Ninguém entra no mar antes do que a madrugadora Yolanda Hopkins, que já ganha no circuito mundial de surf
Yolanda Hopkins a surfar uma onda de Margaret River, na costa oeste da Austrália, durante a segunda etapa do Championship Tour
Beatriz Ryder
Yolanda Hopkins venceu o seu primeiro heat no Championship Tour logo pela fresca em Margaret River, no oeste australiano, onde madrugou como gosta - já surpreendeu Gabriel Medina quando este a viu a surfar ainda de noite - e depois alentou quem estivesse a ver pela TV em Portugal para torcer por Francisca Veselko, a outra portuguesa do circuito mundial que estava no mar competir. Resultou: ambas seguiram para a segunda ronda
A noite ainda é breu, predomina o escuro, pouquíssimo se vê salvo o que a lua cheia ou quase ilumina mas Gabriel Medina e a sua trupe, madrugadores na tradição do surf, anteciparam-se ao despertador solar e chegaram a Bells Beach para uma sessão matutina. Antes da manhã, antes deles também, houve quem se antecipasse. “A menina ‘tá saindo da água, o que é isso? Não é possível”, diz o tricampeão mundial, o seu pasmo captado quando se prepara para descer à praia, de fato vestido e prancha amparada num braço, e vê Yolanda Hopkins molhada em sentido contrário.
Casual na reação, a portuguesa solta um educado “oi, bom dia, tudo bem?” enquanto Medina, seco de mar, age impelido pela surpresa. “Nem consegui chegar à escada”, brinca na noite cerrada, recebendo o troco de conversa: “Com a lua dá para ver bué bem.” Em poucos segundos de vídeo publicado numa conta de Instagram que segue o rasto aos surfistas brasileiros, e muitos são eles, no circuito mundial de surf, ficou apresentada Yolanda Hopkins para quem ciente não estava do seu hábito de ser a primeira a pôr o pé na água a cada novo dia.
Do este da Austrália para a costa oposta, calhou bem a portuguesa competir logo na segunda bateria da prova em Margaret River, na madrugada desta quinta-feira e raiar da manhã por lá, enquanto a primeira luz do dia a iluminava tratou de eliminar Brisa Hennessy com uma diligência muito sua: apanhou cinco ondas, no fim de cada uma remou maquinalmente, como que em pressa furibunda, para a moto de água lhe dar boleia de volta ao pico, remar para outra e sempre acabar já na rasa zona com fundo de rocha, onde as vagas se desvaziam em espuma.
Os 12.67 pontos de Yolanda ganharam aos 9.33 da costa-riquenha e já em terra firme, com o laranja do sol espreguiçador a dourar-lhe a face, estreou-se nas entrevistas rápidas que auscultam a vencedora do heat, um feito por si só a confiar na reação da algarvia, de 26 anos. “Foi uma viagem longa, não há ninguém mais entusiasmada do que eu por estar aqui. Ganhar um heat no CT é de loucos”, começou por dizer no seu inglês com sotaque galês, de onde vem a sua mãe, antes de fixar o olhar na câmara e falar em português: “Obrigado a toda a gente que está a ver em casa. Finalmente estamos aqui no tour! A Kika está dentro de água, só espero que ela também se dê bem nestas condições, o mar é forte, lembra-me bastante Portugal, estamos aqui em força e vamos representar o melhor que pudemos.”
Kika Veselko a surfar no seu heat da primeira ronda em Margaret River, na Austrália
Beatriz Ryder
Era Yolanda Hopkins a ser Yolanda, uma competidora a torcer pelo destino de outra, adversárias mas juntas na estreia no Championship Tour. Na água estava Francisca Veselko, já vencedora de um heat em Bells Beach e que sairia do mar também sorridente em Margaret River, ao ultrapassar a norte-americana Bell Kenworthy (10 pontos contra 9.50). Há “algum tempo” que não lidava com “ondas tão poderosas”, nunca Kika visitara esta manifestação de mar australiana, estava “entusiasmada e nervosa” em simultâneo e tentou relaxar ao “levar com um par de ondas na cabeça”.
Faz parte da vida de uma rookie, a sina de Yolanda e Francisca neste 2026 que tem a mais jovem entre elas a confessar a sua felicidade até com as coisas corriqueiras da “West Oz”, como ir ao supermercado e maravilhar na companhia dos cangurus com os quais se cruzou. “É espantoso, super cru, não há poluição nem muitos carros por aqui, é só verde, água e natureza”, compôs, deleitada com a experiência.
A cascalense, de 22 anos, admitiu as suas ânsias vindas da véspera, ao experimentar os socalcos aquáticos de Margaret River que assustam até vistos à distância da televisão. Ela defrontará Caroline Marks na segunda ronda que equivale aos oitavos de final, um desafio de igual tamanho ao das ondas por a norte-americana ser a campeã mundial de 2023 e olímpica em Paris, no ano seguinte. Já Yolanda Hopkins irá com o seu embalo contra outra surfista da bandeira das estrelas e das riscas, Gabriela Bryan.
A madrugadora de serviço voltará a vestir a licra de competição com um pé maltratado por uma dos seus encontros com a lage de Margaret River, sinal do risco a que se submete a portuguesa. Fez questão de mostrar o lanho profundo na planta do pé, mas nada que a preocupe: “A zona da rocha é mesmo o meu spot. Simplesmente atirei-me, caí numa das sessões de ontem, rasguei o pé, mas na água está tudo bem, não me importo, nem sinto. Vou tratar da feriada e estarei pronta.” Talvez tenha sido pela falta de luz.