Se há um muro que embate contra Sabalenka, esse muro chama-se Elena Rybakina, que conquistou o Open da Austrália pela primeira vez
Cazaque Elena Rybakina venceu em Melbourne o seu segundo título do Gran Slam
Phil Walter
Elena Rybakina conquistou no Open da Austrália o seu segundo título em torneios do Grand Slam, ao bater a favorita Aryna Sabalenka em três disputados sets (6-4, 4-6 e 6-4), com as duas atletas a jogaram o seu melhor ténis, num encontro feito de winners e ataque, mais do que erros
Não poucas vezes, Sabalenka é a némesis de si própria. A número 1 mundial, atleta extraordinária, um bombardeiro de fundo de court e resposta ao serviço, só quebra, normalmente, quando luta contra si própria, contra os desatinos emocionais que são tão mais difíceis de entender do que uma lesão física.
Mas depois há Elena Rybakina. Outra máquina de força lá nas catacumbas do campo, detonadora de áses. E contra a cazaque, o jogo de Sabalenka, mesmo nos dias mais finos, embate numa parede. Foi assim nas WTA Finals, aconteceu poucos meses depois na final do Open da Austrália, um encontro ululante, feito domínio repartido, de paradas e respostas, de ataque mais do que de defesa, de pontos diretos mais do que de erros (63 winners para 51 erros), bem explanado no resultado final, uma vitória de Rybakina em três sets, por 6-4, 4-6 e 6-4, num duelo que chegou quase às duas horas e 20 minutos.
Ambas as jogadoras chegavam à final do Open da Austrália sem perder qualquer set e com Aryna Sabalenka em busca de um terceiro título em Melbourne, depois da surpresa da derrota na final de 2025 frente a Madison Keys. Para Rybakina, era o regresso a um jogo que disputou em 2023, também contra Sabalenka, quando a bielorrussa ganhou o seu primeiro título no primeiro Grand Slam do ano.
Lintao Zhang
Lintao Zhang
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Rybakina há muito adiava um acelerar na carreira. O título de Wimbledon, em 2022, parecia o despertar de uma caminhada que, se não fosse dominadora, seria seguramente de alguém constantemente presente nas decisões. Mas um par de lesões e os mistérios insondáveis da relação profissional com Stefano Vukov, o seu treinador, que chegou a ser suspenso por assédio moral à jogadora antes de voltar a trabalhar na sua equipa, travaram-lhe o crescimento. Aos 26 anos, a cazaque está longe de ser uma veterana, mas o seu segundo título do Grand Slam só agora chegar não poderá justificar-se com o seu jogo.
Porque o seu ténis continua lá, de uma postura clássica, gélida até, potente, ao ataque. E implacável. Rybakina tornou-se, com esta vitória na Austrália, na tenista com maior percentagem de vitórias em duelos frente a tenistas que nesse momento moravam no topo do ranking (60% de triunfos).
Frente a Sabalenka começou bem, quebrou logo a bielorrussa e depois foi aproveitando as direitas descalibradas da adversária - e as suas respostas bem afinadas - para conquistar o primeiro set. A busca dos ângulos e os winners constantes trouxeram vantagens para a cazaque, mas no final do parcial inicial já se notava que Sabalenka estava mais dentro da final.
O segundo parcial seria, por isso, o mais equilibrado, com Sabalenka sempre mais perto de quebrar a rival, mas com Rybakina excelente nos momentos de maior pressão, não se coibindo de salvar uma mão cheia de break points jogando ao ataque e atirando pontos diretos. Só com 5-4 no marcador Sabalenka conseguiu finalmente tombar a resistência da cazaque.
Phil Walter
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Ainda assim, este era um jogo de poucas oportunidades, com as duas tenistas a segurarem, com os seus potentes golpes de entrada, os respetivos jogos de serviço. O cenário mudaria de cara no último set.
Aí Sabalenka parecia em vantagem, intratável nas respostas ao serviço da adversária, quebrando-a logo ao primeiro jogo. Rybakina, sem nunca perder verdadeiramente a compostura ao longo do duelo, devolveria a graça para fazer o 3-2, partindo aí para quatro jogos seguidos. Tudo sem Sabalenka estar a fazer um mau encontro, sem a bielorrussa se perder nos seus demónios, como tantas vezes acontece. Com um ás, Rybakina fechou a final e bateu a melhor Sabalenka, coisa que não há muitas tenistas que possam afirmar.
A cazaque, que festejou o pináculo para uma tenista como se de um simples encontro se tratasse, confirma assim um élan que já trazia da época passada, com um título que há muito procurava. Fê-lo de novo com Vukov, com todas as questões que isso acarreta. Rybakina, que começou por praticar ginastica na Moscovo natal, até a estatura elevada a levar para os courts de ténis, diz que a ligação resulta e os resultados voltaram. Ganhar um título do Grand Slam estará sempre para lá da nossa compreensão.