Não houve prémio para o ténis vintage de Karolína Muchová e Linda Nosková é campeã de Wimbledon
Linda Noskova com a taça de campeã de Wimbledon
Cameron Spencer
Num final de Wimbledon entre duas checas, venceu a mais nova e aquela com o ténis mais pragmático. Mas a luta que Muchová deu ao longo de três sets (6-2, 5-7, 6-3) mostra que ainda há lugar para a beleza e para o toque de bola nos courts de ténis
Olha-se para a lista das 100 melhores raquetas do mundo no feminino e 10% dos nomes têm uma bandeira vermelha, azul e branca à frente. São 10 as tenistas checas ali empoleiradas, um país de 10 milhões de habitantes carregadíssimo de ADN tenístico desde tempos imemoriais e talvez nada conte essa história de sucesso como uma final 100% checa em Wimbledon.
Já se sabia então, desde quinta-feira, que o torneio de Grand Slam que se joga na relva teria uma vencedora inédita em majors e, pela terceira vez em quatro anos, uma vencedora checa, depois Markéta Vondroušová e Barbora Krejčíková o terem feito em 2023 e 2024, respetivamente. Antes delas Jana Novotná e Petra Kvitová, esta por duas vezes, também já tinham beijado a glória no All England Club e a Chéquia só não pode chamar a si mais nove títulos em Wimbledon porque Martina Navratilova desertou para os Estados Unidos antes de ali desatar a vencer - mas a semente lá ficou no país da Europa de leste.
Mas o que terá tido mais graça nesta final mononacional de Wimbledon é que, no meio de tanta história, de tanta escola, de tantos genes, Linda Nosková e Karolína Muchová, que até já jogaram pares juntas nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, não podiam ser duas tenistas mais diferentes.
A primeira, mais nova, 21 anos apenas, desenvolve todo o seu ténis em torno de um poderoso serviço, de um jogo pragmático, algo burocrático até, mas terrivelmente eficaz. Já Muchová, de 29 anos, é uma tenista de outros tempos: onde lhe falta poder, esbanja talento, o que tecnicamente chamamos de “mãozinhas”. Domina o vólei, as subidas à rede, a bola cortada. Até a forma como se vestiu em Wimbledon - polo largo, saia esvoaçante, fita na cabeça - nos transporta para outros tempos, uns anos 80 em que a técnica era tudo.
Nosková domina no serviço
Mike Egerton - PA Images
E, até meio do 2º parcial, parecia que o ténis vintage de Muchová, que chegava à final depois de eliminar Coco Gauff, nada podia perante a modernidade de Noskova, que conquistou o set inicial por incontestáveis 6-2, numa exibição ancorada num serviço quase perfeito e na quase não presença de Muchová, frágil no saque, nervosa, sem conseguir soltar aquele braço tão cheio de ténis.
O encontro mudaria de cara já depois de Muchová enfrentar os primeiros match points de Nosková, com o jogo em 5-2 no 2º set. A finalista de Roland-Garros em 2023, mais experiente, mas calejada por lesões e com uma certa fama de não lidar bem com os momentos decisivos, marca tantas vezes vista em quem nasce com um certo dom, precisou de sete pontos de break para devolver a quebra de serviço à adversária, que se foi defendendo com o seu saque.
Mas algo mudou aí para Nosková, que entrou num ligeiro pântano mental. Muchová ganhava finalmente confiança e soltava o seu talento. Aparecia finalmente o seu ténis fluído, de pancadas impossíveis, de ângulos e contra-pés e de risco. Voltou a quebrar a compatriota para depois fechar o 2º set em 7-5, num parcial de 71 minutos em que salvou cinco pontos que teriam dado ali mesmo o título a Nosková.
Muchová e uma das suas pancadas base, a esquerda cortada
John Walton - PA Images
O terceiro parcial foi, assim, uma espécie de presente para quem, minutos antes, havia acreditado numa final curta, de sentido único para Nosková. Aqui viram-se as duas tenistas a desenharem a relva com a sua melhor versão. Nosková voltou a encontrar o serviço, a capacidade de antecipar pontos, as segundas bolas. E Muchová ia brilhando com os seus vóleis carregados de toque e outras pancadas só ao alcance de quem caiu no caldeirão do brilantismo.
A diferença fez-se num break ainda prematuro no set para Nosková, a levantar-se animicamente pouco depois de um 2º parcial desafiante para a mente de qualquer tenista. Nos jogos finais, manteve a segurança do seu serviço, enquanto Muchová errou um pouco mais. Não muito, apenas o suficiente para, à segunda tentativa, voltar a ver a taça de campeã de um Grand Slam escapar-lhe.
Para a mais nova das checas, bastou uma oportunidade. À primeira tentativa, Linda Nosková é campeã de um major, e logo na relva de Wimbledon. E com todo o mérito: foi forte nos momentos difíceis e eficaz na hora da verdade. O seu ténis pouco errático ajuda. Os mais puristas da modalidade, que apreciam a beleza há tanto tempo desaparecida, praticamente sem representantes em ambos os circuitos, porque o desporto evoluiu para um dimensão física que faria tremer qualquer estrela dos anos 80, chorarão esta derrota do jogo vintage de Muchová. Mas chegar a uma final de Wimbledon já é uma vitória: quer dizer que ele ainda anda por aí.