Ténis

Alcaraz ganhou às cãibras e a Zverev na Austrália para ser o mais jovem de sempre a chegar à final dos quatro Grand Slams

Alcaraz prevaleceu na meia-final mais longa da história do Open da Austrália
Alcaraz prevaleceu na meia-final mais longa da história do Open da Austrália
Phil Walter

Na mais longa meia-final da história em Melbourne, o corpo começou a trair Carlos Alcaraz no terceiro set e Alexander Zverev parecia embalado para o ultrapassar. Mas, no quinto parcial, foi buscar forças à crepitação, o alemão hesitou perante a reação e o espanhol venceu-o heroicamente. Assim jogará, no domingo, a sua primeira final do Open da Austrália

Os parciais não enganam, mesmo que as concomitâncias do editor de texto não deixem fazer justiça às ínfimas diferenças do que foi separando Carlos Alcaraz de Alexander Zverev. O espanhol levou os dois primeiros sets por 6-4 e 7-6, o alemão ficou com os seguintes com um duplo 6-7 e faltam aqui por cima, como que elevados ao quadrado, os números do tie-break que disputaram em três dos quatro primeiros jogos.

Os números sugerem, mas não ilustram o quão renhido o encontro foi, nem capazes são sequer de indicar como, às tantas, Alcaraz vestiu má cara, curvou a postura e teve de se amparar com as mãos nos joelhos quando chegou o terceiro set e as cãibras o visitaram. O mais novo dos dois (22 anos contra 28), o poço de potência que é o tenista de El Palmar pediu a assistência médica para as tratar (que não se pode fazer), alegou ter outra queixa (pode, mas não deve) e Zverev ficou malfadado com isso (pode à vontade).

Com a concentração de ácido lático a berrar-lhe nos músculos, Alcaraz coxeou e preso de movimentos ficou, enrugando a cara com lastro de dor enquanto o alemão o tentava martelar à lei das suas fortes pancadas do fundo do court. Houve várias que pregaram o espanhol ao piso, noutras viu-se Carlitos a jogar quase parado. Zverez levou o terceiro parcial, e o quarto, parecia encaminhado para ficar com o quinto, na Rod Laver Arena via-se um ímpeto crescente a impor-se contra um físico decadente.

Mas quando se ajeitou às dores e as fez sua sala de estar, ou nas suas palavras algo como um "nunca deixar de acreditar em ti, venha o que vier", Alcaraz desencantou algures outra proeza na sua carreira. Perdia por dois jogos no quinto set, mexia-se aqui e ali a passo de caracol, o físico ainda falia, mas começou a ir buscar pancadas fantásticas à sua crepitação.

Zverev marrava contra ele com os seus foguetes de direita, mas, aos poucos, a grandiosidade do momento pareceu afetar a cabeça do alemão, além do seu corpo. O Alcaraz a meio-gás já tinha desperdiçado duas hipóteses de lhe quebrar o serviço quando também o corpo do alemão pareceu em agonia. O seu saque começou a tremer, Alcaraz a fulminá-lo nas respostas. Os erros caíram para o lado do germânico, caído aos poucos perante a tensão do momento: mais o espanhol recuperava a esperança, mais era a vez de os 1,98m do finalista em Melbourne do ano passado crepitarem.

Cada hesitação na mente de Zverev que lhe prendia o braço era aproveitado por um Alcaraz sem mangas para o fulminar com pancadas, gastando a força que lhe restava. Quando teve no seu renovado serviço, mais fluído e austero de movimentos, não houve cãibras que o prendessem. Entrou a última bola e o espanhol estendeu-se no chão, parecia ter acabado de vencer um título.

Fisicamente foi o jogo mais desafiante da minha curta carreira. Sabia o que tinha de fazer, tinha de colocar o meu coração no jogo, lutar por todas as bolas”, diria exausto, já sem a raquete e enquanto a transmissão mostrava Alexander Zverev cabisbaixo, a caminhar no túnel rumo aos balneários com o olhar colado ao chão.

Na cabeça teria uma evidência: não abocanhou o jogo que pareceu ter a seu jeito face à falência física de um dos adversários (o outro é Jannik Sinner) contra o qual lhe custa medir-se depois de lhe ser impossível atingir a mesma medida de Djokovic, Nadal e Federer. Foram-se os Big 3, veio um duopólio para mandar no ténis.

A partida viveu por cinco horas e 27 minutos e foi a meia-final mais longa nos arquivos do Open da Austrália - e a terceira com maior duração na história do torneio. Sustentado em pinças e com o corpo a dar horas, Carlos Alcaraz vai competir pela primeira vez no jogo decisivo em Melbourne, facto provocador de estranheza face a tudo o que já colecionou na carreira. "Era algo que perseguia. O meu nível tem aumentado muito", reconheceu, agradecendo o apoio "de doidos" que o público lhe dedicou e dizendo-lhes que "mal pode esperar" por domingo.

Ainda terá de ficar à espera por Jannik Sinner ou Novak Djokovic, deles sairá o seu adversário na final que vai colar outro recorde ao nome do espanhol: é o mais jovem de sempre a chegar às decisões dos quatro torneios do Grand Slam. Conseguiu-o agora, no primeiro onde compete após a separação de Juan Carlos Ferrero, o seu treinador de sempre. Qualquer dia, não há texto, nem números - 6-4, 7-6 (7-5), 6-7 (3-7), 6-7 (4-7) e 7-5 - que façam justiça ao que Carlos Alcaraz faz no campo de ténis.

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