Surf

As ondas gigantes da Nazaré acordaram e Nicolau Von Rupp apanhou a bomba do dia

Uma onda gigante a quebrar cedo na manhã de sábado, 13 de dezembro, dia do segundo Tudor Nazaré Big Wave Challenge de 2025
Uma onda gigante a quebrar cedo na manhã de sábado, 13 de dezembro, dia do segundo Tudor Nazaré Big Wave Challenge de 2025
Damien Poullenot

O evento, supostamente, era anual, mas não conseguiu resistir à tremenda ondulação que este sábado invadiu o canhão subaquático mais conhecido do mundo. Pela segunda vez em 2025 realizou-se o Tudor Nazaré Big Wave Challenge, mas a prova foi encurtada por motivos técnicos. Nicolau Von Rupp voltou a ganhar, 10 meses depois, a disputa por equipas e a organização falou que uma multidão de 40 ou 50 mil encheu o promontório do forte de São Miguel Arcanjo para assistir à competição

A jugular do mar mostrou-se à primeira onda do dia. A coragem de Lucas ‘Chumbo’ Chianca foi puxada pelo jet ski, a mandíbula arreganhou-se nas suas costas, ele apontou a trajetória à água branca de uma onda anterior e um degrau matreiro fez a sua prancha saltar. O brasileiro caiu, o coração de quem assistir torceu-se quando o ciclopes aquático que lhe dava boleia fechou a bocarra. Na transmissão da World Surf League (WSL) ouviram-se sucessivos “oh my God”, incluído da voz da experiência de João Macedo, tipo com muitas sessões no canhão da Nazaré. Era uma montanha a engolir um homem à vista de todos. 

Neste sábado de pazes feitas com a chuva, o sol raiou manhã cedo. Destacou o branco do esqueleto e o vermelho do cume do farol do forte de São Miguel Arcanjo, onde pequenas pintas de gente peregrinaram para assistir ao Tudor Nazaré Big Wave Challenge. No mar, lá longe em pontos ainda mais diminutos, seis surfistas divididos por três duplas começaram por se distribuir, à vez, entre quem se fazia aos monstros para lá da dezena de metros de altura e quem os rebocava a conduzir o jet ski.

Quando Lucas se livrou da centrifugação salgada após cair na tal onda ao ser resgatado por um dos pilotos das motorizadas, deu um abraço sentido. Depois apressou-se a retomar a companhia de Pedro ‘Scooby’, o companheiro de equipa. À volta deles havia espuma bravia, mais ondas enormes prestes a quebrarem em cima deles. Um cenário quase funesto, por arrasto tão magnético.

É o que atrai uma romaria à Nazaré desde que Garrett McNamara trouxe câmaras, chamou a atenção e estimulou o mediatismo da anomalia da natureza entretanto afamada por fixar, já várias vezes, recordes da maior onda surfada no planeta. Antes da ousadia do surfista norte-americano em 2010 houve o atrevimento dos bodyboarders locais que lhe falaram das ondas com altura de prédios a baterem contra este pedaço do oeste de Portugal.

Quinze anos depois, ir à Nazaré presenciar a coragem desmiolada dos surfistas, sentir a incredulidade, dar graças ao penhasco seguro de onde se assiste à ausência de explicação racional para alguém arriscar a vida dentro daquele mar tornou-se um check a fazer na lista de tarefas.

Porque o que homens e mulheres arriscam no mar é inexplicável. No final de cada heat de 40 minutos, afastados da zona crítica onde rebentam as ondas gigantes, isso consta na alegria na cara dos surfistas, com sorrisos extasiados, ao aproximarem-se do barco onde uma câmara de televisão os esperava, era a prova do alívio por terem sobrevivido incólumes a mais uma provação na Nazaré.

