O excelente nível de Nuno Borges sai de Roland-Garros a lamentar a crua realidade dos momentos decisivos
Borges lamenta-se durante a derrota contra Rublev em Roland-Garros
BSR Agency
O maiato sai de Paris na terceira ronda, não conseguindo tornar-se no primeiro tenista nacional a atingir a quarta eliminatória do Grand Slam francês. Num embate equilibrado contra Andrey Rublev, Borges foi pior na ponta final de cada set e perdeu por 7-5, 7-6 (2) e 7-6 (2)
A imagem que resume a derrota de Nuno Borges contra Andrey Rublev, na terceira ronda de Roland-Garros, chegou logo ao primeiro jogo de serviço do derradeiro set. Com o russo a servir, o maiato dispôs de dois pontos de break. Entre desacertos de um lado e acertos do outro, ambas as chances esfumaram-se, acabando o mais cotado dos tenistas a livrar-se do aperto.
Borges reagiu com aquela face de indignação que o português domina, não tanto um protesto contra as injustiças da existência, como João Sousa fazia, mas um certo ar de revolta conformada, como quem espera demasiado tempo por um pedido num restaurante, mas sem ameaçar pessoa alguma de violência. Estava ali outro momento em que Nuno poderia ter-se agarrado à hipótese de triunfo, uma hipótese que ali já era remota, e mais remota ficava perante a amarga sensação de oportunidade perdida.
Perante um jogador de alto nível, 13º do ranking ATP, com a 5ª posição como lugar máximo, 17 títulos averbados, incluindo dois Masters 1.000 em terra batida (Madrid e Monte Carlo), Nuno Borges levou o braço de ferro até patamares nivelados, incomodou no serviço de Rublev, transportou partidas até zonas limite. Provocou até a famosa ira do russo do cabelo esvoaçante. Mas faltou o bocadinho — que é bocadão — que separa os habitantes da elite da bola amarela dos muito bons.
Contas feitas, foi um 3-0 com nuances mentirosas, com 7-5, 7-6 (2) e 7-6 (2) a evidenciarem a paridade em cima do pó de tijolo. Ainda não é desta que um português chegará ao quarto patamar em Roland-Garros.
Nuno Borges soma agora cinco derrotas em cinco confrontos perante Rublev
Dan Istitene
O pouco favorável desfecho contrasta com a última ocasião em que Nuno Borges pisou o Suzanne-Lenglen, um dos estádios do major francês, aquele tipo de palco onde nos vamos habituando a ver portugueses com alguma regularidade mas que, durante décadas e décadas, era terra vedada para as cores nacionais. Há um ano, neste mesmo local, o natural da Maia tornou-se o primeiro homem português a bater um top 10 num Grand Slam, superando Casper Ruud.
Com quatro derrotas em quatro confrontos prévios com Rublev, a tarefa era de elevado grau de dificuldade. O calor voltou a ser convidado de mais um dia de Paris, ainda com ecos do choque da jornada anterior. É uma canícula sem vento, com pouco alívio, que vai motivando queixas de quem passa horas a correr em cima da terra batida.
O set inaugural até foi aquele em que Borges mais sofreu a servir. Salvou seis break points nas cinco primeiras vezes em que teve o golpe de saída, acabando quebrado ao seu sexto jogo de saque. Rublev agarraria aí o triunfo por 7-5.
A partida seguinte foi dando corpo à ideia de oportunidades perdidas. O russo baixou o nível, perdeu regularidade, cedeu o seu serviço num par de ocasiões. Problema: Borges também. A dança de erros era vista com olhar sereno por Marat Safin, o bad boy que por estes dias parece o estiloso parceiro a quem James Bond recorre durante um filme passado na Rússia. Faz parte da equipa técnica de Rublev.
Jaime Faria está pela primeira vez na terceira ronda de um torneio do Grand Slam
Rui Machado, talvez farejando a janela de chance, incentivava mais veementemente o seu pupilo. O desenlace foi para o tie-break, onde se uniram os fatores determinantes da eliminatória: acerto de Rublev quando mais importava, alguma infelicidade de Borges em pontos com margens milimétricas, a tal revolta conformada de Nuno. 2-0 e uma montanha para escalar.
A nua crueldade do sistema de pontuação do ténis é que o equilíbrio geral pode camuflar as superioridades. Borges ganhou 110 pontos, Rublev 119. Equilibrado. Vamos aos tie-breaks? Borges levou a melhor em quatro pontos, Rublev em 14. Eis a diferença.
Foi, também, assim no decisivo set. Duas horas e 46 minutos depois, conclusão do encontro. Nuno Borges sai de Roland-Garros, uma vez mais, dando uma excelente imagem num major. O grande problema a resolver é outro, residindo na regularidade no dia a dia, no semana a semana dos torneios de menor cotação.