Aos 19 anos, Mirra Andreeva não quis saber da história de encantar da ‘underdog‘ e ganhou Roland-Garros
Mirra Andreeva ajoelhou-se e escondeu a cara quando ganhou o ponto que lhe deu o seu primeiro Grand Slam em Roland-Garros
Anadolu
Prodígio russo de 19 anos, nascida na Sibéria e desde os 15 no circuito, Mirra Andreeva conquistou o seu primeiro Grand Slam ao vencer, em dois sets (6-3, 6-2), a polaca Maja Chwalińska, sensação do torneio vinda do qualifying e que chegou a Paris sem patrocinadores, a ter de ir comprar os próprios equipamentos e preocupada com o dinheiro para pagar o hotel
A condição é crónica: quem vê desporto, com ou sem raquetes envolvidas, gosta de uma boa underdog. Enfaixada com ligaduras nas coxas, braços sem mangas a tapá-los, impossível era a história de Maja Chwalińska não encantar. Polaca de nascimento, obrigada a olhar lá para baixo do ranking (113ª classificada) à entrada para Roland-Garros, portanto sem honras de quadro principal e obrigada a fazer pela vida no qualifying. Venceu três jogos nesse mini-torneio para aceder ao Grand Slam, depois mais seis no torneio a sério até chegar à sua décima partida, este domingo, vinda pode-se dizer do nada.
A invulgar Chwalińska, canhota de braço e baixa nos seus 167 centímetros para uma tenista, entrou titubeante na final. Acertou uma dupla falta na rede, duas bolas mansas. Não demorou a abstraiu-se, tentando manipular a compostura da adversária com o jogo variado que acentuou a sua faceta de ave rara das últimas semanas de Paris: misturou bolas longas e curtas de direita, cheias de top spin, com frequentes pancadas curtas, cortadas ou em amorti, para fazer de Mirra Andreeva uma atleta e chamá-la à rede. A russa não se deixou enredar nesta variabilidade exaustiva, roubando-lhe o serviço.
Mas a polaca devolveu a gentileza no jogo seguinte, troco fiador que anteviu uma final renhida, cheia de bom ténis no Philippe-Chatrier, court principal onde Chwalińska, chegada a Roland-Garros sem patrocinadores, a ter de ir comprar os próprios equipamentos, arreliada sobre como haveria de arquear com o custo do hotel que o torneio reembolsa, entrou com dois logótipos de uma corretora de investimentos e de uma marca de bebidas energéticas cozidos na blusa, já da Lacoste. Subida na pirâmida da terra batida de Paris com o seu ténis cerebral, quase maquiavélico, subiu na atenção das marcas.
Confortável a devolver bolas altas, quase em balão, como antídoto para manter Andreeva no fundo do court e incomodar o maior poder de fogo da russa, voltou a devolver um break na final onde apenas ao quinto jogo uma tenista, Chwalińska, segurou um jogo de serviço. Incomparável na potência das pancadas, capaz de mísseis que expunham o limitado alcance da polaca a resistir aos momentos de troca de raquetedas em força, tão comum no ténis atual, a russa, coqueluche do seu país, hoje com 19 anos e aparecida em Grand Slams aos 15, sofria mais com o vento do que a polaca.
Nunca uma tenista com um ranking tão baixo como o de Maja Chwalińska chegara à final de Roland-Garros
Anadolu
Era só impressão. Acrescida em paciência após ver Chwalińska aguentar o saque, a prodígio Andreeva, estreante em finais de Grand Slams como a polaca, mas com dois títulos Masters no currículo e oito finais disputadas contra nenhuma da esquerdina, atinou o seu jogo. Ganhou consistência a devolver na potência o que Maja fazia por abrandar com o slice, as bolas-balão,habituando-se aos truques com o seu martelo até levar o primeiro set, 6-3.
A polaca que ainda outro dia, em abril, conquistava o Oeiras Open, torneio humilde do circuito feminino com palco no Jamor, logo abaixo das provas de categoria WTA - sendo realistas, condigno com o nível do seu ténis até esta quinzena -, regressou ao campo mais agressiva, disposta a arriscar na força que pouca tem. Avançou uns passos, colou os pés à linha de fundo, atacou a bola cedo, ajeitou a final ao pugilato tenístico: duas jogadores a trocarem golpes na potência, sem os punhos em cima para se defenderem.
