Ténis

Em Roland-Garros, a vitória pertenceu ao mais insistente: Alexander Zverev já tem o seu Grand Slam

Alexander Zverev venceu, aos 29 anos, o primeiro Grand Slam da sua carreira em Roland-Garros
Alexander Zverev venceu, aos 29 anos, o primeiro Grand Slam da sua carreira em Roland-Garros
YOAN VALAT

Nenhum dos finalistas tinha Grand Slams no currículo e apenas um, Alexander Zverev, conhecia o sabor, no seu caso amargo, de jogar uma final. Como na disputa feminina da véspera, Roland-Garros coroou um novo campeão: o alemão, tenista brutal mas abafado por coincidir com uma geração de lendas depois de uma outra, venceu, em cinco sets e após mais de quatro horas, Flavio Cobolli, italiano que andou entre o futebol e o ténis até decidir que não gostava de desportos coletivos

Curiosa a escolha de Flavio Cobolli. Era um miúdo com jeito, um jeito a mais, safava-se bem no ténis a um nível que se acotovelava com o futebol. Praticou ambos a sério, com treinos já com o ser profissional em vista, mas o tempo é padrasto das escolhas e o italiano, a certo ponto, viu-se obrigado a optar. “Não gosto de jogar em equipa”, explicou o individualista fiel à solidão da raquete. Para trás ficaram os tempos de bola no pé na formação da AS Roma, o clube-paixão do nascido em Florença e crescido na capital, onde se fez amigo de tipos hoje internacionais por Itália a dependerem uns dos outros. Não como Cobolli, desamarrado de companhias no lugar onde um homem mais é uma ilha.

Amigado do ténis, chegado à final de Roland-Garros, sozinho esteve no balneário - ou quase, nesta modalidade individual os jogadores equipam juntos, a metros uns dos outros -, sozinho correu frenético para o fundo do court para ir aquecer após a moeda ao ar, sozinho lidou com o seu tico e o seu teco trémulos no primeiro jogo de serviço da sua primeira final de um Grand Slam. Fez uma dupla falta, as bolas saíram-lhe longas, Alexander Zverev só tinha de devolver pancadas para o incomodar.

Foi demorado esse jogo inicial, Cobolli às tantas respirou, soltou o braço e atinando un petit peu, encontrando a sua versão agressiva, atacante, sem receios em bater e atacar a rede, embora os nervos lhe afetassem a eficácia nas decisões. O mais tranquilo Zverev, a jogar a quarta decisão de um major, conhecedor das sensações de receber a mirada do mundo, quebrou-lhe o serviço, marretando depois contra o italiano com o seu potente saque. As ânsias de Flavio predenram-lhe os membros no arranque, nem a loba de Roma, e da Roma, que tinha tatuada no branco esquerdo o tranquilizava.

Nas trocas de pancadas mais prolongadas, o alemão com sangue russo, sem mainar uma onça de força, doseava entre o risco e o conservadorismo para empurrar Cobolli a ser ele quem tentava golpes ousados. A caçar uma desvantagem, o italiano engordou-a, atirando para fora várias bolas em que juntava tudo, os passinhos curtos rápidos para atacar cedo a pancada, o estilo a dar a raquetada em suspensão, o intento em ter um winner estrondoso, mas falhava no primordial: a felpuda amarela caía fora das linhas. O calmo Zverev roubou de novo o serviço e levaria o set (6-1).

O italiano não renunciava ao seu ímpeto de querer atacar, ferir e invadir, ter-lhe-ia feito bem abrandar as operações, pensar em como contrariar os 15 centímetros a mais da torre alemã sem recorrer apenas ao risco máximo, talvez usar mais vezes o seu pesado serviço em kick, cheio de um efeito que faz do chão um trampolim para a bola subir no ar ao ressaltar, se bem que os 1,98 metros de ‘Sascha’ ajudassem a contrariar esse truque.

Na muche seria fazer o germânico de membros compridos, locomoção não tão expedita, correr mais. O dono de 24 títulos e 42 finais no circuito disparava a preceito a sua robótica esquerda a duas mãos, fulminante na cilindrada, uma pancada limpa, a sua melhor, cheio de uma confiança que lhe sobrava para encarrilar pontos na direita em que não costumava confiar tanto. O segundo parcial equilibrou-se, ficou mais renhido, Cobolli serviu melhor, até uma bola atirada à tela por Zverev caiu, à terceira, para o seu lado; a fortuna já era repartida.

