Novak Djokovic tem um registo escrito a tinta da china que Nuno Borges não conseguiu apagar
Nuno Borges defrontou Novak Djokovic pela segunda vez na carreira
Lintao Zhang
O sérvio realizou o 30º jogo em Pequim. Tal como nos 29 anteriores, ganhou. Desta vez a vítima foi Nuno Borges, que cedeu por 6-3 e 7-6 (7-2). O português ainda conseguiu deixar Djokovic de joelhos com um segundo set de grande nível, mas foi vítima do instinto de sobrevivência do adversário
Um jogo contra Novak Djokovic nesta fase da carreira do sérvio seduz os adversários com uma hipótese antes impensável. Aqui e ali, o tenista de 39 anos vai deixando algumas migalhas que o humanizam. Tanto pode chegar à final do Open da Austrália, como fez no início do ano, ou perder contra o 79º melhor do mundo, Dino Prižmić, no Masters 1000 de Roma.
Passaram-se 11 anos desde a última vez que Nole participou no torneio de Pequim. Regressar foi por isso aceitar o risco de que poderia engordurar a nívia toalha. Em 29 jogos realizados no torneio asiático, nunca aprendeu a dizer derrota em mandarim e para a posteridade deixou campanhas imaculadas como o percurso até ao título de 2010, 2014 e 2015, três das seis ocasiões em que ganhou a competição.
Do outro lado da rede neste ATP 500, Nuno Borges encontrou a resiliência de Djokovic, que mesmo quando parecia perdido encontrou maneira de ressuscitar. O português bem quis apagar um registo perfeito escrito a tinta da china, mas não conseguiu acrescentar uma derrota ao historial do adversário.
As melhores sondagens às preferências do público acontecem quando se decide um ponto que parecia interminável. Nuno Borges enfrentou um break point bastante cedo. Djokovic intrometeu-se no serviço do tenista nacional após ambos terem trocado dezenas de pancadas. Aí se percebeu que os adeptos estavam a favor do 24 vezes vencedor de Grand Slams.
O maiato ganhou um novo ânimo quando Djokovic pareceu perder a confiança no serviço. Borges viu-se então com dois break points nas cordas da raquete. Nesse momento, o sérvio exibiu frieza, encostando o jogador dez anos mais novo aos leds que limitavam a área de jogo para depois lhe cravar um doloroso amorti, gesto repetido exaustivamente.
Até quando a bola parecia disparada com alguma impetuosidade, Djokovic dava uma resposta em que desprezava a violência com que esta lhe era dirigida. Aparentando ter tudo sob controlo, o rumo dos 16 avos de final começou a inclinar-se a seu favor.
O sérvio apresentou queixas físicas durante o encontro
Fred Lee
O jogo ultrapassou a fase de aquecimento no arranque do segundo set. O próprio Djokovic aplaudiu o Borges quando este lhe aplicou uma combinação exímia de direita cruzada seguida de direita paralela. O português ganhava assim algum ânimo que expressava alternadamente através “Yes!“e “Vamos!“.
Em cima do piso rápido, Nuno era o mais enérgico. Mesmo que sofresse com pancadas que o sobrevoavam como um golo de chapéu, não ia largar o segundo set com tanta facilidade como tinha feito com o primeiro. Djokovic colocou-se de joelhos e solicitou assistência médica na zona abdominal. Borges não ficou muito convencido quanto à necessidade do jogo parar, denotando desagrado com a perturbação do seu ascendente. O certo é que Nole completou um jogo de serviço perfeito logo de seguida (um de três consecutivos).
Nuno Borges ia progressivamente desviando parte dos aplausos para o seu ténis, passo que obrigou Djokovic a regressar ao ténis de precisão. Mesmo que definitivamente não estivesse na plenitude física, o jogador de Belgrado dispôs do único break point do segundo set, quando o jogo estava estacionado numa fase decisiva (4-4). Não aproveitou devido a um erro não forçado.
O decrépito Djokovic mostrou um inigualável instinto de sobrevivência. Quando Nuno Borges fez o 40-40 com o resultado em 6-5, respondeu ao momento de pressão com um serviço implacável que arrastou o encontro para o tie-break. Nessa fase, recorreu às manhas para ganhar fôlego. Ultrapassou o tempo limite para servir, engoliu mais um bafo de ar extra e tomou conta do desempate: 7-6 (7-2).
Esta dupla cruzou-se apenas pela segunda vez. No bairro dos vencedores, também não moram na mesma rua para que se possam ver todos os dias: entre Novak Djokovic e Nuno Borges há exatamente 100 títulos de distância. A diferença de estatuto notou-se. Embora, o resultado tenha sido o mesmo de sempre, este tornou-se certamente dos jogos mais difíceis que um dos melhores de sempre já realizou em Pequim.