“Foi um ato racista, SIM”: o que Prestianni disse, ou não disse, a Vinícius pôs o futebol a falar, outra vez, do Benfica-Real Madrid
Vinícius Júnior a olhar para o “número 25”, como lhe chamou Kylian Mbappé
Soccrates Images
Pela segunda vez em menos de um mês, o falatório após uma noite de Liga dos Campeões voltou a centrar-se no Estádio da Luz. Antes por um golo épico de Trubin, agora pelo alegado insulto racista de Prestianni contra Vini Jr no relvado. Mbappé revelou que ouviu o argentino a chamar “macaco“ ao brasileiro, Mourinho lembrou que a maior figura do Benfica (que desmentiu a acusação) é Eusébio e vários ex-jogadores, hoje comentadores, criticaram o episódio. Entre eles, Luisão
O primeiro dos envolvidos, talvez até o único, a deixar-se de meias-palavras ou paninhos quentes, foi Kylian Mbappé. “Tenho que o explicar bem, com calma, para as pessoas entenderam o que se passou”, disse, já vestido à civil, ao parar na zona mista do Estádio da Luz onde raríssimo é vê-lo a falar com jornalistas. “O número 25, não merece que diga o seu nome, teve más palavras com o Vini, são coisas que não aceito, mas que acontecem, e pôs a sua camisola por cima da cara para dizer cinco vezes ao Vini que era um ‘macaco’. Ouvi-o dizê-lo, a 100%.”
Cáustico na intervenção, Mbappé, um dos jogadores mais populares do futebol e confortável nos momentos que escolhe ter perante as câmaras, acusou Gianluca Prestianni de racismo. “São coisas que não podemos aceitar e nós, como estrelas do futebol mundial, tentamos mudar, porque sabemos que temos uma voz que pesa muito, temos de ser um exemplo para as crianças”, defendeu, fazendo o mesmo ‘x’ com as palavras que o árbitro do jogo fez com os braços, no relvado, para sinalizar a queixa de Vinícius Júnior como dita o protocolo para situações de racismo da UEFA.
Logo no campo, no “bocadinho de tensão” entre jogadores, como descreveu Mbappé, o gaulês terá acusado o jogador do Benfica disso mesmo. “És um racista!”, terá repetido o capitão da seleção francesa, segundo vários vídeos nas redes sociais que legenderam uma interação entre ambos. Usaram a ‘técnica’ virada moda, desde há muitos anos, pelo “El Dia Después”, um programa de televisão espanhol, da Movistar Plus+, que banalizou a leitura labial para cuscar as interações dos futebolistas durante os jogos. Ainda hoje se dedica a isso
Quando Prestianni tapou a cara com a camisola antes de dizer, se o disse, o que quer que tenha dito, o argentino replicou um comportamento - o mais comum é vê-los a taparem a boca com uma mão - bastante comum nos jogadores. “Todos me apontam o dedo porque eu escondo a boca com a camisola, quando sabem que todos os jogadores de futebol cobrem a boca para falar. Não inventem mais“, queixou-se o argentino, via X, o antigo Twitter.
O jogador do Benfica comprovou, com a seu ato de tapar a cara com a camisola e a posterior declaração, o lastro que tais programas espalharam no futebol. Ao fazê-lo, empurrou o episódio visto na Luz para ser tratado como a palavra de um jogador contra a palavra do outro.
O que se percebe pela reação oficial do Benfica ao sucedido. “Como demonstram as imagens, dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que andam a dizer que ouviram”, escreveu o clube ao partilhar um vídeo nas redes sociais, gravado à beira do relvado, com vários impropérios audíveis vindos das bancadas. A publicação surgiu após a de Gianluca Prestianni, no Instagram: “Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas ao jogador Vinícius Júnior, que lamentavelmente interpretou mal o que crê ter escutado.”
Vinícius a queixar-se ao árbitro sobre o alegado racismo de Prestianni
A mensagem do argentino acompanhou uma fotografia na qual surgem ambos os jogadores, mas captada durante a partida de 28 de janeiro, quando o Benfica venceu os merengues ainda na fase liga da Champions e concentrou o falatório das noites europeias no Estádio da Luz, devido ao golo épico de Anatoly Trubin. “Jamais fui racista com ninguém e lamento as ameaças que recebi de jogadores do Real Madrid”, leu-se ainda na reação de Prestianni. Pela segunda vez em menos de um mês, uma partida de Liga dos Campeões em casa dos encarnados pôs o ecossistema futebolístico a comentar o que lá se passou.
Na sucessão de jogadores do Real que pararam na zona mista diante dos jornalistas, Aurélien Tchouaméni, médio francês, contou a defesa feita por Prestianni: “Disseram-nos que o rapaz lhe chamou ‘macaco‘ com a camisola a tapar a boca. Depois ele diz que não disse nada, que disse ‘maricas‘.“ A gravidade não esmorece, seja qual for a versão.
Um pouco mais tarde chegou a reação de Vinícius Júnior, também no Instagram. “Racistas são, acima de tudo, cobardes. Precisam de colocar a camisa na boca para demonstrar como são fracos. Mas, eles têm, ao lado, a proteção de outros que, teoricamente, têm a obrigação de punir”, criticou, lembrando que “nada do que aconteceu” na terça-feira “é novidade na [sua] vida”. Em Espanha, o internacional brasileiro já foi alvo, mais de uma dezena de vezes, de insultos racistas desde 2018.
