Benfica

O Benfica “não precisa da centralização“ dos direitos televisivos e sugere que só alguns clubes o façam voluntariamente

O Benfica vendeu os direitos televisivos dos seus jogos em casa do campeonato, nas próximas duas épocas, por €114,2 milhões
O Benfica vendeu os direitos televisivos dos seus jogos em casa do campeonato, nas próximas duas épocas, por €114,2 milhões
Gualter Fatia

Nuno Catarino, diretor financeiro do Benfica, pediu o adiamento dos prazos da centralização dos direitos televisivos da I Liga, criticou o “formato Big Bang“ do modelo previsto e propôs até que só alguns clubes possam “empacotar o seu produto“, para o tentarem “vender no mercado“ numa espécie de “centralização voluntária“

No que toca à venda de direitos televisivos em Portugal para jogos de futebol, apraz ao Benfica ter-se como a bitola em relação à qual os restantes clubes, e todo um setor, devem reger-se. Os números secundam a crença: há pouco mais de uma década, quando assinou um contrato de €400 milhões com a NOS para 10 épocas, e faz três meses, ao anunciar outro acordo com a mesma operadora até 2028, por €114,2 milhões. Ou seja, por duas temporadas o Benfica receberá mais de um quarto do valor que conseguira por uma dezena na negociação anterior.

O preto rubricado no branco, desta vez, fixou o prazo em 2028 por esse ser o ano em que o futebol português obrigado está, pelo Governo, a negociar coletivamente os direitos televisivos da I Liga, acabando com o ‘cada um sabe de si’ que vigora no país.

No que toca a este tema, o Benfica tão-pouco escondeu a sua postura, constante na voz de Rui Costa, o presidente sempre dizente de que o clube “não pode ser prejudicado” e crítico do projeto estipulado por decreto-lei do qual muito pouco se sabe além de algumas datas vinculativas, como a de 30 de junho de 2026, limite até ao qual devia ser entregue pela Liga à Autoridade da Concorrência uma proposta de modelo de comercialização centralizada dos direitos. A entidade apressou-se, submetendo o projeto 11 meses antes do prazo. E desde junho do ano passado que não chegam a público novidades relevantes acerca do assunto.

Enquanto isso, o clube denta aqui e ali o assunto. Na sexta-feira, dia em que revelou os seus resultados financeiros da SAD no primeiro trimestre de 2025/26, o lucro de €29 milhões nas contas foi pretexto para o seu diretor financeiro criticar os moldes atuais - que ninguém sabe bem quais são - do modelo. “O Benfica não precisa da centralização para valorizar o produto que comercializa”, defendeu Nuno Catarino à “BTV”, apesar dos encarnados, como os restantes clubes, estarem legalmente vinculados à comercialização coletiva.

A ideia-base do projeto é juntar os 18 clubes da I Liga para vender os direitos televisivos dos seus jogos, como acontece na Premier League, La Liga ou Bundesliga, na premissa de que negociar como um todo originará mais dinheiro para cada parte. O dirigente não concorda, propondo o “repensar do modelo” para que a centralização seja só para alguns: “(...) que façam uma centralização voluntária, ou seja, se juntem, e isso faz todo o sentido. Juntarem-se 10, 20, 30, quem se quiser juntar. Empacotam o seu produto, tentam vender o seu produto no mercado e temos aqui uma centralização voluntária de quem precisa deste formato como está aqui.”

As palavras de Nuno Catarino vieram no final de uma semana em que Rui Costa, presidente do Benfica, foi à Assembleia da República partilhar as preocupações do clube com os líderes parlamentares do PSD, Chega e PS, os três partidos mais representados. Não são, por isso, inocentes. Saudando as “conversas produtivas”, o diretor financeiro falou de um “desligamento, quase, da realidade do decreto-lei”, criticando o “formato de centralização Big Bang” que depois explicou: “Há um dia maravilhoso em que aparece um mundo novo. Acho que todos já percebemos que não é isso que vai acontecer”.

Pegando nos €300 milhões definidos, ainda Pedro Proença liderava a Liga de Clubes, como fasquia para a venda dos direitos coletivos do principal campeonato português, o dirigente encarnado concede que tal daria “para acomodar algum crescimento para o Benfica, um maior crescimento para clubes mais pequenos, algum crescimento para os outros dois grandes, para o SC Braga, para todas as equipas”. Mas, defendeu, tal é “um mundo de maravilhas”. Os bracarenses, como as águias, têm até ao final desta temporada para negociar a venda dos seus direitos para as próximas duas, pelo que o valor que consigam será outro indicador pertinente.

Embalado pela venda recente dos seus direitos, o Benfica quer um adiamento do que está feito para dar tempo a que seja feito o trabalho de casa que não foi feito até agora“ de modo a repensar um pouco o modelo“. Será possível apenas se os santos de todos - clubes, Governo, Liga, Federação Portuguesa de Furebol, Autoridade da Concorrência - casarem. Ainda em julho de 2025, pouco depois da última final da Taça de Portugal, o Benfica retirou-se da negociação da centralização dos direitos televisivos e chegou a exigir a suspensão do processo.

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