024 na sequência de uma réplica do sismo provocado pela saída de Ruben Amorim.
“Esta renovação define muito bem o que é esta equipa técnica: trabalho. Isto significa que o trabalho é reconhecido. É o continuar do compromisso, rigor e ambição”, afirmou o transmontano.
A defesa de uma época
Antes de Rui Borges, em dez minutos, fazer a não muito entusiástica manifestação de agrado, Frederico Varandas demorou meia hora a passar o pano na época. No último mês da temporada, o Sporting está condenado a lutar apenas pela Taça de Portugal, numa final onde vai encontrar o Torreense. Pelo caminho, deixou o campeonato, a Liga dos Campeões, a Taça da Liga e a Supertaça.
Em retrospetiva, Varandas não vê na equipa do Sporting capacidade para lidar com tantas frentes. “Temos plantel em quantidade, qualidade e profundidade para ganhar a I Liga, ganhar a Taça de Portugal, ir às meias-finais da Liga dos Campeões? Na minha opinião, não”, assumiu acusando o “sucesso” pelo “insucesso desta época”.
O afastamento da luta pelo campeonato e da Liga dos Campeões decidiu-se num ciclo de jogos com uma “exigência única” e que resultou numa derrota com o Benfica e com a eliminação frente ao Arsenal. Talvez, acha Varandas, a equipa verde e branca até tenha feito mais do que lhe era exigido. “Ao ver o sorteio da Liga dos Campeões, achei que o Sporting ia ter dificuldade em passar do play-off. Acontece que chegámos aos oitavos de final. Se o Sporting não tivesse ultrapassado o Bodø/Glimt, teríamos o tricampeonato na mão. Essa vitória veio complicar muito a conquista do campeonato e da Taça de Portugal.”
Rui Borges não introduziu um teto na ambição, ao contrário do que Frederico Varandas teria feito se fosse treinador. Assim, a “exposição competitiva” levou à perda de contacto com o FC Porto no campeonato. “Mérito para o nosso rival que percebeu as suas limitações e jogou só para um troféu.”
Outro tema que empolgou o presidente foi a onda de lesões. “Sabem qual é o número de lesões média de um jogador que joga competições europeias? Duas por ano. Uma equipa vai ter 40 a 50 lesões por ano.” Com o rigor científico de um médico, lembrou que o clube que lidera “está abaixo da média”. “O Sporting tem um número muito reduzido de lesões musculares que são as únicas que se podem controlar do ponto de vista do treino. A maioria das lesões são traumáticas.”
Descartando qualquer reforma estrutural, destacou o assédio feito aos membros do staff. “O nosso diretor clínico foi convidado esta semana para assumir a direção clínica de um clube do top 5 da Premier League. O nosso fisioterapeuta também foi convidado este ano para um clube do top 5 da Premier League. O nosso coordenador da unidade de performance também foi convidado por um clube do top 5 da Premier League. São três clubes e não é o Manchester City. É incompetência a mais”, ironizou.