Ténis

Há antídoto para o domínio Alcaraz-Sinner? E Djokovic, ainda pode chegar ao 11.º título no Open da Austrália?

Carlos Alcaraz e Jannik Sinner na final do último US Open
Carlos Alcaraz e Jannik Sinner na final do último US Open
Sarah Stier
Está aí à porta o primeiro torneio do Grand Slam do ano, aquele em que as primeiras questões da temporada começam a ser respondidas. Haverá concorrência para Carlos Alcaraz e Jannik Sinner, ou para Iga Swiatek, Coco Gauff e Aryna Sabalenka? E como irá reagir o espanhol no seu primeiro major sem Juan Carlos Ferrero? As primeiras bolas começam a ser trocadas na madrugada de domingo e vão até 1 de fevereiro

O Open da Austrália não ganhou a alcunha de Happy Slam por acaso. Será pelo ambiente descontraído nas bancadas, o ritmo despreocupado dos locais, pela coolness intrínseca da cidade. Mas também por aquilo que é menos tangível: o renovar do ano, a esperança do início de algo novo, uma espécie de promessa de felicidade para quem, no hemisfério norte, espera auspiciosamente pelo verão que já chegou aos antípodas.

O primeiro torneio do Grand Slam do ano é, por isso, um momento para criar novos enredos e fios narrativos para a época de ténis que aí vem. Ou 2026 irá apenas dar a mão a 2025 e continuar um rumo de duopólio no masculino e uma cada vez mais tripartida luta no feminino? O Open da Austrália, que arranca durante a madrugada de domingo em Portugal, ajudará a clarificar ou adensar a trama.

A era ‘Sincaraz’ é para continuar no Open da Austrália?

A vitória de Jannik Sinner na final do Open da Austrália de 2024, frente a Daniil Medvedev, mudou o paradigma. Se até então a geração do russo, de Alexander Zverev ou de Stefanos Tsitsipas ainda almejava tomar o controlo com o desvanecer competitivo dos Big 3, esse encontro marcou a irremediável ultrapassagem pela direita de um duo mais jovem, mais físico, com mais armas. Até com mais carisma.

Para o italiano, era o primeiro título num torneio do Grand Slam, Carlos Alcaraz já levava dois e desde aí que os números são arrasadores: Sinner e Alcaraz dividiram irmãmente os oito títulos em majors e defrontaram-se nas últimas três finais (a de Roland-Garros entrou diretamente para a lista de momentos desportivos da década), tendo discutido também entre eles as últimas ATP Finals. Nos últimos 19 torneios em que ambos estiveram no quadro, dividiram vitórias em 18 deles. O domínio dual é uma realidade.

Líderes incontestados do ranking mundial, com mais do dobro dos pontos do 3º (Zverev), Carlos Alcaraz e Jannik Sinner chegam a Melbourne sem qualquer registo oficial em 2026. Encontraram-se há um par de dias numa exibição milionária em Seul, na Coreia do Sul, Alcaraz venceu em dois sets, mas o ritmo competitivo do encontro, jogado com os maiores dos cuidados, pouco dirá do momento de cada um.

Ainda assim, ninguém apostará sem receio de perder dinheiro em qualquer outro nome que não um destes dois para vencedor do torneio. Para Sinner, pode ser o terceiro título consecutivo no Happy Slam, o primeiro a conseguir tal feito desde Novak Djokovic. Carlos Alcaraz tem o olho em mais um recorde. Mas há uma grande dúvida no ar.

Carlos Alcaraz e Jannik Sinner protagonizaram o mais impressionante duelo de 2025, na final de Roland-Garros, que cairia para o espanhol
CHRISTOPHE PETIT TESSON

O que será de Alcaraz sem Juan Carlos Ferrero?

Foi a grande bomba do cada vez mais mirrado defeso entre épocas de ténis: Carlos Alcaraz e Juan Carlos Ferrero, a dupla encantada do ténis, a díada perfeita, jogador e treinador em aparente conexão total, anunciavam o fim de um casamento bem prolixo. O caminho dos dois juntou-se quando Alcaraz era apenas um projeto tenístico de 15 anos, com Ferrero, antigo líder do ranking e vencedor de Roland-Garros em 2004, a ajudar o pupilo a tornar-se no mais jovem número 1 mundial da história, com 19 anos e quatro meses, depois de vencer o primeiro de seis títulos do Grand Slam que conquistaram juntos, no US Open de 2022.

