Haverá algum competidor como Novak Djokovic? Mais uma final do Open da Austrália diz-nos que não, não há ninguém como ele
Novak Djokovic vai disputar a 38ª final de um Grand Slam em Melbourne
Lintao Zhang
Novak Djokovic merece a sua eternidade. Num braço de ferro com Jannik Sinner pela presença na final do Open da Austrália, o sérvio de 38 anos deu a beber ao jovem italiano a sua indómita mentalidade, tornando-se favorito ao longo do encontro. Ganhou em cinco sets e no domingo a final será frente a Carlos Alcaraz. O 11º título em Melbourne já pareceu mais inantigível
Novak Djokovic já tinha estado do outro lado. Wimbledon, 2019. Roger Federer com 40-15 e duas bolas de encontro para ganhar a final ao sérvio. O marcador vai para 40-40, o ar suspende-se. Talvez aqui esteja a diferença entre os três maiores. Federer era o mais gracioso, Nadal o mais guerreiro. Mas nenhum chegou aos picos de competitividade de Novak Djokovic. Perante aquele 40-40, perante um match point juvenilmente perdido segundos antes, Djokovic manteve-se estoico, calmo. Federer perderia aquela final, Novak não perdeu este encontro.
Aos 38 anos, e depois de uma época em 2025 em que caiu sempre nas meias-finais dos quatro torneios do Grand Slam, Novak Djokovic está de regresso ao duelo decisivo de um major. Bateu Jannik Sinner em cinco sets (3-6, 6-3, 4-6, 6-4 e 6-4), o melhor jogador do mundo em hard courts, um tenista basáltico, partido a marteladas por uma mentalidade que sobra a Djokovic, numa altura em que o corpo já não lhe dá o que entregava há uns anos.
Darrian Traynor
Darrian Traynor
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No palco em que mais vezes atirou os braços ao ar - são 10 os títulos no Open da Austrália -, o sérvio como que se permitiu a mais um momento de história. Era underdog, de longe, perante um jogador que ali ganhou nos dois últimos anos e que o tinha arrasado em cimeiras anteriores. Construiu, ao longo do encontro, um favoritismo de velho general em busca de uma última vitória no campo de batalha. A guerra, essa, será para travar com Carlos Alcaraz, o outro miúdo que, ao longo das duas últimas temporadas, lhe roubou a possibilidade de uma reforma gloriosa. Ou assim pensávamos todos nós.
Alcaraz, em busca de se tornar o mais jovem tenista de sempre a completar o Grand Slam, parte para a final de domingo com um óbvio favoritismo desportivo. Mas será que tem o favoritismo emocional? Dificilmente. Há um ano, Novak Djokovic ganhou-lhe em Melbourne, meses antes tinha derrotado o espanhol na final dos Jogos Olímpicos, que então pareceu uma espécie de last dance para o 24 vezes vencedor de torneios do Grand Slam, que comeu a terra batida de Paris como se fosse a última coisa que o manteria vivo em tempos de fome.
Talvez não, talvez fosse só uma fome normal e não desesperada. Afinal, Novak Djokovic não parou por ali, por aquele ouro que fechava um ciclo. E se o encontro destas meias-finais provou alguma coisa foi que nunca se deve desprezar um cidadão a quem a fome ainda não passou. Ou bem, não um cidadão normal, só um cidadão chamado Novak Djokovic, porque como ele há poucos por aí.
Djokovic, diga-se, demorou a aterrar na Rod Laver Arena. Foi quebrado logo no primeiro jogo e temeu-se uma repetição de duelos anteriores, em que o extraordinário braço do italiano, controlado finamente para ser uma máquina de destruição tenística, não deu hipóteses a um sérvio que já não é uma criança. Porém, Djokovic rapidamente chegou. Sinner fechou o 1º set mas já numa fase em que o serviço do sérvio estava acertadíssimo e a estratégia de fazer mover o italiano parecia resultar.
No segundo parcial começou a ver-se o que seria o encontro: Djokovic a mexer-se melhor, a parecer até aquele boneco de borracha indestrutível de outros tempos em que se tornou o mais titulado de sempre; a procurar ângulos difíceis de responder para as pernas de canivete de Sinner, que está longe de ser um tipo lento, mas ainda não opera milagres. Mesmo que Sinner tenha voltado para a frente no 3º set, Djokovic jogava cada ponto como se estivesse num esforço contínuo para agarrar uma glória que agora lhe está tão cara, ele sabe que, provavelmente, é na Austrália onde moram as últimas oportunidades.
Darrian Traynor
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Sinner, esse, pareceu surpreendido pela aparente frescura, física e mental, de um Djokovic que, à conta de duas desistências de adversários, praticamente não havia competido nesta segunda semana. A sua potente direita não esteve tão ubíqua, surgiu até algo adormecido, mais do que nervoso. Permitiu também que Djokovic, com toda sua coragem cheia de gravilha, se apoderasse dos seus superpoderes, absorvendo as pancadas do transalpino para o destruir logo a seguir.
O 5º set seria uma demonstração final dessas características infungíveis e singulares do sérvio, que salvou uma catrefada de pontos de break de Sinner, salvou oito em oito naquele momento solene, a meio de uma dessas sagas até se benzeu, como agradecendo uma qualquer força divina, uma ajuda dos deuses, que os homens de 38 anos (serão 39 em maio) precisam delas de vez em quando.
Após o match point final, uma bola de Sinner que foi para lá da linha lateral, houve lágrimas nas bancadas, gente embasbacada, o próprio Djokovic, um rapaz eloquente com a raqueta e também sem ela, demorou uns segundos até conseguir responder às primeiras perguntas, como quem se questiona o que acabou de fazer.
Que Novak Djokovic ainda consiga surpreender-se a si próprio já é uma vitória para todos nós. Se for para lá disto é possível que estejamos perante um dos maiores feitos do desporto dos últimos anos.