O pulso, o grande pesadelo dos tenistas, está a ameaçar Carlos Alcaraz
Alcaraz está a viver uma temporada marcada pelas ausências
Clive Brunskill
Sem jogar desde abril, o fenómeno espanhol adiou o regresso à competição ao desistir do torneio de Cincinnati. A lesão no pulso direito evoca os problemas que limitaram profundamente as carreiras de Juan Martín del Potro e Dominic Thiem
Juan Martín del Potro estava nas nuvens. Era o início de 2010 e o argentino acabara de bater Roger Federer na final do US Open do ano anterior, um feito que, na altura, pareceu tirado do impossível, já que o suíço vinha de cinco triunfos consecutivos em Nova Iorque.
No entanto, o gigante tenista seria atirado do pedestal em que se encontrava para um duro reencontro com a realidade. Uma lesão no pulso obrigou-o a estar ausente durante quase toda a temporada de 2010, abrindo um calvário de problemas físicos. Mazelas nos joelhos seguir-se-iam, com Del Potro a batalhar, ao longo de mais de uma década, contra o próprio corpo.
Dominic Thiem também se magoou no pulso direito pouco depois de ganhar o título no US Open. Vencer em Flushing Meadows em 2020 validou a ideia de que o austríaco liderava o pelotão para suceder a quem, na altura, dominava o ténis, mas o que começou por ser uma lesão aparentemente leve foi-se agravando. Não mais Thiem jogou como antes.
Alcaraz, em abril, com uma proteção na zona lesionada
Clive Brunskill
Carlos Alcaraz é o mais recente membro dos lesados do pulso. A questão vem da primavera, forçando o murciano a estar afastado dos courts de forma competitiva desde abril.
Não foi a Roland-Garros, não marcou presença em Wimbledon e só há pouco tempo foi visto a bater bolas. Chegou-se a garantir que voltaria em Cincinnati, com o vindouro US Open na mira, mas também desistiu do Masters 1.000 do Ohio.
A Carlos Alcaraz já conquistou sete torneios de Grand Slam
O pulso — ou punho, para não confundir com o pulso referente ao batimento cardíaco — é considerada a zona mais sensível para se ter uma lesão no ténis moderno. Aquela zona absorve uma enorme quantidade de vibração e força a cada pancada, especialmente no jogo que se vê por estes dias, com mais velocidade, mais força, mais impacto para o corpo.
A questão agrava-se se, como sucede com Carlitos, a lesão for no lado dominante do tenista, no caso o direito.
Alcaraz chegou a treinar, durante várias semanas, com uma raquete sem cordas, só para manter o ritmo dos golpes de fundo do court sem danificar a articulação. Depois disso, teve ensaios mais à séria em Murcia, mas ainda não está pronto para jogar. O US Open, com arranque a 24 de agosto, era o grande objetivo de 2026 para o espanhol, dono de sete majors e campeão nova-iorquino em título.
Juan Martín del Potro, um dos tenistas que sofreu do pulso
Yifan Ding
Além da pressão que o ténis de alto rendimento representa para o pulso, a própria anatomia da zona leva a dificuldades acrescidas de recuperação. Há muitos pequenos ossos próximos uns dos outros, com vasos sanguíneos limitados em certas áreas e tecidos que tardam em cicatrizar.
Acelerar o regresso pode ser fatal. Thiem admitiu que a pressa para voltar após a lesão contraída com meros 27 anos levou-o a nunca mais ser o mesmo. Campeão de um Grand Slam e finalista de majors outras três vezes antes de sofrer do pulso, Thiem não mais voltou a pisar uma terceira ronda de Austrália, Roland-Garros, Wimbledon ou US Open.
Com 17 títulos pré-lesão, a sua sala de troféus não voltaria a ser engordada. Antigo número 3, não regressou nunca aos 50 primeiros lugares. Acabaria por deixar a carreira aos 30 anos, vítima do pulso direito.
Del Potro viveu calvário mais prolongado. Entre 2010 e 2015 foi quatro vezes operado ao pulso. A anormal resiliência do argentino permitiu-lhe, entre dor e outras maleitas nos joelhos, regressar a patamares muito elevados, atingindo a final do US Open em 2018 ou conquistando a prata no Rio 2016, mas sempre com muitas descontinuidades. Ao retirar-se, em 2022, confessou encontrar “paz” após tanta luta.
Thiem a olhar para a sua mão direita
Frey/TPN
A necessidade de longas reabilitações, com fisioterapia e regressos graduais à competição, pode ser inimiga de um circuito brutal, implacável, em que cada semana falhada atira jogadores para longe da elite. A cautela parece ser a receita aplicada por Alcaraz.
Rafael Nadal, entre a palete de lesões que sofreu, também foi obrigado a parar pelo pulso, primeiro em 2014 e depois em 2016. O balear aconselhou, em maio, que o seu compatriota mais novo “fizesse as coisas bem”, regressando “só quando estivesse a 100%”.
Outra lenda da bola amarela, Jim Courier, vai pelo mesmo caminho: “É necessário ser muito cauteloso com o pulso. Há precedentes tristes, de tenistas cuja carreira foi muito afetada. Juan Martín del Potro é o maior exemplo de alguém que foi e sempre será um campeão, mas questionamos sempre como teria sido a sua carreira sem este tipo de problemas, fica sempre a dúvida”, comentou o duas vezes vencedor do Open da Austrália e de Roland-Garros.