De “segundo pai”, como lhe chamou antes da vitória em Wimbledon em 2023, até descartável passaram menos de três anos. As razões para o divórcio continuam no segredo dos deuses da bola amarela, porém Ferrero confessou que gostaria de ter continuado a trabalhar com Alcaraz.

Samuel López, que já estava na equipa de treinos do prodígio espanhol, é agora o treinador principal de Alcaraz, que terá em Melbourne a primeira experiência num Grand Slam sem a presença ora forte, ora apaziguadora de Ferrero nas bancadas. Como irá Alcaraz reagir a esta mudança estrutural na sua rotina é uma das incógnitas para este Open da Austrália. Entre ex-tenistas e especialistas, as opiniões dividem-se. Mats Wilander, por exemplo, não acredita que a mudança no corpo técnico vá afetar o jogo de Alcaraz, já Tim Henman teme que psicologicamente e em matéria de concentração, Alcaraz possa ressentir-se.

Certo é que neste Open da Austrália muito está em jogo para o murciano, num terreno em que não se tem dado bem. Entre lesões e maus momentos, o melhor resultado de Alcaraz em Melbourne são uns quartos de final nas duas últimas edições. Caso vença este ano na Austrália, torna-se o mais jovem tenista da história da Era Open a lograr vencer pelo menos uma vez os quatro torneios do Grand Slam. O recorde está neste momento nas mãos de Rafael Nadal, que o conseguiu com 24 anos e 101 dias quando venceu o US Open de 2010. Alcaraz, ainda com 22 anos e oito meses, tem mais duas oportunidades para ultrapassar o compatriota.

O que diz muito sobre a qualidade do espanhol.

Ferrero e Alcaraz, numa sessão de treino durante Roland-Garros, quando o casamento ainda corria às mil maravilhas
Tim Clayton

E Novak Djokovic, ainda pode vencer mais um título do Grand Slam?

Aos 38 anos, o recordista, no masculino, de títulos em torneios do Grand Slam, com 25, já expressou a vontade de jogar pelo menos até aos Jogos Olímpicos de 2028, mas as últimas notícias sobre a condição física de Novak Djokovic não são as mais animadoras. Desistiu do torneio de Adelaide e os treinos em Melbourne Park têm sido marcados por problemas no pescoço. É certo que também derrotou Frances Tiafoe num encontro de exibição na quinta-feira, mas as dúvidas adensam-se depois de um 2025 já rico em desilusões.

Na última temporada, Djokovic caiu à primeira em Doha, Indian Wells, Monte Carlo e Madrid, tendo vencido apenas dois torneios, em Genebra e Atenas, ambos de categoria 250, a mais baixa do circuito. Porém, o sérvio é o mais bem-sucedido tenista a pisar os courts do Grand Slam australiano, onde venceu por recordistas 10 ocasiões. Sente-se em casa no hard court da Rod Laver Arena e é naquele lugar quase espiritual na sua carreira que parece ter a melhor oportunidade de voltar a vencer um torneio do Grand Slam, para desempatar finalmente com Margaret Court.

Na última temporada, apesar dos altos e baixos, o sérvio manteve-se muito competitivo nos torneios major, chegando sempre às meias-finais, batendo inclusivamente Carlos Alcaraz nos ‘quartos’ na Austrália, antes de desistir na ronda seguinte, frente a Alexander Zverev, por lesão. Com as qualidades técnicas intactas, a Djokovic começa a faltar a frescura e na 1ª ronda terá um adversário difícil de roer, o espanhol Pedro Martínez. Mas convém nunca o descartar totalmente nas contas para uma final.

Djokovic 'toca' violino para celebrar uma vitória em Wimbledon, em 2024
Mike Hewitt / Getty Images

O Grand Slam de Iga Swiatek?

Tradicionalmente mais aberto que o masculino, o quadro feminino tem, nos últimos anos, encontrado um pouco habitual afunilamento entre três estrelas: a bielorrussa Aryna Sabalenka, a polaca Iga Swiatek e a norte-americana Coco Gauff. As três venceram nove dos últimos 12 torneios do Grand Slam e partem para o Open da Austrália como favoritas a aumentar esse número para 10 em 13.

