O bling-bling de Nova Iorque é o quintal de Aryna Sabalenka
Apesar da sua quarta final seguida do US Open, Aryna Sabalenka vai perder a liderança do ranking mundial
Julian Finney
Após uns quatro meses sem vitórias de maior, em que só superou os oitavos de final em três dos sete torneios nos quais participou, Aryna Sabalenka está na final do US Open pelo quarto ano seguido. A tenista vai perder a liderança do ranking para Elena Rybakina, a sua adversária no sábado, mas voltou a tecer amores pelas luzes do encanto do seu Grand Slam preferido: diz que a energia de Nova Iorque a empurra, até batizou o seu cão com o nome do maior estádio da prova e joga com um colar de pedras preciosas para “o brilho distrair as adversárias“
Ouvir uma tenista elogiar os imponderáveis, falando deles com carinho, serve de espreitadela para o peso que as coisas mentais têm por muito que se desconfie da sua influência. “Eu simplesmente amo Nova Iorque, amo estar aqui, amo a energia da cidade”, confessou Aryna Sabalenka, amante da selva de cimento que nunca dorme, segundo cantou Frank Sinatra, onde vive mais gente nos Estados Unidos. “É isso que realmente me inspira e empurra a continuar.”
Casa para uma catrefada de celebridades, muitas das quais visitam amiúde as bancadas do último Grand Slam do ano, Nova Iorque é sinónimo de fausto. Como no Mundial de futebol, o torneio arrancou rodeado de queixas contra a escalada do preço dos bilhetes que levaram Zohran Mamdani, o mayor da cidade, a replicar o que fez durante a maior prova desportiva do planeta, comprando ingressos para distribuir pelos residentes. Mas até obling-bling nova-iorquino combina com o de Sabalenka.
Como em todos os restantes jogos desta edição do US Open, na madrugada desta sexta-feira a jogadora teve ao pescoço um pomposo colar de ouro, feito de 83 quilates e adornado com safira, turmalina, espinélio, tarzanita e outras pedras preciosas enquanto venceu Jessica Pegula nas meias-finais, em dois parciais (7-5, 6-2). Embalada pelo seu jogo pneumático no fundo do court, constante a manter a velocidade da sua bola com potentes pancadas, nem foi necessária a intervenção da joalharia para a ajudar. “A principal tática“, disse Sabalenka há dias sobre o colar, “é distrair as minhas adversárias com o brilho“.
Sabalenka com o colar de ouro de 83 quilates ao pescoço: assim tem jogado no US Open de 2026
Patrick Smith
Exuberante nas palavras como o é nas raquetadas, a bielorrussa tão amiga da linha de fundo do campo para de lá dominar um encontro está na final do US Open pelo quarto ano seguido. O seu amor por Nova Iorque traduz-se no ténis, ou foi o ténis a cativar o seu carinho pela cidade, a relação terá dois sentidos. “Sinto-me confiante, e mental e fisicamente muito forte neste momento”, garantiu a tenista, de 27 anos, após superar sem soluços Jessica Pegula, também ela conhecedora de exuberância: nasceu em família milionária, filha de pais que são donos dos Buffalo Bills (equipa de futebol americano da NFL) e dos Buffalo Sabres (de hóquei no gelo, NHL).
A própria Pegula serviu de atestado para a forma insuperável como foi vergada por Sabalenka, reagindo à derrota com humor. “Ficámos, tipo, ‘Tu gostas de nós?’. Somos boas pessoas, somos bastante simpáticos para ti. Achas que um dia talvez possas relaxar um pouco para que eu consiga ter uma hipótese?”, brincou a jogadora na conferência de imprensa depois da partida. A sua vénia impotente perante a exibição de Aryna no sexto jogo que fez neste US Open acentuou também a maneira um tanto inesperada como a bielorrussa tem varrido quem se cruza com ela no court.
Está imparável no piso duro de Nova Iorque, onde a rapidez das condições favorece o seu jogo de potência e os 1,82 metros que o sustém, mas desde março que custava a Sabalenka manter um fio à meada da consistência. Desde o Masters de Miami, igualmente um hard court, que apenas superou os oitavos de final em três dos sete torneios nos quais competiu. Assim que o circuito se deixou da sua superfície preferida, visitando a terra batida e a relva onde os terrenos escorregadios estremecem a base do seu jogo, a maior dominadora do ténis feminino desta década sofreu.
Viu-se então uma Aryna Sabalenka agastada com ela própria, barafustando ocasionalmente durante os jogos, frustrada pelo que lhe custava competir com adversárias ao seu alcance - até que regressou a Nova Iorque.
Aryna Sabelenka vai jogar a final do US Open pelo quarto ano seguido, tal como o fez no Open da Austrália
Simon Bruty
Encantada pelos ares da cidade, redescobriu a estabilidade e as sensações que a alentam no seu major predileto, mais ainda do que o Open da Austrália, onde em janeiro atingiu também a sua quarta final consecutiva. Lá em baixo, na terra dos cangurus e dos koalas, o happy slam de Melbourne imita o de Nova Iorque nas condições ideiais que oferece para que floresça a faceta opressora de Sabalenla - “courts rápidos, onde a bola salte também um pouco, dão-me muitas hipóteses para empurrar a adversária para trás“. Mas a Austrália não é o magnificente torneio norte-americano.
Nem tem o maior dos estádios da modalidade, o ruidoso Arthur Ashe, onde cabem umas 25 mil pessoas e será a mais atrevida das arenas a não fazer grande caso dos códigos de pouco barulho que a modalidade impõe a quem a pretenda ver ténis ao vivo. Aryna Sabalenka adora-o. Ou “amar” quiçá seja o verbo mais indicado: ela até batizou o cão em honra da arena, chama-se “Ash”.
É lá que defronta, no sábado, Elena Rybakina, a cazaque que seja qual for o resultado lhe roubará a liderança do ranking mundial na próxima segunda-feira, após 99 semanas da bielorrussa a ser a número 1 com o devido destaque: foi, por exemplo, capa das revistas “Vogue” e “Time” nos últimos meses.
Meio a brincar, meio a sério, a primeira reação de Sabalenka foi de desinteresse: “Não me importa.” O que ela quererá mesmo é brilhar em Nova Iorque.