Estava 3-3 e o italiano teve o primeiro break point da final, agito a raquete ao de leve, em silêncio, para se incentivar, mas Zverev salvou-se na mais longa e vistosa troca de bolas até então. Mantendo o estilo sorumbático com carrapicho no penteado, o alemão viu-se pressionado por um Cobolli a subir o nível que o quebraria mesmo pouco depois, entrando-lhe na cabeça - cedeu com um par de duplas faltas.

A partida, enfim, conheceu as faíscas desejadas, renhida se tornou com o risco a perfumar ambos os lados da rede. Flavio tentava pontaços em estilo, Zverev forçado era a disparar bombas no seu sofá no fundo do campo, eram dois tenistas aproximados do seu apogeu a atirarem ao outro o melhor que tinham. O germânico vestido de negro, fios de ouro a espreitarem camisola fora, catapultava bolas contra o equipado à roxo e branco, já capaz de responder num tom estrondoso ao serviço. Algo enrijecido ‘Sascha’, um pouco preso nos músculos pela pressão, adiou a perda do set, 4-6.

Cobolli venceu o segundo set da final de Roland-Garros
YOAN VALAT

A final não se desviou dessa linha. Com as suas tatuagens espalhadas pelo corpo, Flavio manteve a preferência por servir com a mesma bola quando o serviço anterior saíra bem, não esmoreceu no leve jogo de pés e obrigou Zverev a expandir-se além do seu infalível primeiro serviço: do alemão, aos poucos, viram-se bolas curtas e cortadas para junto da rede, atraindo o transalpino para não o tentar derrubar apenas à martelada.

Menos paciente, mais proativo para fugir à tendência auto-infligida em finais passadas de se encolher nas suas aptidões ao invés de se empoleirar nelas, Zverev aqui e ali mostrava ser o que a ausência de Carlos Alcaraz, a lesão de Jannik Sinner e a derrota matutina de Novak Djokovic dele fizeram - o favorito à conquista de Roland-Garros. À falta dos que, há anos, lhe impõem um teto, era outra tipo de pressão a rodear um dos melhores tenistas da história que jamais vencera um Grand Slam.

Contra ele se animava o aparecido de de fora, vindo do ângulo morto do retrovisor, sem os suprasumos tenísticos haveria espaço para um nome menos sonante e Flavio Cobolli, com aqueles gritos arrastados, a ecoarem no recito, ao bater pancadas triunfantes, animou-se até o alemão vencer o terceiro parcial (6-4) roubando-lhe o serviço, num pequeno resumo do que a final já tinha sido: Zverev batia forte na bola, moía o juízo ao italiano, que arriscava muito e, de repente, voltou a errar muito. Lá se ia o equilíbrio.

Ou não.

Alexander Zverev a disparar um dos seus serviços-martelo durante a final de Roland-Garros
Anadolu

Algo entrou na cabeça do alemão, uma dúvida, um pensamento intrusivo, mera distração quiçá, mas vacilou bastante a servir para arrancar o set seguinte. Cobolli quebrou-o. Depois segurou o serviço. A final ainda não pendia assim tanto para um deles. O transalpino continuou com os seus laivos a lembrarem Alcaraz, repentinamente batendo direitas chapadas, com aspeto de balas, capaz de acelerar a bola com uma rotação de tronco poderosa, portanto arriscando bastante, cortejando o risco como parece gostar.

Mais solto, o florentino virado romanista exibia-se: eram amortis tentados a receber pancadas potentes, winners magicados com bolas cortadas. Mas, igual si próprio nesta final, não se livrou das oscilações. Enfrentou três pontos de break, salvou todos menos o quarto, Zverev estava de volta, mas com ele as suas dúvidas. Bastou um centésimo de hesitação a subir à rede após uma pancada bruta, um side step um pouco tardio, para o germânico se encavalitar em erros e permitir a Cobolli devolver a quebra de serviço.