Sabalenka arrebanhou em Melbourne dois dos seus quatro títulos em torneios major (2023 e 2024) e há um ano parecia que nada a iria travar, até Madison Keys surpreender meio-mundo, batendo a líder do ranking na final. Sabalenka chegaria a mais duas finais de torneios do Grand Slam em 2025, perdendo frente a Coco Gauff em Paris e vencendo Amanda Anisimova em Nova Iorque.

Para Iga Swiatek, o desafio não é assim tão distinto do que Carlos Alcaraz tem pela frente. Ambos têm seis títulos do Grand Slam e uma enorme malapata no Open da Austrália, onde a polaca tem como melhor resultado duas presenças nas meias-finais. Também ela pode chegar ao Grand Slam de carreira caso vença em Melbourne, tendo a oportunidade de se tornar a primeira tenista a fazê-lo desde Maria Sharapova, em 2012. Mas o hard court tem sido complexo para Swiatek, especialista em terra batida, vencedora em Wimbledon em 2025 e que só ganhou um major em pisos duros, já em 2022, no US Open.

Swiatek pode chegar ao Grand Slam de carreira em Melbourne
Europa Press Sports

E as surpresas?

O ano de 2025 foi de lutas interiores para Daniil Medvedev, atirado borda fora à primeira em Roland-Garros, Wimbledon e US Open e passando apenas uma ronda no Open da Austrália. Depois de várias temporadas consistentemente no top 10, o russo acabou a época em 12º da hierarquia mundial, mas com esperançosos sinais, com meias-finais no Masters de Xangai e um único título em Almaty. O aparente boost de forma terá transitado para 2026, com o moscovita a vencer com aparente facilidade em Brisbane - um renascimento para confirmar em Melbourne, onde foi finalista em três ocasiões (2021, 2022 e 2024).

No feminino, Amanda Anisimova, que vem de duas finais de majors perdidas em 2025, será 4ª cabeça de série, seguida de Elena Rybakina, inconstante, mas sempre capaz de chegar longe. Depois de uma temporada de regresso em 2025, após ser mãe, Belinda Bencic começou 2026 com vitórias frente a duas top 10 (Iga Swiatek e Jasmine Paolini) na United Cup e parece uma das jogadoras mais em forma nas vésperas do Happy Slam.

Surpreendente será sempre o regresso de Venus Williams, que aos 45 anos será a tenista mais velha a participar no quadro principal do Open da Austrália, onde foi finalista em 2003 e 2017. Na 1ª ronda terá pela frente a sérvia Olga Danilovic, 21 anos mais nova que a norte-americana e que ainda nem era nascida quando a mais velha das irmãs Williams ganhou os seus dois primeiros títulos de singulares em Grand Slams, em 2000.

Daniil Medvedev começou a temporada com uma vitória em Brisbane, depois de um 2025 atribulado
Albert Perez

Os portugueses

Portugal terá dois tenistas no quadro principal masculino em singulares, com Jaime Faria mais uma vez a conseguir passar a fase de qualificação em Melbourne, juntando-se assim a Nuno Borges. Para nenhum deles o sorteio foi particularmente simpático. Borges, 46º ATP, e que há um ano caiu na 3ª ronda frente a Carlos Alcaraz, vai encontrar um top 10, o canadiano Felix Auger-Aliassime, que vem de um bom final de temporada em 2025.

Já Faria, que em 2025 chegou a navegar no top 80 e está agora no 151º lugar do ranking, vai para a sua quarta presença consecutiva em quadros principais de torneios do Grand Slam. Na Austrália, há 12 meses, perdeu na 2ª ronda frente a Novak Djokovic, mas ainda roubou um set ao sérvio. Este ano teria Arthur Cazaux, 67.º ATP, como adversário na 1ª ronda, mas o francês desistiu por lesão e será afinal o jovem Alexander Blockx, 95º mundial, a jogar com o lisboeta.

No quadro de pares, Francisco Cabral chega ao Open da Austrália depois de vencer, com o austríaco Lucas Miedler, o torneio de Brisbane. E, por isso, com legítimas aspirações de chegar longe num major onde há um ano caiu apenas nos quartos de final.

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