Entre a glória e a controvérsia: o manifesto de Marta Kostyuk, a tenista que não gosta de ser treinada por homens
Marta Kostyuk, da Ucrânia, celebra o match point contra a russa Mirra Andreeva, que lhe deu a vitória no Open de Madrid
David Ramos
Entre recusas de apertos de mão e comentários que dividem o circuito mundial do ténis, a ucraniana Kostyuk venceu o seu primeiro Masters 1000, em Madrid, e foi fiel a si própria
A vitória de Marta Kostyuk em Madrid não foi apenas um triunfo desportivo, tratou-se de um manifesto. A ucraniana de 23 anos conquistou o seu primeiro título WTA 1000 ao derrotar a russa Mirra Andreeva, por 6-3, 7-5, numa final carregada de tensão política e simbólica. No momento em que o último ponto caiu, Kostyuk desabou de joelhos no chão em lágrimas, mas não se aproximou da adversária. Tal como tem feito desde 2022, manteve a sua posição: não há aperto de mão com jogadoras russas ou bielorrussas enquanto a guerra continuar.
A cena repetiu-se de forma quase coreografada. A ucraniana dirigiu-se diretamente ao árbitro para o cumprimento formal, enquanto Andreeva, consciente da posição da ucraniana, fez o mesmo. O ritual do ténis, o aperto de mão que sela o duelo na rede, ficou novamente suspenso pela realidade geopolítica.
A postura não é nova. Marta Kostyuk já tinha recusado cumprimentar Varvara Gracheva quando conquistou o seu primeiro título WTA, no ATX Open, em 2023, dedicando então a vitória “a todos os que estão a lutar e a morrer” na Ucrânia. Desde então, tem sido uma das vozes mais firmes contra a presença de atletas russos e bielorrussos no circuito, criticando sobretudo aqueles que não condenam publicamente a invasão.
Mesmo quando algumas jogadoras mudaram de nacionalidade - como Anastasia Potapova, que passou a representar a Áustria -, Kostyuk manteve a sua conduta: só cumprimenta quem se posiciona claramente contra a guerra, como Daria Kasatkina, tenista nascida na Rússia que se naturalizou australiana e denunciou o regime russo.
Madrid marcou um ponto de viragem na carreira da ucraniana, que agora sobe ao 15º lugar do ranking, refletindo o momento que atravessa. Depois de anos a carregar o peso de ter sido uma prodígio - campeã júnior do Australian Open, aos 14 anos - Kostyuk encontrou finalmente a consistência que lhe faltava. Chegou à final sem perder mais do que um set e somou vitórias sobre duas jogadoras do top 10, consolidando uma série de 13 triunfos consecutivos.
Treinos debaixo das sirenes da guerra
Este triunfo é para Kostyuk mais do que um título: valida um percurso emocionalmente desgastante, vivido entre treinos na Ucrânia, sirenes de guerra e a pressão de representar um país ferido. A sua recusa em cumprimentar adversárias russas é um gesto político, um lembrete de que, para ela, o ténis não existe num vácuo.
Nascida em Kiev, em 2002, filha de uma ex-tenista profissional, Talina Beiko, e sobrinha de um antigo jogador da seleção soviética, Taras Beiko, Marta cresceu literalmente dentro de um court. Começou a treinar aos 5 anos, ganhou o Orange Bowl, norte-americano, o Petits As francês e, aos 14, tornou-se campeã júnior do Australian Open, um feito que a colocou no mapa como uma das maiores promessas da sua geração. Aos 15 anos já estava na terceira ronda do Australian Open sénior - a mais jovem a fazê-lo desde Martina Hingis.
A carreira parecia escrita a régua e esquadro para o estrelato, mas a guerra reescreveu-lhe o guião. Kostyuk nunca baixou os braços, apesar da pressão, admitiu em várias entrevistas, ter-se transformado numa sombra que a acompanhava para todo o lado: a sensação de que tudo o que fazia era sempre “menos do que devia”. Nos últimos meses algo mudou. Kostyuk descreveu este processo como uma libertação, ao perceber que não tinha de viver aprisionada pelas expetativas criadas quando tinha 14 ou 15 anos. Que não precisava de justificar diariamente o talento precoce que a projetou para o circuito. Essa mudança de perspetiva devolveu-lhe o prazer de competir e Madrid foi a prova viva disso.
A ucraniana Marta Kostyuk no pódio em Madrid, com o troféu do torneio Masters 1000
Clive Brunskill
A história ganha ainda mais profundidade quando se olha para o seu percurso familiar. Marta cresceu treinada pela mãe, uma ex-tenista que lhe ensinou tanto a técnica como a resiliência. Kostyuk reconhece que não é fácil separar a atleta da filha, nem a treinadora da mãe, mas também admite que muito do que é hoje nasceu dessa ligação intensa. Mesmo agora, com Sandra Zaniewska como treinadora principal, continua a ligar à mãe sempre que precisa de clareza ou de um pedaço de chão.
Nas entrevistas recentes, Marta explicou que trabalhar com treinadores homens foi, muitas vezes, um desafio: sentia que não havia espaço para expressar emoções. “Sou uma pessoa que gosta de falar e isso foi muito difícil para mim, porque quando se trabalha com um treinador homem a maioria deles não fala. Não conseguem expressar o que se sente, nem adaptar-se. Fui treinada pela minha mãe durante a maior parte da minha vida, por uma mulher”, justificou.
Com Zaniewska encontrou alguém que a deixa ser quem é, que não tenta silenciar o temperamento, que entende que a emoção não é fraqueza, mas combustível. Essa mudança, diz ela, foi decisiva para recuperar a leveza que há muito lhe faltava.
Polémica sobre níveis de testosterona
A ascensão de Kostyuk também tem sido acompanhada por turbulência fora do court. A ucraniana tornou‑se uma figura que divide opiniões. É admirada pela frontalidade e criticada pela mesma razão. A polémica mais recente nasceu de uma entrevista em que, ao tentar explicar as dificuldades de competir com jogadoras fisicamente dominantes como Aryna Sabalenka e Iga Świątek, mencionou diferenças naturais na “estrutura biológica” e nos “níveis de testosterona” entre atletas.
Alguns acusarem‑na de insinuar vantagens injustas, outros defenderam-na, afirmando que apenas descreveu realidades fisiológicas dentro dos limites do desporto feminino. Kostyuk, confrontada com a reação, afirmou que as suas palavras foram “retiradas do contexto”e que nunca pretendeu sugerir doping ou irregularidades, apenas sublinhar que o ténis moderno é cada vez mais físico e que certas jogadoras beneficiam de características naturais difíceis de igualar.
Madrid não é apenas um título. É o retrato de uma jogadora que finalmente respira, que joga com liberdade, que encontrou uma voz própria dentro e fora do court. E, com Roland-Garros à porta, afasta desde já qualquer pressão: “Ainda não pensei nisso. Quero continuar a trabalhar e aproveitar o processo. O mais importante é manter-me saudável.”