O Open da Austrália, mais happy do que nunca: um tenista amador bateu profissionais e levou mais de 550 mil euros para casa
O professor de ténis Jordan Smith, de 29 anos, foi o vencedor do concurso
Graham Denholm
O formato One Point Slam, em que cada participante tem apenas um ponto para vencer um duelo, animou o pré-competição no primeiro Grand Slam do ano. Com um cartaz pejado de estrelas do ténis, mas também de anónimos amadores e em que homens e mulheres competiram em igualdade, seria um professor de ténis de Sydney, Jordan Smith, a vencer a contenda, numa final frente a Joanna Garland, tenista do top 150
Dentro de uma caixa transparente está um milhão de dólares australianos, qualquer coisa como 570 mil euros. As notas são de brincar, têm escarrapachada a cara de Craig Tiley, o presidente da federação australiana de ténis, mas o dinheiro existe mesmo. Em plena Rod Laver Arena, o estádio principal do Open da Austrália, a abarrotar, dezenas de indivíduos, uns mais famosos que outros, reúnem-se para tentar arrebatar aquela considerável maquia. O desafio escreve-se em poucas linhas: ganhar um duelo de apenas um ponto, em eliminatórias sucessivas até à derradeira final. Antes disso, um pedra, papel, tesoura para decidir quem serve ou responde.
Poucas semanas depois da aberração que foi a Batalha dos Sexos, entre Aryna Sabalenka e Nick Kyrgios, o One Point Slam provou que há sempre forma de criar conceitos apelativos para o ténis, abarcando todos, sem menorizar ninguém.
Integrado na semana que antecede o arranque do quadro principal do primeiro torneio do Grand Slam do ano, que junta o qualifying e momentos de entretenimento, o irresistível evento juntou homens e mulheres, profissionais e amadores, estrelas do top 10 e anónimos jogadores fora dos 100 melhores do mundo, um jockey, um comediante, campeões regionais da Austrália, antigos campeões do Open da Austrália (Marat Safin e Naomi Osaka), o atual campeão (Jannik Sinner) e outro que o quer ser (Carlos Alcaraz).
O entusiasmo de Carlos Alcaraz após Medvedev ser eliminado por Amanda Anisimova
James D. Morgan
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Um concurso a um ponto no ténis é como fazer uma volta num Fórmula 1 à chuva - uma espécie de equalizador. E no One Point Slam houve um pouco de tudo. Homens e mulheres a jogarem nas mesmas condições, amadores a baterem campeões, top 10 a errarem feio. Mesmo com um cartel de estrelas, todas elas foram caindo e a final seria altamente democrática: Jordan Smith, um amador australiano a representar um clube de Sydney, onde é treinador, bateu Joanna Garland, tenista de Taiwan que navega pelo top 150 do ranking WTA.
E se entre os profissionais houve quem atirasse que iria gastar o dinheiro em diamantes, Jordan Smith, de 29 anos, revelou os seus mais modestos objetivos: “Vou comprar uma casa. Mas como Sydney está cara, se calhar só dá para meia casa. Ou um apartamento.”
Jannik Sinner caiu perante Jordan Smith, que seria o campeão do One Point Slam
Graham Denholm
Jannik Sinner caiu perante Jordan Smith, que seria o campeão do One Point Slam
Graham Denholm
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O concurso, que deu ainda mais corpo à alcunha do Open da Austrália, o Happy Slam, foi um misto de caos, erros, surpresas, alguns belos pontos, regras por vezes confusas e divertimento. Um entretenimento bem-disposto numa altura em que muitos profissionais do ténis ainda vivem a leveza do início da época, contrastando com outras ideias de novos formatos que não foram tão bem recebidas.
Se o encontro entre Sabalenka e Kyrgios teve mais atenção antes de acontecer, por maus motivos, do que propriamente durante, o torneio de pares mistos que antecedeu o US Open foi muito criticado pelos especialistas, ainda que se tenha revelado um sucesso comercial e junto do público.
Já em Melbourne, as quase três horas de duelos não terão sido mal passadas por quem encheu a Rod Laver Arena. Nem pelos atletas. Jordan Smith, vindo de uma família de tenistas recreativos, bateu, por exemplo, Jannik Sinner, que este ano pode chegar ao terceiro título consecutivo no Open da Austrália. É verdade que nem precisou de se mexer, já que o italiano fez falta no serviço, mas uma vitória é uma vitória.
Por seu turno, Joanna Garland chegou à final depois de eliminar gente do calibre de Alexander Zverev ou Nick Kyrgios. O dinheiro que por pouco lhe escapou teria dado jeito para financiar as suas viagens pelo circuito, confessou, ela que perdeu na fase de qualificação para o Open da Austrália e teve no One Point Slam o seu momento de glória em Melbourne.