Evento anual, mas repetido neste 2025, tal a tremenda espreguiçadela da ondulação (em fevereiro, supostamente, aconteceu a edição desde ano), a prova não resistiu a convocar 18 surfistas, que vivem em estado permanente de prontidão, para se repartirem por nove parelhas. O Surfline, site especialista em leitura das previsões no qual a World Surf League se baseia, falou no maior e mais limpo swell do ano.

Fechada a primeira sessão do evento, a melhor equipa (45.45 pontos) era a de Nicolau Von Rupp com o francês Clement Roseyro, dupla vencedora da prova de fevereiro. A melhor onda (8.33) pertenceu ao português, uma cujo lábio superior - lip, na gíria surfista - ele viu “à altura das nuvens”. No último lugar estava outro português, António Laureano, em parelha com a inglesa Laura Crane (11.93).

Nicolau Von Rupp a deslizar numa onda gigantesca na Nazaré
Damien Poullenot

Nunca Von Rupp tivera pontuação tão alta na Nazaré, afirmação do próprio. “As condições estão duras, há definitivamente umas grandes bombas”, admitiu quem em Portugal mais afamado é por dedicar a vida ao extremo dos extremos do contrariar o conselho de qualquer mãe: cuidado, não se brinca com o mar. Aos 35 anos, ele é quase um barómetro não oficial para quem se interessa por uma romaria ao farol de São Miguel Arcanjo: sempre que a meteorologia prenuncia que o Atlântico trará uma ondulação das grandes, o surfista aparece nas ruas redes sociais a avisar o que aí vem.

A competição já tinha a segunda sessão na água para a repetição dos mesmos oito heats quando, entre as 14h e as 15h, a ação e a transmissão televisiva, feita via site da WSL, foram sendo interrompidas consecutivamente. Falava-se em problemas técnicos. Pelas 16h, a organização alegou os mesmos para cancelar a prova sem num primeiro momento especificar os motivos. Quem fosse à página oficial da WSL nada via além da informação de a prova estar em suspenso. Só já entregues os prémios aos vencedores explicou que houve falhas de energia na estrutura do evento que causaram as interrupções que, por sua vez, impossibilitaram realizar todas as fases da prova no mesmo dia.

Se terminasse como estava, assumindo a pontuação da única sessão completada, a dupla de Nicolau com Clement Roseyro venceria a prova por equipas pela segunda edição seguida. Reinou a lógica. “Olhem para a quantidade de gente que está aqui, a Nazaré está a viver o seu melhor momento, não só pela multidão, também pelo evento, pela competitividade e pelos surfistas”, elogiou o português ao receber o seu troféu. Ganhar o ano passado e este ano é a cereja no topo”, acrescentou, numa gaffe que não o é: cada etapa na Nazaré tem um período de espera que vai de novembro a março, podendo realizar-se em qualquer momento, conforme a natureza o ditar.

A organização falou que 40 ou 50 mil pessoas terão estado na Nazaré a assistir à prova de ondas gigantes
Laurent Masurel

Calhou o mar animar-se duas vezes em 2025, alegrando quem se peregrina rumo à Nazaré. No pequeno show dado no palco montado no forte, o apresentador atirou para o ar que 40 ou 50 mil pessoas terão estado por ali a assistir à competição. A francesa Justine Dupont lá foi, com o filho ao colo, receber a distinção de melhor prestação feminina. O primeiro dos humanos corajosos a desafiar a Nazaré foi o último a ser distinguindo: por ter o melhor somatório de pontos entre as ondas que surfou, Lucas Chianca venceu a prova individual.

Com roupagem seca e um gorro na cabeça, o surfista brasileiro voltou aos abraços, este com palavras, para quem o resgatou do turbilhão das ondas quando começou o dia a cair. “Foi uma das maiores quedas na minha vida, nunca tinha sido algo assim. Salvou-me a vida hoje”, desabafou, despido de aflições.

Nem em terra, no momento de comemoração, os enormes riscos parecem estar longe de quem vai surfar à Nazaré, quando a Nazaré acorda com este feitio.

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