Ténis

O canhão na raquete de Ben Shelton sobreviveu a Carlos Alcaraz e à maratona mais tardia na história do US Open

Ben Shelton com a raquete a pairar à sua frente durante o jogo dos quartos de final do US Open contra Carlos Alcaraz
Ben Shelton com a raquete a pairar à sua frente durante o jogo dos quartos de final do US Open contra Carlos Alcaraz
CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH

O primeiro norte-americano a derrotar Carlos Alcaraz em Grand Slams chama-se Ben Shelton, menino bonito do ténis dos Estados Unidos que prevaleceu no jogo que acabou mais tarde na história do US Open. Já passava das 3h30 da manhã em Nova Iorque quando o canhoto venceu, no tiebreak do quinto set, o espanhol que se despediu sorridente, à sua maneira. Dono do mais potente dos serviços, Shelton vai jogar as meias-finais contra Frances Tiafoe

O canhão na raquete de Ben Shelton sobreviveu a Carlos Alcaraz e à maratona mais tardia na história do US Open

Diogo Pombo

Editor de Desporto

Se uma pessoa desperta para o cedo em Portugal, com o sol ainda a livrar-se das remelas, e há um jogo do US Open a decorrer, sinal é de que os jogadores em ação estão embrulhados neles próprios.

Muito emaranhados um no outro se viram Ben Shelton e Carlos Alcaraz no estádio Arthur Ashe, o maior do ténis, acolhedor das cerca de 20 mil pessoas que de uma terça para uma quarta-feira se viram obrigadas a uma saída à noite. Eram para lá das três e meia da manhã quando o menos laureado dos tenistas, por quem o público mais torcia, catapultou um ás a mais de 200 quilómetros por hora para fechar o encontro, finalmente, no tiebreak do quinto parcial e dar nó ao laçarote da história.

Foi a partida que mais tarde acabou no torneio que existe desde 1881. O norte-americano e o espanhol jogavam já há mais de quatro horas quando o cabeludo entre eles viu esse balázio trespassar as suas aspirações de regressar de quatro meses e meio de ausência (culpa de uma lesão no punho) e ganhar, logo de chofre, o US Open. Mas deixou espetáculo, como sempre.

Houve pontos espetaculares do espanhol, munido do seu costume de correr court fora para chegar a todas as bolas, distribuir brutais pancadas de ângulos impossíveis e ajeitar amortis impossíveis de prever. Houve esses pontos de ambos, para colorirem highlights nas redes sociais, tanto de Alcaraz como de Ben Shelton. Por estes dias quem mais faz pular os corações dos norte-americanos com a expetativa de verem um dos seus trepar até lá acima no ténis, o canhoto de 23 anos, mesma idade do espanhol, fulminou o adversário com o seu estrondoso serviço que lhe foi valendo pontos fáceis em todos os sets.

Foram cinco os parciais que contribuíram para um jogo montanha-russa: o primeiro renhido foi ao tiebreak, depois Shelton pisou sem dó Alcaraz com um 6-1, mais adiante o espanhol devolveu a gentileza, vomitou (de nervos, cansaço ou indigestão) pelo caminho e a disputa haveria de culminar no desempate final. Os dois quase émulos aparência, despidos de mangas para mostrarem os torneados braços, calçados com sapatilhas pretas e equipados em tons escuros, escorriam cansaço quando chegaram ao desempate.

Estava na cara da contenda de que a noite iria a um tira-teimas no quinto set. Ambos os musculados entraram em modo martelo no serviço e o público do Arthur Ashe, indiferente à contenção ruidosa que as normas do ténis impõem, ia rugindo a cada ponto ganho por Ben Shelton. A plateia era dele, não de Carlos, uma novidade adversa para o espanhol. O tiebreak era à melhor de 10 e eles empatados se viram quando trocaram de lado do campo (3-3), igualados se reviram à conta do risco que Alcaraz pôs numa direita cruzada, cheia de topspin (5-5), mas desconjuntado se viu o espanhol a responder a um serviço em que Shelton fez mira ao seu corpo.

Com um match point na raquete, o norte-americano fez explodir um potente ás, o sétimo do encontro e o 51º no torneio, para garantir a estenuante vitória, demorada a surgir ao contrário do rapidíssimo que ele é a servir: o saque mais veloz deste US Open é seu, detetado a 234 quilómetros por hora (logo atrás nesse capítulo ainda está o que Jaime Faria disparou a 228 km/h) vindo do seu estilo peculiar, de quem quase de cócuras se põe antes de dar um valente pulo para golpear a bola em suspensão no ar.

A pergunta que lhe fizeram na curta entrevista em campo, corriqueira dado o espanto para com o espetáculo, simplificou-se - Ben, como é que fizeste isto? “Para mim tem sempre a ver com as pessoas na bancada, sejam os meus treinadores, a minha família ou os meus amigos. Hoje, foi a cidade de Nova Iorque que me apoiou até às três da manhã, foi isso que me motivou a continuar”, resumiu o carismático tenista, hábil a estimular o público que tem nas cordas da sua raquete. “Digo sempre que é a maior cidade desportiva do mundo, este é o melhor estádio do mundo”, juntou, alquimista do carinho que vai recebendo.

Alcaraz já se despedira de mochila ao ombro, mala de cabedal na outra mão, de cara pintada com um bruto sorriso a ligar as suas orelhas. Foi embora à sua maneira, leve e bem-disposto pelo menos para fora, por certo triste pela derrota mas a irradiar uma atitude que é um dos condimentos da aura que, não bastasse todo o seu talento, ainda o faz ser mais querido por quem aprecia ténis. Após quase cinco meses de ausência por lesão, só uma espetacular maratona o tirou do US Open.

Só espero que a minha irmã não tenha de ir trabalhar às seis da manhã daqui a pouco”, brincou Ben Shelton, arrancando um “e eu?” da sua namorada, Trinity Rodman, futebolista profissional que o alentou da bancada e dali por horas terá treino nos Washington Spirit, uns 400 quilómetros longe de Nova Iorque.

Haverá de perdoar as palavras do seu mais que tudo, feliz da vida com a primeira vitória da carreira contra um adversário do top 3 do ranking, para mais uma que o devolve às meias-finais do US Open, onde esteve em 2023. Os americanos estarão rejubilantes: o seu adversário será Frances Tiafoe, outro nascido na terra da bandeira com 50 estrelas. Um finalista da casa está garantido para o próximo domingo. A cada conferência de imprensa, como Ben Shelton tanto se tem queixado, continuarão a questioná-lo da pressão, das expetativas, do que lhe vai na cabeça sobre a dúvida se será desta que Andy Roddick, último americano a conquistar o major de Nova Iorque, arranja um sucessor.

Vinte e três anos volvidos, e sem Alcaraz nem Jannik Sinner lá para estorvar, terá de aguentar esse interrogatório: face ao que está a jogar, parece bastante provável que seja ele.

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