Surf

Com 54 anos e “sem pressão”, Kelly Slater anda a surfar ondas quase perfeitas no buraco negro de Teahupo'o

O norte-americano conseguiu uma nota de 19,06
O norte-americano conseguiu uma nota de 19,06
Hannah Anderson

Sem estar em full-time no circuito mundial, o melhor surfista de sempre foi convidado para a etapa do Taiti. Enfrentou as ondas monstruosas com um novo quadril e eliminou Gabriel Medina. Apesar dos 54 anos, parece continuar em forma

A partir de 2005, o surf adotou um novo sistema. A pontuação final passou a basear-se nas duas melhores ondas zarpadas, abandonando-se o método anterior no qual contavam os três melhores desempenhos no heat. A alteração apanhou Kelly Slater já com 33 anos. Enquanto guru da modalidade, logo nessa temporada, levou a escala ao limite tornando-se o primeiro a chegar à nota 20.

O tempo passa, mas o ancestral surfista continua a ter os padrões pendurados na Lua. Aos 54 anos, fez algo muito parecido: atingiu o registo de 19,06 na segunda ronda da passagem do circuito mundial pelo Taiti e derrotou o Gabriel Medina.

Conhecidas como The End of the Road, as ondas tubulares de Teahupo'o são uma espécie de buraco negro da humanidade. Para muitos uma carnificina, para Kelly Slater o seu quintal. Um deslize na orografia aquática pode amolgar qualquer esqueleto, mais ainda se este pertencer ao portador de uma estrutura óssea vetusta. E não, não estamos a falar deste intrépido quinquagenário com uma durabilidade fora de série.

No duelo com Gabriel Medina, aquele que é considerado o melhor de sempre ainda espatifou a prancha. “Tentei-me esforçar um pouco mais. Comecei a fazer exercícios de respiração, acalmei-me e diminui a frequência cardíaca”, revelou quanto à estratégia para ultrapassar a tensão do momento. Depois de as ondas terem percebido que estava ali um velho amigo, Kelly Slater marcou um 9,73 e um 9,33 para derrotar o adversário que, há dois anos, ali conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos.

O confronto com o brasileiro tem passado. Em 2014, Gabriel Medina bateu Kelly Slater numa final realizada no mesmo local. De qualquer modo, o onze vezes campeão do mundo continua a ser o surfista que, de longe, mais vezes ganhou em Teahupo'o, tendo conquistado cinco edições da etapa, a última das quais em 2016.

Kelly Slater foi operado ao quadril no final de 2025
Hannah Anderson

Desta vez, o norte-americano encontra-se a competir “sem pressão” após ter integrado o quadro da prova em Teahupo'o por convite. “Muitas pessoas duvidavam de mim e disseram que o wildcard devia ter sido dado a uma surfista local”, comentou face às críticas recebidas. “Isso só me motivou. Mesmo após todo este tempo, tenho algo a provar.”

A Outerknown é a patrocinadora principal da etapa, o que pode ter contribuído para a participação. A marca de roupa que se diz comprometida “com a proteção do meio ambiente e com o apoio a práticas laborais justas” foi fundada por Kelly Slater, em 2015.

Negócios e família têm sido as principais prioridades do surfista desde que deixou de fazer parte do circuito mundial a tempo inteiro. Em 2024, foi despromovido do Championship Tour e abrandou o ritmo. Talvez seja muito forte chamar reforma a esta fase da vida de Kelly Slater. Afinal, continua a fazer aparições episódicas nas grandes competições.

Com a presença na Polinésia Francesa leva três participações em provas do circuito mundial após a suposta retirada. Em 2025, alcançou um sólido quinto lugar no Havaí e visitou também a Califórnia. Este ano, ainda não tinha realizado qualquer evento.

Kelly Slater já tinha enfrentado múltiplas vezes o súcubo de Teahupo'o, ao contrário do seu novo quadril. Recentemente, o atleta foi sujeito a uma cirurgia com ajuda robótica para substituir uma parte do corpo que muito o condicionou ao longo da carreira. O retoque parece ter sido bem dado.

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