Alguém tinha de ganhar a final, Zverev parecia jogar para não a perder.

Só corrigiu a postura perante a oscilação do italiano, que vacilava no primeiro serviço - menos de 40% entrava nos meados do quarto parcial - e expunha-se ao germânico, por fim decidido a atacar. Igualando as coisas a cinco jogos, o delgado jogador tomou o seu tempo. Quase forçou o warning do juiz de cadeira ao ir beber água ao banco e esgotar os 25 segundos que tinha para servir, pouco lhe importando o aviso. Estava por cima, era-lhe crucial lá permanecer, recorreu às manigâncias e obrigou Cobolli a ter de servir para não perder a final.

Não sem antes ‘Sascha’, sentindo o corpo a ranger, chamar o fisioterapeuta do torneio. A servir pela vida, o primeiro saque do italiano ressuscitou, sobrevivendo o tenista para o tie-break. A final, já dentro das três horas, reverberou em qualidade no desempate com uma erupção de qualidade, viram-se longas trocas de bola, disputas com ambos os jogadores na rede, maratonas de Flavio para alcançar prejuízos e bombas vindas da direita de Alexander, por vezes a coxear e desejoso de encurtar os pontos. Zverev já jogava para ganhar, ou apressava-se para encerrar cedo os pontos.

Do mesmo mal padeceu Cobolli quando desperdicou um set point por atacar a rede esbaforido ao tentar um serviço-volley. Seria no ponto seguinte, com uma direita feita míssil (7-6), levando a final para um quinto e último parcial.

A teoria sugeria que tal seria um encargo com maior peso para Zverev, tíbio no físico, a tentar esconder as queixas do adversário, mas o alemão, mais austero nas ações, atacante por força de se poupar, quebrou o serviço ao italiano logo à primeira. Cobolli preocupou-se, passou a jogar com outra eletricidade, lá veio o risco e vieram os erros. Voltou a ser roubado, a final ia para a raquete do mais velho dos tenistas, 29 danças em torno do sol e quatro horas contadas neste jogo.

Tão esgotado que estava, ‘Sascha’ nem se permitia festejar os pontos bombásticos, o mais espetacular da final porventura foi neste derradeiro set e ele nada, impávido, os genes alemães e russos a unirem-se na temperatura: era um tenista frio, de cara inerte, a querer encurtar os pontos e a avançar à rede bastantes mais vezes. Na pressa atirava pressão para o outro lado, Cobolli roía-se por não conseguir crescer no jogo e até flores à beira do court mordeu. No alto do Philippe-Chatrier, a adornar uma das bancadas do estádio, lê-se: “A vitória pertence aos mais tenazes.” No caso, ficou com o mais insistente.

Alexander Zverev enrolado na terra batida, em choro, ao confirmar a conquista de Roland-Garros e do seu primeiro Grand Slam
YOAN VALAT

À sua quarta tentativa, após derrotas em Nova Iorque (Dominic Thiem, em 2020), em Melbourne (Jannik Sinner, 2025) e em Paris (2024), o tenista de Hamburgo, cidade onde Flavio Cobolli conquistou o seu título mais relevante, pôde sentir o que é deixar-se ir na emoção do último ponto de um Grand Slam e não ficar a pensar no que podia ter sido. E soltou-a, caído de costas, pernas e braços estendidos, com o pó de tijolo colado ao suor enquanto chorava, após confirmar o 6-1. Foi abraçado pelo italiano do seu lado do court antes de agradecer ao público com os olhos ensopados.

Chega tarde, adiado pela coincidência com tantos semi-deuses das raquetes, antes houve Roger, Rafa e o persistente Novak, vieram depois Carlos e Jannik e ele a ter de se medir contra a grandeza, empencando nela. É o cume da carreira para o alemão que já colecionou vários baixios, dois deles as acusações de violência doméstica de que foi alvo: uma da ex-mulher e mãe da sua filha, arquivada na justiça por acordo mútuo; a outra arquivada pela ATP por provas insuficientes, após uma investigação de ano e meio.

Alexander Zverev, finalmente para ele, largou a etiqueta de ser o provável melhor tenista a nunca ganhar um Grand Slam. A vitória também recompensa a insistência.

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