O duelo entre Marta Kostyuk e Elina Svitolina em Roland-Garros foi um intermezzo de ténis numa luta que as une: mostrar a força ucraniana
As duas ucranianas abraçam-se na rede no final do jogo: há muito mais do que ténis entre elas
Matthew Stockman
Duas ucranianas tentavam, nos quartos de final de Roland-Garros, fazer história: nenhuma tenista do país tinha chegado a umas meias-finais do major francês. Mas havia muito mais para lá de ténis a jogar-se esta manhã em Paris, horas depois de novo ataque russo voltar a matar. A mais nova Kostyuk saiu vencedora (6-3, 2-6 e 6-2), mas a bandeira da Ucrânia também ganhou
Um encontro entre Elina Svitolina e Marta Kostyuk nunca será apenas mais um jogo. Nos quartos de final de Roland-Garros, as duas melhores jogadoras ucranianas do circuito, tão diferentes no estilo, tão parecidas nas lutas, no que se tornaram as suas vidas depois de fevereiro de 2022, tentavam algo para lá de se tornarem a primeira mulher do seu país a chegar a umas meias-finais do major francês.
Diga-se que as rivalidades com compatriotas são, não raramente, mais difíceis de gerir, para mais entre tenistas de gerações tão diferentes: Elina Svitolina, aos 31 anos, vive uma segunda vida tenística, até em termos estilísticos. Em janeiro voltou pela primeira vez ao top 10 depois de ser mãe, em 2022. Já Marta Kostyuk foi, em adolescente, um prodígio do ténis, a quem não assentou bem a passagem a profissional. Ou, pelo menos, não foi tão rápida a adaptação quanto estaria à espera. Aos 23 anos, vive, nesta temporada de terra batida, o seu melhor momento: foi campeã em Rouen e, mais importante, no Masters 1000 de Madrid.
Mas não há fissuras fratricidas entre ambas, os tempos não estão para isso. Não estão mesmo.
Na noite antes do embate entre duas atletas que se apoiam, que se elevam mutuamente em dias de ferro e fogo no seu país, um novo ataque russo matou, pelo menos, 17 pessoas na Ucrânia. E foi ainda dentro da terrível reverberância das notícias vindas de casa que ambas se apresentaram em busca de história para o seu país. E da visibilidade de uma bandeira, porque não.
(Será apenas uma coincidência, mas não deixa de ser curioso que a treinadora de Kostyuk, Sandra Zaniewska, tivesse ao seu lado na box um exemplar do livro “Intermezzo”, de Sally Rooney, sobre dois irmãos com uma diferença de idades similar à de Svitolina e Kostyuk, a lidar com o luto da morte de um familiar.)
De novo no top 10 da WTA, Svitolina chegou a Paris como vencedora do Masters de Roma
Dan Istitene
O encontro só poderia ser intenso, equilibrado, feito de pequenos momentos. Assim foi. Kostyuk começou como acabou, de pé no pedestal do seu ténis agressivo, de busca de linhas, um ténis de alto risco, de muitos winners mas também muitos erros. Pelo meio, Elina Svitolina, antes uma defensora fortíssima no fundo de court, equilibrou o encontro com o seu jogo mais cerebral, de toque, mais tático que o da compatriota. Juntando tudo, terá sido um dos encontros mais interessantes de um quadro feminino que ainda busca os momentos de fina estampa que têm sido dados pela competição masculina em Roland-Garros.
Marta Kostyuk sairia, assim, vencedora num encontro em três disputados sets (6-3, 2-6 e 6-2). Começou com tudo a mais nova, com um acervo de pancadas em potência admirável e com a esquerda paralela a fazer mossa no jogo de Svitolina, que nos primeiros jogos se limitou a defender-se com bolas altas, procurando o erro de uma não tão tecnicamente requintada adversária. E eles foram surgindo, Svitolina ainda devolveria o break inicial, mas Kostyuk foi lesta a colocar-se de novo em vantagem.
O segundo parcial seria de domínio mental de Svitolina, mais experiente, mais batida, surpreendendo a compatriota com subidas à rede, vóleis e, ela própria, a jogar no risco, beijando os ângulos sempre quanto possível, como que possuída pelo espírito do marido, Gaël Monfils. O jogo estava bonito, aguerrido. E só poderia ir para um terceiro set.
Aí foi na sobrevivência. Até ao 3-2, foram cinco jogos seguidos com breaks de parte a parte, tendência que Kostyuk seria a primeira (e única) a quebrar. Fez o 4-2 no seu serviço, as paralelas que a haviam abandonado na segunda partida voltaram e daí seguiu para uma vitória emocional, importante pelo ténis, por tudo. Foi o 17º triunfo consecutivo esta temporada para a tenista de Kiev, todas em terra batida, onde está indomável.
No final, foi preciso combater as lágrimas para que palavras saíssem por entre o nó na garganta que teria. A primeira mensagem foi para o povo ucraniano, depois de mais uma noite infernal. Infernal também para quem, ao longe, só pode ajudar jogando, mostrando a bandeira - e por isso Marta não dedicou aos ucranianos a sua vitória, mas sim o jogo entre duas compatriotas.
Kostyuk ainda incrédula no momento da vitória: é a primeira ucraniana nas meias-finais de Roland-Garros
Clive Brunskill
A segunda mensagem seria para Svitolina, palavras repetidas porque já antes as tínhamos ouvido sair da boca da mais jovem, sobre “o impacto” que teve e tem no ténis ucraniano, nela própria. “Ela é uma lutadora incrível e eu quero agradecer-lhe por este jogo fantástico”, disse. E depois de falar de si, do que espera, dos longos dois jogos que a separam de um primeiro título do Grand Slam, lembrou que ambas, Marta e Elina, têm fundações com sede na Ucrânia que apoiam o ténis de um país massacrado por uma guerra sem fim e que, antes do primeiro jogo de Kostyuk em Roland-Garros, destruiu casas a 100 metros do sítio onde vive a sua mãe.
Houve muito mais do que ténis nesta batalha.
Se Kostyuk vai engordar ainda mais uma série já extraordinária de vitórias em terra batida é assunto para resolver até sábado. Certo é que os próximos encontros serão, novamente, oportunidades para continuar a falar da guerra na Ucrânia e a tomar posições sobre ela: nas meias-finais, vai defrontar Mirra Andreeva, russa. E não lhe vai apertar a mão ou tirar fotos ao seu lado porque assim tem sido a sua opção desde 2022 - tal como a de Elina Svitolina.
Numa possível final, há 75% de hipóteses de o cenário se repetir, já que há duas russas e uma bielorrussa nas restantes partidas dos quartos de final. Aconteça o que acontecer, Roland-Garros terá uma vencedora inédita.