Já na manhã desta quarta-feira, a UEFA informou que “o relatório oficial” do árbitro “está a ser analisado” e, “no caso de algo ser reportado, será aberta a respetiva investigação”. As respetivas “sanções disciplinares”, se houver, “serão anunciadas no site” da entidade. O Real Madrid limitou-se a partilhar as declarações de Kylian Mbappé nas suas redes sociais. A Federação Portuguesa de Futebol, uma das responsáveis, além da homóloga espanhola e marroquina, por organizar o Mundial de 2030, não reagiu.
José Mourinho a falar com Vinícius Júnior, no Estádio da Luz, após o jogo ser interrumpido pela denúncia do brasileiro ao árbitro
JOSE SENA GOULAO
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lamentou “mais um ato de racismo” contra Vini Jr., repudiando os acontecimentos no Estádio da Luz. “Racismo é crime. É inaceitável. Não pode existir no futebol nem em lugar algum. Vini, você não está sozinho. Sua atitude ao acionar o protocolo é exemplo de coragem e dignidade. Temos orgulho de você. Seguiremos firmes na luta contra toda forma de discriminação. Estamos ao seu lado. Sempre”, escreveu. O atual selecionador do Brasil é Carlo Ancelotti, italiano que esteve com Vinícius, enquanto treinador do Real Madrid, na maioria dos episódios racistas sofridos pelo jogador.
De Luisão a Thierry Henry
Sendo uma noite de Liga dos Campeões, e só com quatro encontros realizados, portanto com menos atenção dispersa, o incidente no Estádio da Luz colocou muitas vozes a pronunciarem-se acerca dos cerca de 10 minutos em que o jogo esteve interrompido após a denúncia de racismo de Vinícius Júnior. Uma das mais respeitadas, que hoje tem assento num dos programas mais acompanhados na televisão audiência, foi a de Thierry Henry.
“Não queremos ver isto, quero saber da camisola que o Vinícius tem vestida. Eu não gosto do Real Madrid, mas hoje sou madridista. Vamos voltar ao ponto: o que foi dito. Foi dito que o Vini Jr. é um macaco, outra vez, o que vamos fazer?”, criticou, na CBS Sports, o campeão europeu e mundial por França, mais tarde vencedor de uma Champions com o Barcelona: E, por cima de tudo isto, ele não pode celebrar um golo?”
O acrescento do antigo jogador, cujo cargo mais recente no futebol o teve como treinador da seleção olímpica gaulesa, finalista vencida dos últimos Jogos, referiu-se a quem lidou o episódio puxando o Benfica, a sua dimensão, e o seu estatuto, para a conversa. Como José Mourinho. “Disse-lhe [a Vini Jr.] que quando marcas um golo daqueles, celebras e pronto. Quando ele estava a queixar-se de racismo, disse-lhe que a pessoa mais importante na história deste clube é negro”, contou o treinador, à Amazon Prime, referindo-se a Eusébio, já depois de opinar que quando se marca “um golo espantoso, celebras de uma forma respeituosa”.
Outrora jogador do Real Madrid e presente em estúdio na terça-feira, a comentar para a mesma detentora dos direitos de TV da Liga dos Campeões, Clarence Seedorf condenou logo o português por “cometer um grande erro para justificar um abuso racial”, argumentando: “Ele está a dizer que é ok, quando o Vinícius te provoca, seres racistas. E acho que isso está muito errado.”
Vini Jr. com Mbappé e Tchouaméni, junto à bandeirola de canto no Estádio da Luz, a celebrar o golo que marcou ao Benfica
Maria Jimenez
Thierry Henry coincidiu nessa linha. “Não, não é uma generalização sobre o que é o Benfica enquanto clube, ninguém está a falar sobre isso, mas aquele indivíduo tem de responder pelo que disse. Não pode apenas dizer que não disse nada - então, tapaste a cara porquê?” O eloquente francês, no estúdio com Micah Richards, antigo jogador do Manchester City que chamou “cobarde” a Prestianni, ainda se alongou um pouco mais: “Ao colocar a camisola a tapar a boca, claramente já parece suspeito porque não quis que as pessoas vissem o que ele disse.”
Não diante das câmaras de televisão, mas teclando num ecrã de telemóvel, um dos mais relevantes capitães do Benfica deste século também opinou sobre o caso, com contundência. “Foi um ato racista, SIM, e eu estou envergonhado com isso”, escreveu Luisão, no Instagram, salvaguardando: “Essa camisola é muito grande, eu amo o Benfica, é a minha segunda pele.”
O brasileiro, que representou os encarnados, como jogador, entre 2003 e 2018, integrando depois a estrutura até 2025, manifestou-se contra nortear a atuação segundo regulamentos quando estas situações ocorrem: “Não tem a ver com protocolos, mas com princípios, em ser claro no que tem de ser feito. Não estou a julgar o Prestianni, que foi meu jogador enquanto diretor; nem o Vinícius Júnior. Mas, enquanto a vida ficar sob protocolo, nada será resolvido. A partir do momento em que existe, toda a gente se esconde atrás de um protocolo.”
Depois, muito se ouviu no comentariado televisivo em Portugal a apologia de um argumento centrado em Vinícius Júnior: de que estes episódios parecem apenas acontecer ao jogador do Real Madrid, como se um qualquer magnetismo atraísse o racismo ao brasileiro. Também para isso Thierry Henry teve resposta: “Ouvi algumas pessoas dizerem que isto está sempre a acontecer com ele. E depois? Não é o tema aqui, por que estamos a tentar mudar o assunto?”