Roland-Garros despediu-se de Gaël Monfils, o tenista que só tentou ser alegre e afetuoso
Gaël Monfils fez o seu último jogo em Roland-Garros, aos 39 anos: foi o 17º que se estendeu a cinco sets
BSR Agency
Não ganhou Grand Slams, não liderou o ranking, nunca foi além das meias-finais do major da terra batida na sua Paris, mas, na segunda-feira, Roland-Garros dedicou uma apoteose a Gaël Monfils. Aos 39 anos, o jogador a viver a última época da carreira despediu-se do torneio com um rol de vénias dos maiores tenistas deste século, juntos na homenagem ao francês entusiasmou quem o viu pela forma como jogava
Desta feita não o vimos a ir ao chão sem precavimento, estendido no ar com a raquete para tentar chegar a uma bola impossível e estatelar-se na terra. Nem ele, todo atlético, teve uma daquelas pancadas em suspensão, com um grande pulo à basquetebolista, e bateu na bola cheio de estilo. São idos esses tempos de ‘La Monf’, a alcunha com que o batizaram como se fosse mais um acontecimento do que um tenista, um espetáculo e não uma pessoa.
A sessão noturna de segunda-feira, em Roland-Garros, estava reservada para Gaël Monfils e o que não se desejava, mas já se esperava: a sua última aparição no court central do maior palco da terra batida. O torneio dera-lhe um wildcard para competir no quadro principal, até organizara, no fim de semana, um evento de diversão chamado “Gaël & Friends”, e as redes sociais da prova regozijaram com cada instante em que puderam gravar imagens do francês a treinar nos campos laranjas de Paris.
Isto por um jogador com 13 títulos, nenhum do Grand Slam, jamais chegado além das meias-finais em Roland-Garros e tendo o 6º lugar do ranking ATP como o máximo em mais de duas décadas de carreira. A magia de Gaël Monfils não residia nos troféus, mas no intangível que transmitia: o carisma que transpirava até da raquete, a queda para tentar pancadas espetaculares, a preferência pelo ponto bonito ao invés do pragmático, o rejúbilo que incentivava na plateia.
Afundado hoje na pirâmide do ténis (218ª posição), nunca o sorriso deixou de se estampar na cara Monfils. O sorteio da 1ª ronda depositou Hugo Gaston do outro lado da rede, também francês, um tenista de estatura humilde, canhoto de mão e peculiar no aprontar do serviço, não fazendo ressaltar a bola antes do saque.
Com os seus 25 anos ganhou os dois sets iniciais, tramando Monfils com amortis que o obrigavam a cansar-se em corridas sucessivas, mas, semelhante ao adversário, Gaston queixar-se-ia do físico, pedindo o auxílio do médico do torneio e mostrando a fragilidade que o seu ídolo, como lhe chamaria mais tarde, aproveitaria para levar o terceiro e quarto parciais.
Viram-se fogachos do esplendor de Monfils nas pancadas de direita parecidas a mísseis apesar de preso de movimentos pelos seus 39 anos, longe da leveza de pés e do atleticismo que lhe embelezaram a carreira. Sem resgatar bolas com posturas de corpo que sustentaria uma candidatura a figurar no logótipo do ténis - tal como o figurino de Jerry West ficou gravado no símbolo da NBA -, Gaël teve o público na mão durante as três horas e vinte e dois minutos do encontro, mesmo quando o derradeiro set tresandava a inevitabilidade. Sofreu um bagel, um 0-6 para fechar a partida após os parciais de 2-6, 3-6, 6-3 e 6-2. Foi o seu 17º jogo a quinto sets em Paris, atestado da sua apetência para o espetáculo.
Ao sentido abraço que os jogadores partilharam na rede seguiu-se a vénia de Hugo Gaston a Monfils. O vencedor pediu aplausos para o vencido, pediu-lhe desculpa, disse ter crescido a tê-lo como ídolo e mostrou tato para sair de uma cena que a vitória não fez sua. ‘La Monf’ seria homenageado com um pedaço emoldurado do court do estádio Philippe-Chatrier, apareceram os seus amigos e contemporâneos da geração do ténis gaulês, os já retirados Richard Gasquet, Jo-Wilfried Tsonga e Gilles Simon, para o ampararem.
E no ecrã do recinto passou um vídeo de homenagem no qual Novak Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal lhe teceram elogios, além de Jannik Sinner e Carlos Alcaraz. Quando os louros são tantos, e de propriedade tão distinta, algo de acertado terá feito o visado.
Monfils a dar uma pancada por entre as pernas contra Hugo Gaston
Ian MacNicol
Monfils a dar uma pancada por entre as pernas contra Hugo Gaston
Ian MacNicol
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Posto o microfone nas mãos de Monfils, o francês agradeceu aos pais que o deixaram “fazer boas e más escolhas”, mencionou os treinadores da sua juventude, foi ao maralhal de amigos que tinha na bancada e inundou um pouco mais os olhos de Elina Svitolina, a sua mulher, num pranto a assistir à despedida do marido. “Talvez não estivesse aqui sem ti. Estamos juntos há oito bonitos anos, apoiaste-me, ergueste-me, amaste-me e deste-me o maior dos presentes com a nossa filha”, disse ‘La Monf’ sobre a ucraniana, tenista de 31 anos e candidata a ir longe nesta edição de Roland-Garros.
Gaël segurou as lágrimas, teve os olhos empapados aqui e ali, mas, diria já dentro da madrugada na conferência de imprensa, tinha de “controlar as emoções” situadas algures entre a “boa-disposição e a tristeza”. Tentou resumi-las: "É como se me sentisse bem mas também mal, é muito difícil de explicar. Já tinha aceitado a minha retirada desde que a anunciei, mas é difícil.” Confessou ter o objetivo de jogar até aos 40 anos, que celebrará em setembro, depois “logo se vê”, dando o exemplo de outros desportistas conhecidos: “Como o Stan [Wawrinka], o LeBron, o Cristiano [Ronaldo], como o Ibra [Zlatan], vou treinar a fundo este verão.”
Há “três ou quatro anos” que jogar na terra batida já lhe “custa bastante”, superfície penosa para as articulações, lastro que não escondeu durante esta sua última aparição em Roland-Garros, apoiando-se com as mãos nos joelhos um sem número de vezes. Deixou no ar a hipótese de jogar em Wimbledon se lhe derem um wildcard, apesar de haver “jogadores que o mereçam mais”. Gracioso até ao fim, Gaël Monfils ainda teve de responder a uma questão que o sondou sobre a forma como gostaria de ser recordado.
“Isso é super subjetivo. Fui eu mesmo do início ao fim, não forcei nada em particular. Só tentei ser alegre e afetuoso”, deu como troco. ‘La Monf’