Era arriscado, esse é o jogo de Mirra Andreeva.
A russa que há muito se via estar embalada para ser assídua em finais de Grand Slams sobrepôs-se, aos poucos, à polaca que ninguém viu que aí vinha. A cada pancada de risco, a cada alternância na sequência de pancadas para tentar algo diferente, as bolas de Chwalińska caíam curtas demais, ou um pouco para lá dos limites do court. Obrigada a arriscar, a dela partir o fio condutor dos pontos, Maja errava mais vezes.
Maja Chwalińska a servir na final de Roland-Garros
Clive Brunskill
Maja Chwalińska a servir na final de Roland-Garros
Clive Brunskill
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Treinada pela Inmaculada Concepción do ténis espanhol,mais conhecida por ‘Conchita‘ Martínez, que apontava com um dedo à cabeça para apelar à concentração da pupila, Andreeva canalizava a sua paciência ao esperar pelo momento certo para disparar uma direita paralela ou uma das suas esquerdas cruzadas, acumulando winners. Após as meias-finais, a russa dissera estar tão focada que conseguia ver os pêlos amarelos da felpuda bola quando esta vinha na sua direção. Num semelhante estado de transe pareceu estar enquanto atropelou Chwalińska no segundo parcial.
A final pareceu-se a um atropelamento quando o placard marcava 5-0. Era um ver se te avias para a polaca lidar a frieza maquinal de Andreeva. O público do Philippe-Chatrier ainda exultou quando Maja levou um jogo de serviço nesse set, alentando a até há dias desconhecida, que há cinco anos fugiu do ténis a contas com uma depressão, sentido-se sem vida sequer para sair da cama. O saque seguinte assemelhava-se uma inevitabilidade, mas, com a final na sua raquete, a adolescente tremeu, precipitando-se a querer fechar pontos. Foi quebrada.
Era um vislumbre das tremideiras da jovem, siberiana como Maria Sharapova, paralelismo geográfico que incentivou ainda mais comparações com a antiga vencedora de majors, mas pouco gélida a lidar com momentos de pressão na sua ainda curta carreira. Porém, ao periclitar, Maja Chwalińska imitou-a, abanando no seu serviço. Convertido o primeiro de três match points, Andreeva caiu sobre os próprios joelhos - uma nova rainha de Roland-Garros pousada no pó de tijolo.
Esta atípica edição maior dos torneios alaranjados que não teve donas de majors nas meias-finais ficará como o da consagração primeira de Mirra Andreeva, prodígio do ténis russa que já se sabia vir aí embalada para estes momentos. Agarrou-se ao título com a sua esquerda a duas mãos, meio em suspensão, imagem do seu potente ténis. Apressou-se a ir à bancada, rápida a abraçar ‘Conchita‘ Martínez, finalista em Paris no ido 2000, procurando logo depois o seu cão. Desbravado o seu primeiro Grand Slam, improvável é que seja o último.
Mirra Andreeva a posar com o troféu de Roland-Garros, o seu primeiro título do Grand Slam
Clive Brunskill
Roland-Garros não foi como o US Open de 2021, perdido de amores pela história de Emma Raducanu, como Chwalińska vinda do qualifying e só parando com o troféu de vencedora nas mãos. Desde então se tem visto como a inglesa, apetrechada de marcas, bling-bling e patrocinadores, tem oscilado entre a irrelevância nos resultados e a troca constantes de treinadores. Aos 24 anos, a polaca que amealhara 750 mil euros em prize money até este Roland-Garros, valor gordo, também fingidor por ser rapidamente absorvido pelos gastos de competir e viajar no circuito, será recompensada com €1,4 milhões.
Parece ter ténis para bastante mais. A sua história de encantar não acabou com as mãos na Coupe des Mousquetaires, culpa de Mirra Andreeva. A russa só quis saber do seu cão, não de underdogs. E de si própria. “Também quero agradecer a mim própria”, disse, ao completar o seu discurso da vitória, “por acreditar, por tentar ser uma melhor pessoa e jogadoras todos os dias, e lutar contra os meus demónios“.